Pornografia: Homens se apossando de Mulheres

25 nov

por Andrea Dworkin

Excerto do capítulo 2

Homens e Meninoshomens

Com um desgosto comum a todas as feministas que tentaram ser participadoras do tão aclamado humanismo dos homens, apenas para descobrir através da amarga experiência que a cultura dos machos não permite honesta participação feminina, Virginia Woolf escreveu: “Eu detesto o ponto de vista masculino. Estou entediada de seu heroísmo, virtude e honra. Eu acho que o melhor que esses homens podem fazer é não falar mais deles mesmos.” Homens são estupradores, violentadores, espoliadores, assassinos; esses mesmos homens são profetas religiosos, poetas, heróis, figuras de romance, aventura, performances, figuras enobrecidas pela tragédia e pelo fracasso. Homens vêm clamando a Terra, chamando-a por Ela. Homens arruinaram Ela. Homens têm aeronaves, armas, bombas, gases venenosos, belicosidade tão perversa e mortífera que eles desafiam qualquer imaginação humana. Homens batalham entre si e Ela; mulheres batalham para serem admitidas na categoria “humano” na imaginação e na realidade. Homens batalham para manter a categoria “humano” estreita, circunscrita por seus próprios valores e atividades; mulheres batalham para mudar os significados que homens têm dado a palavra, para transformar seus significados enchendo-a com experiência feminina.

Meninos nascem e são criados por mulheres. Em certo ponto, meninos se tornam homens, sua visão escurece para excluir mulheres.


Todas as crianças vêem as coisas como animadas. Como mostrou o trabalho de Jean Piaget em psicologia do desenvolvimento, crianças ouvem o sussurro do vento e o choro das árvores. Como Bruno Bettelheim expressa isso: “Para a criança, não há uma linha clara separando objetos de coisas vivas; e o que quer que tenha vida tem tanta vida como a nossa própria.” Mas homens adultos tratam mulheres, e geralmente garotas, e ocasionalmente outros varões, como objetos. Homens adultos estão convencidos e sinceros na percepção de mulheres adultas em particular como objetos. Essa percepção das mulheres transcende categorias de orientação sexual, filosofia política, nacionalidade, classe, raça, e assim em diante. Como acontece do menino cuja percepção da vida é tão vívida que ele concede humanidade ao sol e rochas, mudar no macho adulto que não é capaz de admitir ou mesmo imaginar a natureza humana comum de mulheres?


Em A Dialética do Sexo, Shulamith Firestone mostra que o menino tem uma escolha: permanecer leal a mãe que é na realidade degradada, sem autoridade contra o pai, incapaz de proteger a criança da violência do pai ou da violência de outros homens adultos, ou se tornar um homem, aquele que tem o poder e o direito de ferir, de usar força, de usar a vontade dele e força física sobre e contra mulheres e crianças. Ser a mãe – fazer o trabalho doméstico – ou ser o pai – carregar uma grande vara. Ser a mãe – ser fodida – ou ser o pai – foder. O garoto tem uma escolha. O menino escolhe ser um homem porque é melhor que ser uma mulher.


Se tornar um homem requer que o menino aprenda a ser indiferente à condenação das mulheres. Indiferença requer que o menino aprenda a experimentar as mulheres como objetos. O poeta, o místico, o profeta, o assim-chamado homem sensível de qualquer tipo, ainda ouvirá o sussurro do vento e o choro das árvores. Mas para ele, as mulheres serão mudas. Ele terá aprendido a ser surdo aos sons, suspiros, gritos de mulheres em disposição a aliar-se com outros homens na esperança que eles não o tratarão como uma criança, que é, como um que tem seu lugar com as mulheres.


