The BITCH Manifesto

30 nov

Por Jo Freemanjo-freeman

(Nota: Jo Freeman era a editora da “Voz do Movimento de Libertação das Mulheres”, que pode ter sido o primeiro periódico da libertação nacional das mulheres. Este artigo é suas reflexões sobre como mulheres fortes são percebidas numa sociedade sexista e apareceu pela primeira vez em 1971.)

…o homem é definido como um ser humano e a mulher é definida como uma fêmea. Quando ela tenta comportar-se como um ser humano ela é acusada de tentar emular o macho… (Simone de Beauvoir)

BITCH é uma organização que ainda não existe. O nome não é um acrônimo. Ele significa exatamente o que ele parece.

BITCH é composta de Bitches. Existem muitas definições de uma bitch (cadela). A definição mais cortês é uma fêmea de cão. Aquelas definições de cadelas que são também homo sapiens são raramente tão objetivas. Elas variam de pessoa para pessoa e dependem firmemente do quanto uma cadela a definidora se considera. De qualquer modo, todo mundo concorda que uma cadela é sempre uma fêmea, cão, ou de outra maneira.

Também é geralmente concordado que uma Cadela é agressiva, e consequentemente não feminina (ahem). Ela pode ser sexy, que no caso ela torna-se uma Deusa Cadela, um caso especial que não nos concernirá aqui. Mas ela jamais é uma “mulher verdadeira”.

Cadelas têm algumas ou todas as características seguintes.

1. Personalidade. Cadelas são agressivas, assertivas, dominadoras, arrogantes, mentes fortes, malvadas, hostis, diretas, objetivas, sinceras, maliciosas, casca grossa, teimosas, depravadas, autoritárias, competentes, competitivas, insistentes, barulhentas, independentes, obstinadas, exigentes, manipuladoras, egoístas, compulsivas, realizadoras, esmagadoras, ameaçadoras, assustadoras, ambiciosas, resistentes, impudentes, masculinas, impetuosas, e turbulentas. Entre outras coisas. Uma Cadela ocupa grande espaço psicológico. Você sempre sabe que ela está perto. Uma Cadela não recebe merda de ninguém. Você pode não gostar dela, mas não pode ignorá-la.

2. Físico. Cadelas são grandes, altas, fortes, largas, estrondosas, violentas, ásperas, deselegantes, desajeitadas, espaçosas, estridentes, feias. Cadelas preferem mover seus corpos livremente do que conter, refinar e confinar seus movimentos na maneira feminina apropriada. Elas andam para cima ruidosamente, dão passos largos quando caminham e não se preocupam com o lugar onde elas colocam as pernas quando sentam. Elas têm vozes altas e frequentemente as usam. Cadelas não são bonitas.

3. Orientação. Cadelas buscam suas identidades estritamente através delas mesmas e do que elas fazem. Elas são sujeitos, não objetos. Elas podem ter um relacionamento com uma pessoa ou organização, mas elas nunca se casam com qualquer pessoa ou qualquer coisa; homem, mansão, ou movimento. Desta maneira, Cadelas preferem planejar suas próprias vidas a viver de dia a dia, ação a ação, ou pessoa a pessoa. Elas são independentes teimosas e acreditam que são capazes de fazer qualquer coisa que elas quiserem. Se alguma coisa permanece em seu caminho; bem, por isso que elas se tornam Cadelas. Se forem inclinadas profissionalmente, elas buscarão carreiras e não terão medo de competir com ninguém. Se não inclinadas profissionalmente, elas buscarão auto-expressão e auto-realização. O que quer que elas façam, elas desejam uma posição ativa e frequentemente são percebidas como dominantes. Muitas vezes elas dominam outras pessoas quando não estão disponíveis para elas funções que mais criativamente sublimem suas energias e utilizem suas capacidades. Mais frequentemente elas são acusadas de dominação quando fazem o que seria considerado natural por um homem.

Uma verdadeira Cadela é auto-determinada, mas o termo “bitch” é usualmente aplicado com menos discernimento. É uma depreciação popular para derrubar mulheres altivas que foi criado por homens e adotado por mulheres. Como o termo “nigger” (preto), “bitch” serve a função social de isolar e desacreditar uma classe de pessoas que não se conformam aos padrões de comportamento socialmente aceitos.

