Prostituição e Supremacia Masculina

10 mar

por Andrea Dworkin

dworkinpodium

 [Andrea Dworkin pronunciou este discurso em um simpósio intitulado "Prostituição: Da Academia ao Ativismo," patrocinado pelo Michican Journal of Gender and Law na Universidade de Michigan Law School, 31 de Outubro, 1992.]


Eu sou muito honrada de estar aqui com minhas amigas e minhas iguais, minhas irmãs deste movimento.

Eu também sinto uma quantidade terrível de conflito relativo a estar aqui, porque é muito duro pensar a respeito de falar sobre prostituição em um ambiente acadêmico. É realmente difícil.

As suposições da academia mal podem começar a imaginar a realidade da vida para mulheres na prostituição. A vida acadêmica é estabelecida na noção preexistente que há um amanhã e o próximo dia e um dia seguinte; ou que alguém pode vir para dentro, longe do frio, para estudar; ou que há algum tipo de discussão de idéias e um ano de liberdade no qual você pode ter discordâncias que não lhe custarão sua vida. Estas são premissas que aqueles que são estudantes ou que lecionam aqui influenciam diariamente. Elas são antitéticas para as vidas de mulheres que estão ou que estiveram na prostituição.

Se você esteve na prostituição, você não tem amanhã em sua mente, porque amanhã é um tempo muito distante. Você não pode supor que viverá de um minuto a outro. Você não pode e você não faz. Se você faz, então você é tola, e ser tola no mundo da prostituição é ser danificada, é ser morta. Nenhuma mulher que é prostituída pode se permitir ser tão tola, de modo que ela verdadeiramente acreditaria que o amanhã virá.

Eu não posso reconciliar estas diferentes premissas. Eu apenas posso dizer que as premissas da mulher prostituída são minhas premissas. Minhas ações são provenientes delas. São nelas que meu trabalho esteve baseado todos estes anos. Eu não posso aceitar – porque eu não posso acreditar – as premissas do feminismo que sai da academia: o feminismo que diz que nós ouviremos todos estes lados ano após ano, e então, algum dia, no futuro, por meio de algum processo que nós ainda não descobrimos, nós decidiremos o que é certo e o que é verdade. Isso não faz sentido para mim. Eu compreendo que para muitos de vocês isso faz sentido. Eu estou falando através do maior divisor cultural em minha própria vida. Eu tenho tentado falar através dele por vinte anos com o que eu consideraria sucesso marginal.

Eu quero trazer-nos de volta aos fundamentos. Prostituição: o que é ela? É o uso do corpo de uma mulher para sexo por um homem, ele paga dinheiro, ele faz o que quer. O minuto que você se move para fora do que ela realmente é, você se move para longe da prostituição no mundo das idéias. Você se sentirá melhor; você terá um tempo melhor; é mais divertido; há o bastante para se discutir, mas você estará discutindo idéias, não prostituição. Prostituição não é uma idéia. É a boca, a vagina, o reto, penetrado geralmente por um pênis, às vezes por mãos, às vezes por objetos, por um homem e então outro e então outro e então outro e então outro. É isso o que ela é.

Eu peço que vocês pensem sobre seus próprios corpos – se vocês podem fazer de tal modo fora do mundo que os pornógrafos criaram em suas mentes, as bocas e vaginas e ânus flutuantes, lisos e mortos, de mulheres. Eu peço que vocês pensem concretamente sobre seus próprios corpos usados dessa maneira. Quão sexy é isto? É divertido? As pessoas que defendem prostituição e pornografia querem que vocês sintam uma pequena excitação excêntrica toda vez que vocês pensarem em algo enfiado em uma mulher. Eu quero que vocês sintam os delicados tecidos em seu corpo que estão sendo abusados. Eu quero que você sinta qual é a sensação quando isso acontece novamente e novamente e novamente e novamente e novamente e novamente e mais uma vez: porque é isso que a prostituição é.

Por esse motivo que – da perspectiva de uma mulher na prostituição ou de uma mulher que esteve na prostituição – as distinções que outras pessoas fazem entre se o evento aconteceu no Hotel Plaza ou em algum lugar mais deselegante não são as distinções que importam. Estas são percepções irreconciliáveis, com premissas irreconciliáveis. Naturalmente as circunstâncias devem importar, vocês dizem. Não, elas não importam, porque nós estamos falando sobre o uso da boca, da vagina, e do reto. As circunstâncias não abrandam ou modificam o que a prostituição é.