O garoto, ou sua mãe, é ameaçado, golpeado, ou molestado. O menino experiencia poder masculino como uma vítima ou uma testemunha. Esse evento quase universal é descrito por John Stoltenberg em um ensaio, “Erotismo e Violência no Relacionamento Pai-Filho”:


O menino será uma testemunha assim que o pai abusar da esposa – uma vez ou cem vezes, isso apenas precisa acontecer uma vez, e o menino será enchido de medo e impotente para interceder. Então o pai vai afligir sua raiva sobre o próprio menino, raiva incontrolável, fúria que parece ter vindo de lugar nenhum, punição fora de qualquer proporção para qualquer infração de regras que o menino sabia que existia – uma ou cem vezes, isso apenas precisa acontecer uma vez, e o menino se perguntará em agonia porque a mãe não preveniu isso. Desse ponto em diante, a confiança na mãe decai, e o filho pertencerá ao pai pelo resto da sua vida comum.

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O garoto procura imitar o pai porque é mais seguro ser como o pai do que como a mãe. Ele aprende a ameaçar e dar pancada porque homens podem e homens devem. Ele se desassocia da falta de poder que ele experimentou, a qual mulheres como uma classe estão consignadas. O menino se torna um homem por assumir os comportamentos dos homens – para o melhor da sua capacidade.


O menino escapa, dentro da masculinidade, dentro do poder. Esta é a escolha dele, baseada na apreciação social da sua anatomia. Essa rota de fuga é a única projetada agora.

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Mas o garoto lembra, ele sempre se lembra, que uma vez ele foi uma criança, próximo às mulheres em ausência de poder, em humilhação potencial ou efetiva, em perigo por causa da agressão masculina. O menino deve construir uma identidade masculina, um castelo fortificado com um fosso impenetrável, assim ele está inacessível, deste modo ele está invulnerável à lembrança de suas origens, aos gritos tristes ou enfurecidos das mulheres que ele deixou para trás. O menino, qualquer que seja o estilo escolhido, se transforma guerreiro em sua masculinidade, violento, teimoso, rígido, sem humor. O medo dele dos homens se transforma em agressão contra mulheres. Ele mantém a distância entre ele próprio e mulheres intransponível, transforma mulheres na temível Ela, ou como Simone de Beauvoir expressa isto, “a Outra.” Ele aprende a ser um homem – homem poeta, homem criminoso, homem religioso profissional, homem estuprador, qualquer tipo de homem – e a primeira regra da masculinidade é que o que quer que ele seja, mulheres não são. Ele chama a covardia dele de heroísmo, e ele mantém as mulheres fora–fora da humanidade (fabuloso Gênero Humano), fora da esfera de atividade dele qualquer que ela seja, fora de tudo que é valioso, recompensado, acreditável, fora do setor degradante da própria capacidade dele se importar. Mulheres devem ser mantidas fora porque onde quer que haja mulheres, há uma lembrança vívida, assustadora, com inúmeros tentáculos sufocantes: ele é aquela criança, sem poder contra o macho adulto, com medo dele, humilhado por ele.

 

Meninos se tornam homens para escapar de ser vítimas por definição. Meninas se tornariam homens, se meninas pudessem, porque isso significaria imunidade de: imunidade de violação a maior parte do tempo; imunidade de contínuos insultos mesquinhos e violenta desvalorização de si mesma; imunidade de dependência econômica e emocional debilitadora de qualquer outra pessoa; imunidade da agressão masculina canalizada em intimidade e por toda a cultura.

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Mas agressão masculina é voraz. Ela transborda, não acidentalmente, mas propositadamente. Há guerra. Homens mais velhos criam guerras. Homens mais velhos matam meninos ao gerar e financiar guerras. Meninos disputam guerras. Meninos morrem em guerras. Homens mais velhos odeiam meninos porque meninos ainda têm o cheiro de mulheres neles. Guerra purifica, limpa o fedor feminino. O sangue da morte, tão consagrado, tão celebrado, conquista o sangue da vida, tão odiado, tão difamado. Quem sobrevive ao banho de sangue, nunca se arriscará novamente a empatia que eles experimentaram quando crianças com mulheres por medo de serem descobertos e punidos apropriadamente: mortos desta vez pelos grupos de machos, encontrados em todas esferas da vida, que reforçam o código masculino. A criança está morta. O menino se tornou um homem.