BITCH não usa esta palavra no sentido negativo. Uma mulher deveria ser orgulhosa ao declarar que é uma Cadela, porque Cadela é Linda. Isso deveria ser um ato de afirmação por si mesma e não negação por outros. Nem todo mundo pode qualificar-se como uma Cadela. Alguém não precisa ter todas as três qualidades mencionadas acima, mas deveria ser dotada de no mínimo duas delas pare ser considerada uma Cadela. Se uma mulher qualifica-se em todas as três, ao menos parcialmente, ela é uma Cadela das Cadelas. Apenas Supercadelas qualificam-se totalmente em todas as três categorias e existem muito pouco dessas. A maioria não dura muito tempo nesta sociedade.

A característica mais proeminente de toda Cadela é que elas rudemente violam concepções de condutas de papel sexual apropriadas. Elas violam-nas de modos diferentes, mas todas elas violam-nas. Suas atitudes com respeito a si mesmas e outras pessoas, suas orientações objetivas, seu estilo pessoal, sua aparência e modo de manejar seus corpos, todas chocam as pessoas e as fazem se sentirem incomodadas. Às vezes é consciente e às vezes não, mas pessoas geralmente se sentem inconfortáveis em volta de Cadelas. Elas consideram-nas aberrações. Elas acham o estilo delas perturbador. Então elas criam um depósito imundo para todas que deploram como cadelas e chamam-nas de mulheres frustradas.

Elas podem ser frustradas, mas a causa é social, não sexual. O que é perturbador a respeito de uma Cadela é que ela é andrógina. Ela incorpora dentro dela mesma, qualidades tradicionalmente definidas como “masculinas” assim como “femininas”. Uma Cadela é brusca, direta, arrogante, às vezes egoísta. Ela não tem inclinação para os meios indiretos, sutis e misteriosos do “eterno feminino”. Ela desdenha da vida vicária considerada natural para as mulheres porque ela deseja viver uma vida própria.

Nossa sociedade tem definido a humanidade como os machos, e as fêmeas como alguma coisa diferente dos machos. Deste modo, fêmeas poderiam ser humanas apenas ao viver por delegação através de um macho. Para ser capaz de viver, uma mulher tem de concordar em servir, honrar, e obedecer a um homem e o que ela obtém em troca, na melhor das hipóteses, é uma vida de sombra. Cadelas se recusam a servir, honrar e obedecer qualquer pessoa. Elas demandam serem seres humanos completos, não apenas sombras. Elas desejam ser igualmente fêmeas e seres humanos. Isto faz delas contradições sociais. A mera existência de Cadelas nega a idéia que a realidade de uma mulher deve acontecer através do relacionamento dela com um homem e contesta a crença que mulheres são crianças perpétuas que devem sempre estar sob orientação de alguém.

Por essa razão, se considerada seriamente, uma Cadela é uma ameaça para as estruturas sociais que escravizam mulheres e os valores sociais que justificam mantê-las em seu lugar. Ela é evidência viva que a opressão das mulheres não tem de existir, e como tal, promove dúvidas sobre a validade do sistema social inteiro. Por ela ser uma ameaça ela não é levada a sério. Em vez disso, ela é rejeitada como uma deviante. Homens criam uma categoria especial para ela na qual ela é considerada humana, pelo menos parcialmente, mas não uma mulher de fato. Na extensão na qual eles se relacionam com ela como um ser humano, eles se recusam a se relacionar com ela como um ser sexual. Mulheres são até mais ameaçadas porque elas não podem esquecer que ela é uma mulher. Elas têm medo de se identificarem com ela muito estreitamente. Ela tem uma liberdade e uma independência que elas invejam e as desafia a abandonar a segurança de suas algemas. Nem homens nem mulheres podem encarar a realidade da Cadela porque fazer isso os forçaria a encarar a realidade corrupta de si mesmos. Ela é perigosa. Então eles a descartam como uma aberração.