E assim, muitas de nós estamos dizendo que a prostituição é intrinsicamente abusiva. Deixe-me ser clara. Eu estou lhes falando sobre a prostituição por si mesma, sem mais violência, sem violência extra, sem uma mulher ser golpeada, sem uma mulher ser empurrada. Prostituição em si mesma é um abuso do corpo de uma mulher. Aquelas de nós que dizem isto são acusadas de serem simplórias. Mas prostituição é muito simples. E se você não é simplória, você nunca a compreenderá. Quanto mais complexa você conduz a ser, mais distante da realidade você estará – estará mais prudente, estará mais feliz, mais diversão você terá discutindo o problema da prostituição. Na prostituição, nenhuma mulher permanece inteira. É impossível usar um corpo humano do modo que os corpos das mulheres são usados em prostituição e ter um ser humano inteiro no fim dela, ou no meio dela, ou perto do começo dela. É impossível. E nenhuma mulher fica inteira de novo mais tarde, depois. Mulheres que foram abusadas na prostituição têm algumas escolhas a fazer. Vocês viram aqui mulheres muito corajosas fazerem algumas escolhas muito importantes: usar o que elas sabem; tentar comunicar-lhes o que elas sabem. Mas ninguém fica inteira, porque muito é levado embora quando a invasão é dentro de você, quando a brutalidade é dentro da sua pele. Nós tentamos tão duramente comunicar, cada uma de nós, a dor. Nós pleiteamos, nós fazemos analogias. A única analogia que eu posso pensar a respeito da prostituição é que ela é mais como violação múltipla do que ela é como qualquer outra coisa.

Oh, você diz, a violação múltipla é completamente diferente. Uma mulher inocente está andando pela rua e ela é tomada de surpresa. Toda mulher é a mesma mulher inocente. Toda mulher é tomada de surpresa. Na vida de uma prostituta, ela é tomada de surpresa novamente e novamente e novamente e novamente e mais uma vez. A violação múltipla é interrompida por uma troca de dinheiro. Isso é tudo. Essa é a única diferença. Mas o dinheiro tem uma qualidade mágica, não é? Você dá a uma mulher dinheiro e tudo o que você lhe fez ela quis, ela mereceu. Agora, nós compreendemos a respeito do trabalho masculino. Nós compreendemos que os homens fazem coisas que não gostam de fazer a fim de ganhar um salário. Quando homens fazem trabalho alienado em uma fábrica nós não dizemos que o dinheiro transforma a experiência para eles de tal maneira que eles a amaram, tiveram um bom divertimento, e de fato, aspiraram a mais nada. Nós olhamos para o enfado, a ausência de saída; nós dizemos, certamente a qualidade de vida de um homem deveria ser melhor que essa.

A função mágica do dinheiro é engendrada; o que é dizer, mulheres não são pretensas a terem dinheiro, porque quando mulheres têm dinheiro, presumivelmente mulheres podem fazer escolhas, e uma das escolhas que mulheres podem fazer é não estar com homens. E se mulheres escolhem não estar com homens, os homens então serão privados do sexo que homens sentem que têm um direito. E se é necessário que uma classe inteira de pessoas seja tratada com crueldade e indignidade e humilhação, colocada em uma condição de servidão, de modo que os homens possam ter o sexo que eles pensam que têm direito, então é o que acontecerá. Essa é a essência e o significado da dominação masculina. Dominação masculina é um sistema político.

É sempre extraordinário, quando olhando para esta troca de dinheiro, entender que nas mentes da maioria das pessoas o dinheiro vale mais do que a mulher é. Os dez dólares, os trinta dólares, os cinqüenta dólares, valem mais do que toda a sua vida. O dinheiro é real, mais real do que ela é. Com o dinheiro ele pode comprar uma vida humana e apagar sua importância de cada aspecto da consciência civil e social e consciência e sociedade, das proteções da lei, de todo direito de cidadania, de qualquer conceito de dignidade humana e soberania humana. Por malditos cinqüenta dólares qualquer homem pode fazer isso. Se você fosse pensar em uma maneira de punir mulheres por serem mulheres, pobreza seria o bastante. Pobreza é dura. Fere. As cadelas estariam arrependidas de serem mulheres. É duro estar com fome. É duro não ter um lugar agradável para viver. Você se sente realmente desesperada. Pobreza é muito punitiva. Mas pobreza não é o bastante, porque a pobreza sozinha não abastece o reservatório de mulheres para homens foderem em demanda. Pobreza é insuficiente para criar esse reservatório de mulheres, não importa quão famintas as mulheres fiquem. Assim, em diferentes culturas, as sociedades são organizadas diferentemente para alcançar o mesmo resultado: não somente as mulheres são pobres, mas a única coisa de valor que uma mulher tem é sua assim-chamada sexualidade, que, junto com o seu corpo, tem sido transformada em um produto vendável. Sua assim-chamada sexualidade torna-se a única coisa que importa; seu corpo se torna a única coisa que qualquer um quer comprar. Então uma suposição pode ser feita: se ela é pobre e precisa de dinheiro, ela estará vendendo sexo. A suposição pode estar errada. A suposição não cria o reservatório de mulheres que são prostituídas. Ele toma mais que isso. Em nossa sociedade, por exemplo, na população de mulheres que são prostituídas agora, nós temos mulheres que são pobres, que tem vindo de famílias pobres; elas também são vítimas de abuso sexual infantil, especialmente incesto; e elas tornaram-se desabrigadas.