* * *

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Homens desenvolvem uma forte lealdade em relação à violência. Homens devem vir a termos com violência porque ela é o componente primário da identidade masculina. Institucionalizada em esportes, no exército, sexualidade aculturada, na história e mitologia do heroísmo, ela é ensinada aos garotos até que eles se tornem seus advogados – homens, não mulheres. Homens se tornam advogados daquilo que mais temem. Em advocacia eles experienciam domínio do medo. Em domínio do medo eles experienciam liberdade. Homens transformam seu medo da violência masculina em um comprometimento metafísico com violência masculina. A própria violência se torna a definição central de qualquer experiência que seja profunda e significante. Desta maneira, em Love’s Body, o filósofo Norman O. Brown, um radical sexual no sistema masculino, coloca que “amor é violência. O reino do céu sofre violência, proveniente de amor ardente e esperança viva.” No mesmo texto, Brown define liberdade da mesma maneira: “Liberdade é poesia, tomar liberdades com palavras, quebrar as regras do discurso normal, violar o senso comum. Liberdade é violência.” Nadar em cultura masculina; afundar-se na romantização masculina da violência. Para a Esquerda, para a Direita, para o Centro; autores, políticos, ladrões; assim-chamados humanistas e auto-declarados fascistas; os audaciosos e os pensativos; em cada domínio de expressão e ação masculinas, violência é experimentada e articulada como amor e liberdade. Homens pacifistas são apenas aparentes exceções: repelidos por algumas formas de violência assim como aproximadamente todos os homens são, eles permanecem impenetráveis a respeito de violência sexual assim como aproximadamente todos os homens agem.


Homens escolhem suas esferas de advocacia de acordo com o que eles podem suportar e/ou o que eles são capazes de fazer apropriadamente. Homens defenderão alguns tipos de violência e não outros. Alguns homens renunciarão violência em teoria, e praticá-la em segredo contra mulheres e crianças. Alguns homens se tornarão ícones na cultura masculina, capazes de disciplinar e focar seus comprometimentos com violência ao aprenderem uma habilidade violenta: pugilismo, tiro, caça, hóquei, futebol, servir como soldado, policial. Alguns homens usarão linguagem como violência, ou dinheiro como violência, ou religião como violência, ou ciência como violência, ou influência sobre outros como violência. Alguns homens cometerão violência contra as mentes de outros e alguns contra os corpos de outros. A maior parte dos homens, em suas histórias de vida, tem feito ambas. Na área da sexualidade, este fato foi admitido com não reconhecimento de sua significação pelos estudiosos do Instituto de Pesquisa Sexual (o Instituto Kinsey) que examinaram criminosos sexuais:

 

Se nós rotulássemos todos os comportamentos sexuais puníveis como uma ofensa sexual, nós nos encontraríamos na situação ridícula de todos os históricos de nossos varões consistirem quase inteiramente de criminosos sexuais, os poucos restantes são não apenas não-criminosos, mas não-conformistas. O homem que beija uma garota [sic] em oposição aos desejos expressados por ela está cometendo um relacionamento sexual forçado e está sujeito a uma acusação de agressão, mas solenemente rotulá-lo um criminoso sexual seria reduzir nosso estudo a um nível lúdico. 

Em vez de “reduzir o estudo [deles] a um nível lúdico,” o que seria inimaginável, os honrados cientistas escolheram sancionar como normativo o comprometimento masculino com o uso da força documentado por meio do estudo deles.