Esta é a raiz da própria opressão dela como uma mulher. Cadelas não são somente oprimidas como mulheres, elas são oprimidas por não serem como as mulheres. Porque ela tem insistido em ser de preferência humana a ser feminina, em ser preferivelmente verdadeira para si a ajoelhar-se para pressões sociais, uma Cadela cresce uma estrangeira. Mesmo quando meninas, Cadelas violaram os limites de conduta do papel sexual recebido. Elas não se identificaram com outras mulheres e poucas foram afortunadas o suficiente de ter uma Cadela adulta para servir de exemplo. Elas tiveram de construir seu próprio caminho e as armadilhas que este percurso inexplorado apresentou contribuíram tanto para sua incerteza como para sua independência.

Cadelas são bons exemplos de como mulheres podem ser fortes o bastante para sobreviver mesmo a rígida socialização punitiva de nossa sociedade. Quando garotinhas nunca penetrou completamente em suas consciências que mulheres eram presumidas serem inferiores aos homens em qualquer medida, exceto na posição de mãe/esposa. Elas afirmaram a si mesmas como crianças e jamais internalizaram realmente o modo escravo de lisonja e bajulação que é chamado de feminino. Algumas Cadelas foram esquecidas pelas usuais pressões sociais e outras obstinadamente resistiram a elas. Algumas desenvolveram um estilo feminino superficial e algumas permaneceram traquinas, passado o tempo em que tal comportamento é tolerado. Todas as Cadelas se recusaram, em mente e espírito, a se conformar à idéia que havia limites no que elas poderiam ser e fazer. Elas não estabeleceram limites nas suas aspirações ou suas condutas.

Por esta resistência elas foram severamente condenadas. Elas foram rebaixadas, repreendidas, desprezadas, mal faladas, escarnecidas e excluídas. Nossa sociedade fez das mulheres escravas e em seguida as condenou por agirem como escravas. Isto foi tudo construído muito sutilmente. Poucas pessoas foram tão diretas quanto a dizer que elas não gostavam de Cadelas porque elas não representavam o jogo de papel sexual.

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De fato, poucas pessoas estavam seguras do porquê de não gostarem de Cadelas. Elas não perceberam que sua violação da realidade da estrutura pôs em perigo a estrutura. De algum modo, da infância em diante, algumas garotas não se encaixavam e eram bons objetos para se ridicularizar. Mas poucas pessoas conscientemente reconheceram a raiz de seu desagrado. A questão nunca foi enfrentada. Se ela tiver sido falada de algum modo, foi feito por meio de comentários maliciosos nas costas da garotinha. Cadelas foram compelidas a sentir que havia alguma coisa errada com elas; alguma coisa pessoalmente errada.

Garotas adolescentes são particularmente malvadas no jogo do bode expiatório. Este é o período da vida que as mulheres são ensinadas que devem competir mais duramente pelos espólios (ou seja, homens) que a sociedade consente. Elas devem afirmar sua feminilidade ou vê-la negada. Elas estão muito inseguras de si mesmas e adotam a rigidez que segue com a incerteza. Elas são duras com suas concorrentes e até mais duras com aquelas que se recusam a competir. Aquelas iguais que não têm em comum seus interesses e práticas nas artes de agradar os homens são excluídas da maioria dos arranjos sociais. Se ela não sabia disso anteriormente, a Cadela aprende durante estes anos que ela é diferente.

Quando ela se torna mais velha ela aprende mais sobre porque ela é diferente. Assim que Cadelas começam a adquirir empregos, ou participar em organizações, elas raramente estão contentes em sentar quietamente e fazer o que lhes é dito. Uma Cadela tem uma mente dela própria e deseja usá-la. Ela quer levantar-se, subir alto, ser criativa, assumir responsabilidade. Ela sabe que é capaz e deseja usar suas capacidades. Isto não é agradável para os homens para quem ela trabalha, o que não é sua meta primária.