Incesto é o campo de treinamento. O incesto é onde você envia a garota para aprender como fazer. Assim você, obviamente, não tem de enviá-la para lugar nenhum, ela já está lá e ela não tem nenhum outro lugar para ir. Ela é treinada. E o treino é específico e é importante: não ter limites reais ao seu próprio corpo; saber que ela é valiosa somente para o sexo; aprender sobre homens o que o ofensor, o ofensor sexual, lhe está ensinando. Mas mesmo isso não é o bastante, porque depois ela foge e ela está fora nas ruas e desabrigada. Para a maioria das mulheres, alguma versão de todos estes tipos de destituição precisa ocorrer.

Eu tenho pensado muito nos últimos dois anos sobre o significado da falta de lar para mulheres. Eu penso que é, em um sentido literal, uma condição prévia, junto com o incesto e a pobreza nos Estados Unidos, para criar a população de mulheres que podem ser prostituídas. Mas isso tem um significado mais extenso, também. Pense sobre onde alguma mulher realmente tem um lar. Nenhuma criança está segura em uma sociedade na qual uma de cada três garotas será abusada sexualmente antes de ter dezoito anos. Nenhuma esposa está segura em uma sociedade em que figuras aparecem para dizer que uma de duas mulheres casadas foi ou é espancada. Nós somos as donas de casa; nós fazemos estes lares, mas não temos direitos a eles. Eu penso que nós estávamos erradas ao dizer que prostituição é a metáfora para o que acontece a todas as mulheres. Eu penso que a falta de um lar é realmente essa metáfora. Eu penso que as mulheres estão expropriadas de um lugar para viver que seja seguro, que pertença à própria mulher, um lugar em que ela tenha não apenas a soberania sobre seu corpo, mas a soberania sobre a sua vida social real, quer ela seja a vida em uma família ou entre amigos. Na prostituição, uma mulher permanence desabrigada.

Mas há algo muito específico sobre a condição de prostituição que eu gostaria de tentar falar a respeito com vocês.

Eu quero enfatizar que nestas conversas, estas discussões sobre a prostituição, nós estamos todas procurando por uma linguagem. Nós todas estamos tentando encontrar maneiras de dizer o que nós sabemos e também descobrir o que nós não sabemos. Há uma presunção da classe media que a mesma sabe tudo o que vale a pena saber. É uma presunção da maioria das mulheres prostituídas que ela sabe nada que vale a pena saber. De fato, nenhuma das duas coisas é verdadeira. O que importa aqui é tentar aprender o que a mulher prostituída sabe, porque é de imenso valor. É verdadeiro e tem sido escondido. Tem sido escondido por uma razão política: sabê-lo é chegar mais perto de saber como desfazer o sistema de dominação masculina que está assentado sobre todas nós.

Eu penso que as prostitutas experimentam uma inferioridade específica. Mulheres em geral são consideradas sujas. A maioria de nós experimenta isto como uma metáfora, e, sim, quando as coisas ficam muito ruins, quando coisas terríveis acontecem, quando uma mulher é estuprada, quando uma mulher é golpeada, sim, então você reconhece que embaixo da sua vida de classe média existem suposições que porque você é uma mulher você é suja. Mas uma prostituta vive a realidade literal de ser a mulher suja. Não há metáfora. Ela é a mulher coberta de sujeira, o que é dizer que cada homem que esteve alguma vez sobre ela deixou uma parte de si mesmo para trás; e ela é também a mulher que tem uma função puramente sexual sob o domínio masculino de modo que à extensão que as pessoas acreditam que sexo é sujo, as pessoas acreditam que mulheres prostituídas são sujas.