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Homens são distinguidos das mulheres pelo comprometimento deles em executar violência antes do que serem vitimizados por ela. Homens são recompensados por aprender a prática de violência em virtualmente qualquer esfera de atividade através de dinheiro, admiração, reconhecimento, respeito, e da genuflexão de outros reverenciando a sagrada e provada masculinidade deles. Na cultura masculina, policiais são heróicos e assim também são os criminosos; machos que impõem regras são heróicos e igualmente o são aqueles que as violam. Os conflitos entre estes grupos personificam o comprometimento masculino com violência: conflito é ação, ação é masculina. É um equívoco enxergar as facções antagônicas da cultura masculina como genuinamente distintas umas das outras: na verdade, estas facções antagônicas operam em quase-perfeita harmonia para manter mulheres à mercê delas, de um jeito ou de outro. Porque supremacia masculina significa precisamente que homens têm aprendido a usar violência contra outros, particularmente contra fêmeas, de um modo aleatório ou disciplinado, lealdade a alguma forma de violência masculina, sua advocacia em linguagem ou ação, é um critério primário de identidade masculina efetiva. Em adorar violência – da crucificação de Cristo à representação cinematográfica de General Patton – homens buscam adorar a si mesmos, ou àqueles fragmentos tortuosos de sobra em si mesmos quando a capacidade de perceber o valor da vida tem sido paralisada e mutilada pela verdadeira aderência à violência, que homens articulam como central à vida e propósito energizante.


* * *

Homens renunciam o que quer que eles tenham em comum com as mulheres, de modo a não experimentar nenhuma semelhança com as mulheres; e o que resta, de acordo com os homens, é um pedaço de carne com alguns centímetros de comprimento, o pênis. O pênis é sensato; o pênis é o homem; o homem é humano; o pênis significa humanidade. Embora este reductio ad absurdum seja a realidade masculina central na psique e na cultura, o reducionismo masculino é mais absurdamente expressado quando os homens dão um passo adiante e reduzem o próprio pênis ao esperma em massa, ou ao espermatozóide divinamente inspirado que consegue fertilizar um óvulo. Sempre na vanguarda, R. D. Laing, em seu livro de 1976 The Facts of Life, expressa este mesmo reducionismo masculino de um modo ainda mais bizarro: “Pode-se permanecer no amor à própria placenta pelo resto da vida.” Laing expressa tanto dor e raiva sobre a perda de sua (sic) placenta, (Ativistas anti aborto tentam energicamente forjar uma definição médica da placenta como pertencente ao feto, não à mãe; e toda uma série de terapias criadas por homens que exploram trauma antes do nascimento dão ao feto uma identidade social masculina com o seu sofrimento masculino social implícito, a alienação social masculina, e os privilégios sociais do sexo masculino.) mas essa angústia ainda não conseguiu superar em importância cultural a tristeza daqueles que, a partir dos castigadores de Onan em diante, lamentam perder esperma. Em Eumênides, Ésquilo insistiu que toda a vida se origina no esperma, que o homem é a única fonte da vida e que, portanto, o único poder sobre a vida reside corretamente nele. Os antecedentes linguísticos da palavra pênis incluem, em Inglês Arcaico e Alto Alemão Antigo, os significados “prole” e “feto”. Nos últimos séculos nada modificou a compulsão masculina de continuar reduzindo a vida a fragmentos da fisiologia masculina; em seguida, tornar os fragmentos mágicos, fontes de poder e ameaça. A dimensão da ameaça é especialmente importante em possibilitar que os homens valorizem partes e pedaços de si mesmos. Esperma, por exemplo, é visto como um agente da morte, da morte da mulher, mesmo quando ele é visto como o criador da vida, da vida do sexo masculino. Gravidez é glorificada em parte porque as mulheres morrem por causa dela. Como Martinho Lutero colocou: “Se uma mulher se cansa e por fim morre do parto, não importa. Apenas deixe que ela morra da gravidez; ela está lá para isso.” Nosso próprio amado Norman Mailer, em The Prisoner of Sex, contemplou que “as mulheres começaram a retirar respeito dos homens por volta do tempo em que a gravidez perdeu seu perigo… Se [a morte] uma vez tinha sido uma possibilidade real o suficiente para elas olharem para o seu companheiro com olhos de amor ou olhos de ódio, mas sabendo que o seu homem pode ainda ser o agente de sua morte, concebem então a gravidade perdida do ato…” Mailer aqui não está lamentando o advento da contracepção controlada pela mulher, embora ele o lamente; ele está lamentando a descoberta de Semmelweis da causa das epidemias de febre puerperal que mataram massas de mulheres grávidas, incluindo Mary Wollstonecraft. 