Quando ela encontra a parede de blocos rígidos do preconceito sexual ela não é complacente. Ela arremessará a si mesma batendo sua cabeça contra a parede, porque ela não aceitará seu papel definido como uma auxiliar. Ocasionalmente ela destrói e atravessa o caminho dela. Ou ela usa sua ingenuidade para achar uma brecha, ou cria uma. Ou ela é dez vezes melhor do que qualquer outra pessoa competindo com ela. Ela também aceita menos do que lhe é devido. Como as outras mulheres, suas ambições tem sido frequentemente entorpecidas por ela não ter escapado totalmente da insígnia de inferioridade colocada sobre o “sexo frágil”. Ela muitas vezes desposará contentamento em ser o poder atrás do trono – desde que ela tenha real poder – embora ponderando que ela realmente não deseja o reconhecimento advindo de possuir o trono também. Por ela ter sido rebaixada a maior parte de sua vida, tanto por ser uma mulher quanto por não ser uma verdadeira mulher, uma Cadela nem sempre reconhecerá que o que ela tem alcançado não é atingível pela mulher típica. Uma Cadela altamente competente muitas vezes deprecia a si mesma recusando reconhecer sua própria superioridade. Ela está acostumada a dizer que ela é media ou menos realmente; se ela pode fazer, qualquer pessoa pode.

Quando adultas, Cadelas podem ter aprendido o papel feminino, pelo menos o estilo externo, mas elas raramente estão confortáveis nele. Isto é particularmente verdadeiro para aquelas mulheres que são Cadelas físicas. Elas desejam libertar seus corpos tanto quanto suas mentes e deploram o esforço que elas devem desperdiçar confinando seus movimentos físicos ou vestindo o papel em disposição a não afastar as pessoas. Também, porque elas violam expectativas do papel sexual fisicamente, elas não são tão livres para violá-las psicologicamente ou intelectualmente. Um pequeno número de desvios da norma pode ser tolerado, mas muitos são demasiado ameaçadores. É ruim o bastante não pensar como uma mulher, soar como uma mulher ou fazer os tipos de coisas que mulheres são presumidas a fazer. Também não parecer com uma mulher, se mover como uma mulher ou agir como uma mulher é ir além do inaceitável. Nossa sociedade é rígida com limites estreitos sobre a extensão da diversidade humana. Mulheres, em particular, são definidas por suas características físicas. Cadelas que não violam estes limites são mais livres para violar outros. Cadelas que os violam em estilo ou tamanho podem ser um pouco invejosas daquelas que não têm de conter severamente a expansibilidade de suas personalidades e maneiras. Frequentemente estas Cadelas são mais torturadas porque seu desvio é sempre evidente. Mas há uma compensação que Cadelas grandes têm uma considerável menor dificuldade em ser levadas a sério do que mulheres pequenas. Uma das fontes do seu sofrimento como mulheres é também uma fonte de sua força.

A prova de fogo que a maioria das Cadelas atravessa enquanto cresce as constrói ou as despedaça. Elas são dependuradas de modo esticado entre os dois pólos de ser verdadeira para seu próprio caráter ou ser aceita como um ser social. Isto as faz pessoas muito sensíveis, mas é uma sensibilidade que o restante do mundo ignora. Por no lado de fora elas terem frequentemente criado um calo defensivo grosso que pode fazê-las parecerem duras e amargas às vezes. Isto é particularmente verdadeiro para aquelas Cadelas que têm sido forçadas a tornar-se isoladas em disposição a evitar serem refeitas e destruídas por suas iguais. Aquelas que são afortunadas o suficiente por terem crescido com algumas companhias semelhantes, mãe e pai sensatos, uma boa pessoa para servir de exemplo ou duas e uma determinação bastante forte, podem evitar alguns dos piores aspectos de ser uma Cadela. Tendo suportado menor punição psicológica por serem o que elas são elas podem aceitar sua diferença com a naturalidade que resulta da autoconfiança.

Aquelas que têm de construir seus meios inteiramente por si mesmas tem um caminho incerto. Algumas finalmente compreendem que seu sofrimento ocorre não somente porque elas não se conformam, mas porque elas não desejam se conformar. Com isto vem o reconhecimento que não há nada particularmente errado com elas, elas somente não se ajustam neste tipo de sociedade. Muitas consequentemente aprendem a se isolarem do severo ambiente social. Porém, isto também tem seu preço. A menos que elas sejam cautelosas e conscientes, a confiança adquirida nesta maneira dolorosa – sem o suporte de suas irmãs – é mais frequentemente um tipo de arrogância. Cadelas podem se tornar tão duras e calejadas que os últimos vestígios de humanidade ficaram bem enterrados por dentro e quase destruídos.