A mulher prostituída não é, entretanto, estática nesta sujeira. Ela é contagiosa. Ela é contagiosa porque um homem após o outro avança sobre ela e então ele parte. Por exemplo, em discussões sobre AIDS, a mulher prostituída é vista como a fonte da infecção. Esse é um exemplo específico. Geralmente, a mulher prostituída é vista como a fonte geradora de tudo que é ruim e errado e podre relacionado a sexo, com o homem, com mulheres. Ela é vista como alguém que é merecedora de punição, não apenas por causa do que ela “faz” – e eu ponho faz entre aspas, visto que na maioria das vezes isso lhe é feito – mas por causa do que ela é.

la prostitucion no es trabajo

Ela é, naturalmente, a mulher anônima perfeita. Os homens amam isso. Enquanto ela estiver em seu vigésimo quarto nome falso – boneca, bebê, gracinha, torta de cereja, o que quer que os pornógrafos estejam preparando esta semana como uma invenção mercadológica – seu anonimato diz ao homem, ela não é ninguém real, eu não tenho que ocupar-me com ela, ela não tem um último nome de qualquer modo, eu não tenho de lembrar quem ela é, ela não é alguém específica para mim, ela é uma incorporação genérica da mulher. Ela é percebida como, tratada como – e eu quero que você lembre disto, isto é real – muco vaginal. Ela é suja; muitos homens estiveram lá. Muito sêmen, muito lubrificante vaginal. Isto é visceral, isto é real, isto é o que acontece. Seu ânus é frequentemente rasgado por causa do intercurso anal, ele sangra. Sua boca é um receptáculo para sêmen, deste modo que ela é percebida e tratada. Todas as mulheres são consideradas sujas por causa do sangue menstrual, mas ela sangra outras vezes, em outros lugares. Ela sangra porque ela foi ferida, ela sangra e tem ferimentos.

Quando homens usam mulheres na prostituição, eles estão expressando um ódio puro ao corpo feminino. É tão puro como qualquer coisa nesta terra jamais foi ou é. É um desprezo tão profundo, tão profundo, que uma vida humana inteira é reduzida a alguns orifícios sexuais, e ele pode fazer qualquer coisa que ele quiser. Outras mulheres nesta conferência disseram-lhes isso. Eu quero compreender, acreditar nelas. É verdade. Ele pode fazer qualquer coisa que quiser. Ela não tem nenhum lugar para ir. Não há nenhum policial para se queixar; o policial pode bem ser o indivíduo que está fazendo isso. O advogado que ela encontra vai querer pagamento na mesma moeda. Quando ela precisa de ajuda médica, verifica-se que ele é apenas um outro freguês. Você compreende? Ela não é literalmente nada. Agora, muitas de nós temos experiências nas quais nos sentimos como nada, ou nós sabemos que alguém nos considera como nada ou menos que nada, sem valor, mas para uma mulher na prostituição, esta é a experiência de vida diária, dia a dia.

Ele, entretanto, o campeão aqui, o herói, o homem, ele está ocupado ligando-se com outros homens através do uso do corpo dela. Uma das razões que ele está lá é porque algum homem esteve lá antes e algum homem estará lá depois dele. Isto não é teoria. Quando você vive isso, você vê é verdade. Homens usam os corpos de mulheres em prostituição e em violação múltipla para comunicarem-se uns com os outros, para expressar o que eles têm em comum. E o que eles têm em comum é que eles não são ela. Assim ela torna-se o veículo de sua masculinidade e seu homoerotismo, e ele usa as palavras para dizer-lhe isso. Ele compartilha a sexualidade das palavras, assim como dos atos, dirigidos a ela, com outros homens. Todas esses palavrões são apenas as palavras que ele usa para dizer-lhe o que ela é. (E do ponto de vista de qualquer mulher que foi prostituída – se fosse pra ela expressar esse ponto de vista, o que é provável que ela não expresse – a luta que artistas masculinos travam pelo direito de usar palavrões é uma das chacotas mais doentias e desprezíveis na face desta terra, porque não há nenhuma lei, nenhuma regra, nenhuma etiqueta, nenhuma cortesia que interrompa qualquer homem de usar cada uma daquelas palavras em qualquer mulher prostituída; e as palavras têm o ferrão que é pretendido terem porque de fato, a estão descrevendo.) Ela é consumível. Engraçado, ela não tem nome. Ela é uma boca, uma vagina, e um ânus, quem precisa dela em particular quando existem tantas outras? Quando ela morre, quem sente sua falta? Quem lamenta por ela? Ela está ausente, alguém vai procurá-la? Eu quero dizer, quem é ela? Ela não é ninguém. Não metaforicamente ninguém. Literalmente, ninguém.