A crença obsessiva de que o pênis/esperma, uma vez alojado na mulher, é um feto masculino, juntamente com a dimensão erótica do pênis/esperma como agente da morte da fêmea, representa em grande parte o compromisso contínuo do macho em forçar a gravidez à fêmea. A vagina/útero, como Erik Erikson articulou, é percebido pelo macho como o espaço vazio que precisa ser preenchido por um pênis ou uma criança (macho até provado o contrário, caso em que é desvalorizada), que é o pênis realizado – ou a própria mulher é vazia, ou seja, uma nulidade, sem valor. 

Força – a violência do macho confirmando a sua masculinidade – é vista como o propósito essencial do pênis, seu princípio animador por assim dizer, da mesma maneira que o esperma idealmente engravida a mulher sem referência a favor ou contra a vontade dela. O pênis deve encarnar a violência do macho para que ele seja macho. A violência é macho; o macho é o pênis; a violência é o pênis ou o esperma ejaculado a partir dele. O que o pênis pode fazer deve ser feito à força para um homem ser um homem. A redução do potencial erótico humano ao “sexo”, definido como a força do pênis visitando uma mulher sem vontade, é o cenário sexual que governa a sociedade supremacista masculina. Havelock Ellis, considerado um feminista por estudiosos na tradição masculina, vê o pênis como corretamente e intrinsecamente sugerindo um chicote e o chicote como uma expressão lógica e inevitável do pênis: 

Devemos considerar o chicote como um símbolo natural para o pênis. Uma das formas mais freqüentes em que a idéia do coito primeiro lampeja indistintamente diante de uma mente infantil – e é um lampejo que, do ponto de vista evolutivo, é biologicamente correto – é como uma exibição de força, de agressão, de algo que assemelha-se a crueldade. Chicoteamento é a forma mais óbvia em que, para a mente jovem, esta idéia pode ser concretizada. O pênis é o único órgão do corpo que, em qualquer grau, se assemelha a um chicote. 

Ao longo de toda a cultura masculina, o pênis é visto como uma arma, especialmente uma espada. A palavra vagina, significa, literalmente, “bainha”. Na sociedade supremacista masculina, a reprodução assume esse mesmo caráter: força levando, em algum momento, inevitavelmente, à morte; o pênis/esperma valorizado como potencial agente da morte feminina. Por séculos, a relutância da fêmea em “ter relações sexuais”, o desgosto feminino pelo “sexo”, a frigidez feminina, a evasão feminina ao “sexo”, tem sido lendária. Esta tem sido a rebelião silenciosa das mulheres contra a força do pênis, gerações de mulheres unidas com seus corpos, cantando em uma linguagem secreta, ininteligível até para elas mesmas, uma canção contemporânea de liberdade: eu não vou ser movida. A aversão das mulheres ao pênis e ao sexo como homens o definem, vencida somente quando a sobrevivência e/ou a ideologia exigem isso, deve ser vista não como puritanismo (que é uma estratégia do sexo masculino para manter o pênis escondido, tabu, e sagrado), mas como a recusa das mulheres em homenagear o fornecedor principal da agressão masculina, um a um, contra as mulheres. Desta forma, as mulheres têm desafiado os homens e subvertido o poder masculino. Tem sido uma rebelião ineficaz, mas tem sido rebelião no entanto. 