Nem todas as Cadelas fazem isto. Em vez de calos, elas desenvolvem feridas abertas. Em vez de confiança elas desenvolvem uma prejudicial sensibilidade para rejeição. Aparentemente resistentes no lado de fora, no interior elas permanecem uma polpa sangrenta, inflamada por causa do açoitamento vitalício literal que elas têm de suportar. Estas são Cadelas que tem ido mal. Elas frequentemente andam amuadas e usam sua força para retaliações improdutivas quando alguém aceita sua ousadia de descontar. Estas Cadelas podem ser muito odiosas, porque elas nunca confiam nas pessoas realmente. Elas não aprenderam a usar suas forças construtivamente.

Cadelas que têm sido mutiladas como seres humanos frequentemente direcionam sua fúria sobre outras pessoas – particularmente outras mulheres. Este é um exemplo de como mulheres são treinadas para manter a si mesmas e outras mulheres em seu lugar. Cadelas são não menos culpadas que não-Cadelas por auto-ódio e ódio de grupo e aquelas que tem ido mal sofrem o pior destas duas aflições. Todas as Cadelas são bodes expiatórios e aquelas que não têm sobrevivido as severas críticas psicológicas são o alvo do desdém de todo o mundo. Como um grupo, Cadelas são tratadas por outras mulheres tanto como mulheres em geral são tratadas pela sociedade – muito bem em seu lugar, boas para explorar e fofocar a respeito, mas de outra maneira, serem ignoradas ou rebaixadas. Elas são ameaças para a posição tradicional das mulheres e elas são também umas estranhas de outro grupo com as quais elas podem se sentir superiores. A maioria das mulheres se sente igualmente melhor que e com ciúmes das Cadelas. Embora confortando a si mesmas que elas não são como estas agressivas, aberrações masculinas, elas têm uma suspeita secreta que talvez os homens, as coisas mais importantes em suas vidas, acham as Cadelas, mais livres, mais assertivas, independentes, preferíveis como uma mulher.

Cadelas, da mesma maneira, não se interessam muito por outras mulheres. Elas crescem antipatizando outras mulheres. Elas não podem se relacionar com elas, elas não se identificam com elas, elas não têm nada em comum com elas. As outras mulheres têm sido a norma na qual elas não têm se ajustado. Elas rejeitam aquelas que as rejeitaram. Esta é uma das razões que Cadelas que são bem sucedidas em passar os obstáculos que a sociedade estabelece diante das mulheres desprezam aquelas mulheres que não são. Elas tendem a sentir que aquelas que podem aceitar isso conseguirão passar. A maioria das mulheres têm sido as agentes diretas de grande parte da merda que as Cadelas têm de suportar e poucas de ambos os grupos tiveram a consciência política para compreender o porquê disto. Cadelas têm sido oprimidas por outras mulheres tanto quanto se não mais do que por homens e seu ódio por elas é comumente maior.

Cadelas também estão desconfortáveis ao redor de outras mulheres porque frequentemente mulheres são menos seus pares psicológicos do que os homens são. Cadelas particularmente não gostam de pessoas passivas. Elas estão sempre levemente receosas que elas esmagarão as coisas frágeis. Mulheres são treinadas para serem passivas e aprenderam a agir deste modo mesmo quando elas não são. Uma Cadela não é muito passiva e não está confortável representando esse papel. Mas ela geralmente não gosta de ser dominadora também – quer isto seja proveniente de desgosto natural de dominar outros ou medo de parecerem muito masculinas. Desta maneira uma Cadela pode relaxar e ser seu naturalmente não-passivo eu sem se preocupar com esmagar alguém somente na companhia daqueles que são tão fortes quanto ela é. Isso acontece mais frequentemente na companhia de homens do que de mulheres, mas aquelas Cadelas que não sucumbiram totalmente ao auto-ódio estão sobretudo confortáveis somente na companhia de camaradas Cadelas. Estas são suas verdadeiras iguais e as únicas com quem ela não precisa representar algum tipo de papel. Apenas com outras Cadelas uma Cadela pode ser verdadeiramente livre.