Agora, na história do genocídio, por exemplo, os Nazistas se referiram aos Judeus como piolhos e eles disseram, nós vamos exterminá-los. Na história do massacre dos povos indígenas das Américas, aqueles que fizeram a política disseram, eles são piolhos, mate-os. Catharine MacKinnon falou mais cedo sobre a limpeza de gênero: assassinando prostitutas. Ela está certa. Mulheres prostituídas são as mulheres que estão aí, disponíveis para a matança ginocida. E as mulheres prostituídas estão sendo assassinadas a cada dia, e nós não pensamos que estamos encarando qualquer coisa semelhante a uma emergência. Por que nós deveríamos? Elas não são ninguém. Quando um homem mata uma prostituta, ele se sente íntegro. É uma matança justa. Ele apenas se livrou de um pedaço de sujeira, e a sociedade lhe diz que ele está certo.

Há também um tipo específico de desumanização experimentado por mulheres que são prostituídas. Sim, todas as mulheres experimentam serem objetos, serem tratadas como objetos. Mas as mulheres prostituídas são tratadas como um determinado tipo de objeto, que é dizer, um alvo. Um alvo não é qualquer objeto velho. Você pode cuidar consideravelmente bem de alguns objetos que você tem em torno da casa. Mas você vai atrás de um alvo. Você põe o dardo no buraco. Para isso que a prostituta existe. O que isso deveria lhe dizer é quanta agressão entra no que um homem faz quando ele procura, encontra, e usa uma mulher prostituída.

Um dos conflitos que eu sinto a respeito de falar aqui, estar aqui, é que eu estou receosa que qualquer coisa que eu diga que é mesmo levemente abstrata afastará imediatamente a mente de todo mundo do problema fundamental. E o problema fundamental é o que é feito às mulheres que estão na prostituição, o que exatamente a prostituição é. Mas eu tenho que correr esse risco porque eu quero lhes dizer que vocês não podem pensar sobre a prostituição a menos que você se disponha a pensar sobre o homem que precisa foder a prostituta. Quem é ele? O que ele está fazendo? O que ele quer? Do que ele precisa?

Ele é todos. Eu quero que você tome uma hora, na Segunda-feira. Eu quero que você ande pela sua escola, e eu quero que você olhe para cada homem. Eu quero que você retire as roupas dele com seus olhos. Eu quero que você o veja com um pau duro. Eu quero que na sua mente você o coloque em cima de uma mulher com dinheiro sobre a mesa próxima a eles. Todos. O reitor desta escola de direito, os professores, os estudantes masculinos, todos. Se você está indo à sala de emergência, eu quero que você faça isso. Se você tem um ataque cardíaco, eu quero que você faça isso com o médico que está cuidando de você. Porque este é o mundo em que as mulheres prostituídas vivem. É um mundo em que não importa o que lhe acontece, há um outro homem que queira uma parte de você. E se você precisa de algo dele, você tem que dar-lhe essa parte.

Os homens que usam prostitutas pensam que são realmente grandes e realmente corajosos. Eles estão muito orgulhosos de si mesmos – eles vangloriam-se muito. Eles escrevem romances, escrevem canções, escrevem leis – povo produtivo – e têm uma percepção que eles são muito aventureiros e heróicos, e por que eles pensam isso? Porque eles são predadores que saem e perturbam as mulheres – eles se esfregam contra uma mulher que seja suja e vivem para contar sobre isso. Maldição. Eles vivem para contar sobre isso. Infelizmente. Virtualmente todo o tempo, não importa o que fizeram, não importa que dano eles tenham feito a ela – eles vivem para contar sobre isso, cantar a respeito disso, escrever sobre isso, fazer programas televisivos sobre isso, fazer filmes sobre isso. Eu gostaria de lhes dizer que estes homens são covardes, que estes homens são brutos, que estes homens são tolos, que estes homens são capazes de fazer o que eles fazem porque eles têm o poder dos homens como uma classe atrás deles, que eles alcançam porque os homens usam força contra as mulheres. Se você quer uma definição do que é um covarde, é necessitar empurrar uma classe inteira de pessoas para baixo de modo que você possa andar sobre elas. As sociedade são organizadas de modo que os homens tenham o poder que precisem, para usar as mulheres da maneira que quiserem. As sociedades podem ser organizadas de maneiras diferentes e ainda criar uma população de mulheres que são prostituídas. Por exemplo, nos Estados Unidos as mulheres são pobres, as mulheres são a maioria das vezes vítimas de incesto, as mulheres são desabrigadas. Em partes da Ásia, elas são vendidas para a escravidão na idade de seis meses porque elas são fêmeas. Isso é como o fazem lá. Não tem que ser feito da mesma maneira em cada lugar para ser a mesma coisa.