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Uma resposta to “Pornografia: Homens se apossando de Mulheres”

  1. A.M. 09/04/2014 às 16:32 #

    Mais coerentemente definido – isto é, definido fora dos limites da experiência masculina – o poder do sexo manifestado em ação, atitude, cultura e atributo é de competência exclusiva do sexo masculino, o domínio dele, inviolável e sagrado. Sexo, uma palavra tão potencialmente inclusiva e evocativa, é reduzida pelo macho para que, de fato, signifique intromissão peniana. Comumente referido como “isso”, o sexo é definido em ação somente por aquilo que o macho faz com o seu pênis. Foder – empurrar o pênis – é o significado mágico, escondido de “isso”, a razão para o sexo, a vasta experiência através da qual o homem percebe seu poder sexual. Na prática, foder é um ato de possessão – ao mesmo tempo um ato de apropriação, tomada, força; é conquista; ele expressa em intimidade poder sobre e contra, corpo a corpo, pessoa a coisa. “O ato sexual” significa intromissão peniana seguida de empurrões do pênis, ou foder. A mulher é posta em prática; o homem age e por meio da ação expressa potência sexual, o poder da masculinidade. Foder exige que o macho aja sobre quem tem menos poder e esta valoração é tão profunda, tão completamente implícita no ato, que a pessoa que está sendo fodida é estigmatizada como feminina durante o ato, mesmo quando não é anatomicamente fêmea. No sistema do sexo masculino, sexo é o pênis, o pênis é poder sexual, seu uso na foda é masculinidade.

    O poder sexual masculino é também expressado através de uma atitude ou qualidade: virilidade. Definida primeiramente como masculinidade em si, virilidade em seu significado secundário é vigor, dinamismo (no dicionário patriarcal inevitavelmente também chamado força). A vitalidade inerente na virilidade como uma qualidade é considerada uma expressão de energia exclusivamente masculina, na sua essência sexual, na sua origem biológica, rastreável para o próprio pênis. É, de fato, uma expressão de energia, força, ambição e afirmação. Definida pelos homens e experimentada pelas mulheres como uma forma de poder sexual masculino, virilidade é a dimensão da energia e auto-realização proibida para mulheres.

    O poder sexual masculino é a substância da cultura. Isso ressoa em qualquer lugar. A celebração do estupro na história, música e ciência é uma articulação paradigmática do poder sexual masculino como cultura absoluta. A conquista da mulher age em fodê-la, possuí-la, seu uso como um objeto é o cenário infinitamente repetido, com ou sem referências diretas a foder, através da cultura. Fodendo, ele é aumentado. Como Woolf escreveu, ela é o espelho dele; por diminuí-la em seu uso sexual, ele torna-se o dobro do seu tamanho. Na cultura, ele é o gigante, aumentado pela conquista sobre ela, implícita ou explicita. Ela permanece o espelho dele, e como Woolf postulou, “… espelhos são necessários para todos os atos violentos ou heroicos”. Na cultura, o poder sexual dele é o seu tema. Na cultura, o homem usa a mulher para explicar o seu tema.

    Poder sexual é também um atributo do homem, algo é inerente nele como aquele que pega o que ele quer e precisa, especialmente como o que usa o pênis para pegar mulheres, mas mais geralmente como um tomador de posses territoriais, de dinheiro. Como um atributo, o poder sexual dele ilumina sua própria natureza.

    O sétimo princípio da supremacia masculina é que o poder sexual tem origem autenticamente no pênis. Masculinidade em ação, estritamente no ato do sexo como os homens o definem ou mais amplamente em qualquer ato de apossar-se, é o poder sexual cumprindo-se, sendo fiel a sua própria natureza. O conceito masculino de que mulheres têm poder sexual (causam ereções) convenientemente protege os homens de qualquer responsabilidade pelas consequências de seus atos, especialmente os seus atos de conquista sexual. Na maior parte do tempo, apesar de tudo, os corpos usados sobrevivem. Frequentemente eles falam ou gritam ou choram. Hoje em dia as coisas arrogantes ainda perseguem e processam. Culpa implacável – “você me provocou” – é usada para encorajar o silencio social e individual que é o ambiente mais acolhedor para a conquista continuar.

    (Pornography: Men Possessing Women – Andrea Dworkin)

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