Estes momentos acontecem raramente. A maior parte do tempo Cadelas devem permanecer psicologicamente isoladas. Mulheres e homens são tão ameaçados por elas e reagem tão adversamente que Cadelas guardam suas personalidades verdadeiras cuidadosamente. Elas são suspeitas daquela minoria que elas pensam que podem ser capazes de confiar porque tão frequentemente isso se verifica ser um engano. Porém, nesta solidão há uma força e de seu isolamento e sua amargura resultam contribuições que outras mulheres não fazem. Cadelas estão entre os mais não celebrados dos não celebrados heróis desta sociedade. Elas são as pioneiras, a vanguarda, a ponta da lança. Quer elas desejem ser ou não este é o papel que elas servem exatamente por apenas existirem. Muitas não escolheriam ser as revolucionárias para a massa de mulheres por quem elas não têm sentimentos de irmandade, mas elas não podem evitar isso. Aquelas que violam os limites os estendem; ou causam a destruição do sistema.

Cadelas foram as primeiras mulheres a ir para faculdade, as primeiras a romperem completamente a Barreira Invisível das profissões, as primeiras revolucionárias sociais, as primeiras líderes trabalhistas, as primeiras a organizarem outras mulheres. Porque elas não eram seres passivos e agiam por meio de seu ressentimento por serem mantidas abaixo, elas ousaram fazer o que outras mulheres não ousariam. Elas suportaram a artilharia antiaérea e a merda que a sociedade lança para aquelas que a mudariam e abriram parcelas do mundo para mulheres que não teriam as conhecido de outra maneira. Elas têm vivido nas bordas. E sozinhas ou com o suporte de suas irmãs elas têm mudado o mundo em que nós vivemos.

Por definição, Cadelas são seres marginais nesta sociedade. Elas não têm lugar próprio e não permaneceriam nele se elas tivessem. Elas são mulheres, mas não mulheres verdadeiras. Elas são humanas, mas não são machos. Algumas nem mesmo sabem que são mulheres porque elas não podem se relacionar com outras mulheres. Elas podem representar o jogo feminino às vezes, mas elas sabem que é um jogo que elas estão representando. Sua maior opressão psicológica não é uma crença que elas são inferiores, mas uma crença que elas não são. Deste modo, toda sua vida lhes foi dito que elas são aberrações. Termos mais polidos foram usados, é claro, mas a mensagem foi passada. Como a maior parte das mulheres elas foram ensinadas a odiar a si mesmas tanto quanto todas as mulheres. De maneiras diferentes e por motivos diferentes talvez, mas o efeito é similar. Internalização de um depreciador conceito próprio sempre resulta em uma grande quantidade de amargura e ressentimento. Esta raiva é usualmente ou voltada a si mesma – fazendo-a uma pessoa desagradável ou a outras mulheres – reforçando os clichês sociais a respeito delas. Somente com consciência política ela é direcionada à fonte – o sistema social.

O desenvolvimento deste Manifesto tem sido a respeito de Cadelas. O restante será a respeito de BITCH. A organização ainda não existe e talvez ela nunca possa existir. Cadelas são tão condenadas independentes e elas tem aprendido tão bem a não confiar em outras mulheres que será difícil para elas aprenderem até mesmo a confiarem umas nas outras. Isto é o que BITCH deve ensiná-las a fazer. Cadelas têm de aprender a aceitar a si mesmas como Cadelas e dar a suas irmãs o suporte que elas precisam para ser Cadelas criativas. Cadelas devem aprender a ser orgulhosas de sua força e orgulhosas de si mesmas. Elas devem mudar-se do isolamento que tem sido sua proteção e ajudar suas irmãs mais jovens a evitar seus perigos. Elas devem reconhecer que mulheres são frequentemente menos tolerantes com outras mulheres do que são os homens porque elas têm sido ensinadas a ver todas as mulheres como suas inimigas. E Cadelas devem formar-se juntas em um movimento para lidar com seus problemas de uma maneira política. Elas devem se organizar por sua própria libertação como todas as mulheres devem se organizar pelas delas. Nós devemos ser fortes, nós devemos ser militantes, nós devemos ser perigosas. Nós devemos reconhecer que Cadela é Linda e que nós não temos nada a perder. Absolutamente nada.

Este manifesto foi escrito e revisado com a ajuda de algumas de minhas irmãs, a quem ele é dedicado.

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