Dominação masculina significa que a sociedade cria um reservatório de prostitutas por todos os meios necessários de modo que os homens tenham o que eles precisem para permanecer no topo, se sentirem grandes, literalmente, metaforicamente, em cada maneira; no entanto os homens são nosso padrão para seres humanos. Nós dizemos que queremos ser humanas. Nós dizemos que queremos que eles nos tratem como seres humanos. Numa sociedade de domínio masculino, homens são os seres humanos. Eu quero apontar-lhes que nós usamos a palavra humano metaforicamente. Nós não estamos falando sobre como os homens agem. Nós estamos falando sobre uma idéia, um sonho, uma visão que nós tenhamos, do que é um ser humano. Nós estamos dizendo que nós não os queremos pisando sobre nós; nós também estamos dizendo implicitamente que eles não são um bom padrão para o que é ser humano, porque olha o que nos estão fazendo. Nós não podemos querer ser como eles, porque ser como eles significa usar pessoas da maneira que eles usam pessoas – para o estabelecimento de sua importância ou de sua identidade. Eu estou dizendo que homens são em parte figuras mitológicas para nós quando falamos sobre eles como seres humanos. Nós não estamos falando sobre como os homens realmente se comportam. Nós estamos falando sobre a mitologia dos homens como os árbitros da civilização. Este movimento político envolve compreender que as qualidades humanas que nós queremos na vida um com o outro não são qualidades que caracterizam a maneira como os homens se comportam realmente.

 las feministas exigimos ni una mujer mas víctima de las redes de prostitución

O que a prostituição faz numa sociedade de dominação masculina é que ela estabelece a parte social abaixo de que não há nenhuma parte inferior. É o fundo. Mulheres prostituídas estão todas na parte mais baixa. E todos os homens estão acima dela. Eles podem não estar muito acima, mas até os homens que são prostituídos estão acima da parte inferior que é formada por mulheres e meninas que são prostituídas. Cada homem nesta sociedade tira proveito do fato de que as mulheres são prostituídas quer cada homem use uma mulher na prostituição ou não. Isto não deveria ter que ser dito, mas isso tem de ser dito: a prostituição vem do domínio masculino, não da natureza feminina. É uma realidade política que existe porque um grupo de pessoas tem e mantém poder sobre um outro grupo de pessoas. Eu sublinho isso porque eu quero lhes dizer que a dominação masculina é cruel. Eu quero lhes dizer que a dominação masculina deve ser destruída. A dominação masculina precisa ser terminada, não simplesmente reformada, não feita um pouco mais agradável, e não feita um pouco mais agradável para algumas mulheres. Nós precisamos olhar para o papel dos homens –olhar realmente para ele, estudá-lo, compreendê-lo – em manter mulheres pobres, em manter mulheres sem abrigo, em manter meninas prostituídas, o que é dizer, em criar prostitutas, uma população de mulheres que serão usadas na prostituição. Nós precisamos olhar para o papel dos homens em romantizar prostituição, em fazer seus custos a mulheres culturalmente invisíveis, em usar o poder desta sociedade, o poder econômico, o poder cultural, o poder social, para criar o silêncio, criar o silêncio entre aquelas que foram feridas, o silêncio das mulheres que foram usadas.

Nós precisamos olhar para o papel dos homens em criar um ódio às mulheres, em criar discriminação contra as mulheres, em usar a cultura para sustentar, promover, advogar, celebrar agressão contra as mulheres. Nós precisamos olhar para o papel dos homens em criar uma idéia política de liberdade que somente eles podem realmente ter. Isso não é engraçado? O que é liberdade? Dois mil anos de discurso e de algum modo ele conduz a nos deixar de fora. É um monólogo surpreendentemente servido que eles tenham vindo aqui. Nós precisamos olhar para o papel dos homens em criar sistemas políticos que subordinam mulheres; e isso significa que nós temos de olhar para o papel dos homens em criar a prostituição, em proteger a prostituição – como a aplicação da lei faz isso, como o jornalismo faz isso, como os advogados fazem isso. Nós precisamos saber as maneiras em que todos esses homens usam prostitutas e em fazê-lo eles destroem a dignidade humana das mulheres.

A cura para este problema é política. Isso significa tomar o poder para longe dos homens. Isto é material real; é material sério. Eles têm muito disto. Eles não o usam direito. Eles são brigões. Eles não têm um direito ao que eles têm; e isso significa que tem que ser tomado deles. Nós temos que tomar o poder que eles têm de nos usar para longe deles. Nós temos que tomar o poder que eles têm de nos ferir para longe deles. Nós temos que tomar o dinheiro deles. Eles têm demasiado dele. Qualquer homem que tenha bastante dinheiro para gastar degradando a vida de uma mulher na prostituição tem demasiado dinheiro. Ele não precisa do que ele tem em seu bolso. Mas há uma mulher que precisa.

Nós precisamos levar embora seu domínio social – sobre nós. Nós vivemos em uma tirania de mentirosos e hipócritas e sádicos.

Agora, isso lhes custará lutar contra eles. Eles têm que ser descolados das mulheres, você me compreende? Eles precisam ser suspendidos para cima e para fora. O que é intratável sobre prostituição é domínio masculino. E é o domínio masculino que tem de ser terminado de modo que as mulheres não serão prostituídas.

Você, você – você tem que enfraquecer e destruir cada instituição que é parte de como os homens governam as mulheres. E não pergunte se você deveria. A pergunta é como, não se. Como? Faça uma coisa, ao invés de gastar suas vidas debatendo se vocês deveriam fazer isso ou se deveriam fazer aquilo e eles realmente merecem isso e é realmente justo? Justo? Isso é realmente justo? Queridas, nós poderíamos tomar as metralhadoras hoje à noite. Justo? Nós quebramos nossos próprios corações com estas perguntas. Isso é justo? Não respeite as leis deles. Não. Não respeite as leis deles. Mulheres precisam fazer leis. Eu espero que Catharine MacKinnon e eu tenhamos dado um exemplo. Nós tentamos. Não há nenhuma razão para nenhuma mulher, nenhuma mulher no mundo, realizar basicamente felação no sistema legal corrente. Mas na maior parte é o que alguém na escola de direito aprende a fazer.

O que eu espero que vocês levem daqui é isto: que todo e qualquer vestígio de hierarquia sexual significará que algumas mulheres em algum lugar estão sendo prostituídas. Se vocês olharem em torno de si e verem a supremacia masculina, vocês sabem que em algum lugar onde vocês não podem ver, uma mulher está sendo prostituída, porque toda hierarquia precisa de uma parte mais baixa e a prostituição é a parte mais baixa do domínio masculino. Assim, quando você se acomoda, quando concilia, quando se recusa propositadamente a saber, você está colaborando. Sim, eu sei que sua vida também está em cheque, mas sim, você está colaborando, as duas coisas são verdadeiras, na destruição da vida de uma outra mulher.

Eu estou pedindo que vocês façam a si mesmas inimigas do domínio masculino, porque ele tem que ser destruído para o crime da prostituição acabar – o crime contra a mulher, o crime da prostituição dos direitos-humanos: e tudo mais é além do ponto, uma mentira, uma desculpa, uma apologia, uma justificação, e todas as palavras abstratas são mentiras, justiça, liberdade, igualdade, elas são mentiras. Contanto que as mulheres estejam sendo prostituídas elas são mentiras. Vocês podem dizer a mentira e nesta instituição você será ensinada como contar a mentira; ou vocês podem usar suas vidas para desmantelar o sistema que cria e então protege este abuso. Você, uma pessoa bem treinada, pode estar com o abusador ou com a rebelde, a que resiste, a revolucionária. Você pode estar com a irmã a quem ele está fazendo isto; e se você é muito corajosa você pode tentar ficar entre eles de modo que ele tenha que passar através de você para chegar até ela. Esse, de qualquer maneira, é o significado da palavra escolha frequentemente mal empregada. Estas são escolhas. Eu estou lhe pedindo que faça uma escolha.

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7 Respostas para “Prostituição e Supremacia Masculina”

  1. Debora Hernandes 22/03/2009 às 21:12 #

    Como sempre,o mesmo bla bla bla e nada de ativismo real e concreto,pelo contrário: a prostituição está cada vez mais sendo incentivada,principalmente no Brasil.Este estado de inércia das ditas feministas é igualmente ofensivo e abusivo.

  2. IGN 01/03/2010 às 21:26 #

    Eu já conheceia este excelente texto,esclarecedor e cru sobre a cruelaade da prostituição.Só fico profundamente chateada de ver a maioria das feministas brasileiras ignorando esta temática e até defendendo-a!

  3. Ju 12/04/2011 às 18:07 #

    Caramba, se um discurso deste nível não faz parte do ativismo… o que será que faz então? Quantas que criticam seriam capazes de tamanha acuidade. Ativismo também é informar, e informar direito. Informação é poder, não é mesmo? Pois bem, aí está uma informação realmente poderosa. Pegue-a e aja. Tem mulheres que criticam esses discursos, dizendo que é o mesmo “bla bla bla” e o mesmo “estado de inércia” e fica parecendo que tudo o que elas querem é fazer, fazer, fazer, fazer sem pensar, sem a base bem acentada, sem a segurança de uma idéia bem defendida ( muito másculo ). Quantas pessoas entorpecidas no dia-a-dia só acordam depois de um texto deste? Algumas leem, como a coleguinha acima e nem assim apreendem a importância do mesmo. Sem acordar pra vida não há ação. Tampouco o ativismo aí reclamado. Pois vejam, até o discurso que deveria esclarecer e encorajar já entedia algumas. Parece homem vendo pornografia da mais violenta e bocejando. Nem toda ação precisa ser estridente, nem sempre precisamos de cartazes na mão. Há espaço e tempo para tudo. A concientização e o empoderamento que tais palavras trazem são tão valorosas quanto as ações consequentes.
    O texto está de parabéns.

    • Maria de Lourdes 23/05/2011 às 23:09 #

      Ju,me diga então quantas mulheres deste país lêem textos feministas e quantas instituições de recuperação de prostitutas existem neste país.Se discurso é tudo,por que a situação da mulher brasileira não muda? E quem te disse que ação é cartaz na mão e passeta? Frente de emprego nunca passou pela sua cabeça? Tenho contato com isntituiçõesno exterior e lá existe tudo isso.

      Sinceramentea chei esta sua resposta nada ver…escreveu escreveu e nada me disse,só em convenceu cada vez mais que feminsimo neste páis é basicamente teoria e pior: nem interpretar o que gente vem aqui escrever conseguem!Logam xchegam com julgamento de que quem, reclama está “agindo sem pensar” e depois aponta os homens por terem tais atitudes.Gostari de saber o que vc sugeria como ação concreta.

      O que muda é feministas de qualidade,coisa que neste país falta e muito.É só teroria e nem as passetadas sugeridas por ti acontecem com frequência.É tudo mesmo “bla bla bla” como decrito acima! E depois se pergunam porque muitas de nós nãoa creditamos mais no feminismo…afee.

  4. Maria de Lourdes 23/05/2011 às 23:47 #

    voltando ao texto: o grande problema da prostituição no Brasil é o fato de muitos grupos feministas fazerem vista grossa para este problema,quando não a defendem.Parece que só existe aborto para a vasta maioria de nossas feministas,e quando vc vem com proposats de intervenção,vc toma pedrada(como já me fizeram várias vezes).E outra coisa: existe um medo irracional de se punir o homem pelas suas atrocidades.Parece que tem sempre um “não é bem assim”,e aculpa mais uma vez cai sobre nós.

    Se vcs observarem,todos os textos que desmascaram aprostituição,são traduções.Não temos textos assim,que falam “na lata” sobre esta crueldade machista,so que um tanto “poético” da Tania Navarro Swain,mas nada comparado aos da Sheila Jeffreys,Andreia Dworkin,entre outras.N~]ao existe no Brasil um feminsimo radical bem organizado e ainda te tacam pedras quando vc tenta organizar um.

    Aí fica difícil…eu passao aentender porque os ativcistas de verdade e não teóricos,se aliam a humanistas para girem nestas temática,coisa que inclusive estou fazendo.

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  1. Eu e a tela « Marjorie Rodrigues - 24/03/2009

    [...] esses dias eu me deparei com este texto da Gloria Steinem. Que diz tudo o que eu penso sobre o assunto. Sim, já que estamos num patriarcado e isso não vai [...]

  2. Bruna Surfistinha « Aquela Deborah - 28/02/2011

    [...] “Eu quero trazer-nos de volta aos fundamentos. Prostituição: o que é ela? É o uso do corpo de uma mulher para sexo por um homem, ele paga dinheiro, ele faz o que quer. O minuto que você se move para fora do que ela realmente é, você se move para longe da prostituição no mundo das idéias. Você se sentirá melhor; você terá um tempo melhor; é mais divertido; há o bastante para se discutir, mas você estará discutindo idéias, não prostituição. Prostituição não é uma idéia. É a boca, a vagina, o reto, penetrado geralmente por um pênis, às vezes por mãos, às vezes por objetos, por um homem e então outro e então outro e então outro e então outro. É isso o que ela é”. – Andrea Dworkin [...]

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