Orgulho Lesbiano

1 dez

“Antes que existisse ou pudesse existir qualquer classe de movimento feminista, existiam as lésbicas. Mulheres que amavam outras mulheres, que recusavam o comportamento esperado delas, que recusavam definir-se em relação aos homens. Aquelas mulheres, nossas antepassadas, milhares cujos nomes não conhecemos, foram torturadas e queimadas como bruxas, caluniadas em escritos religiosos, e mais tarde “científicos”,  retratadas na arte e na literatura como mulheres bizarras, amorais, destrutivas, decadentes. Por um longo tempo as lésbicas foram a personificação do mal feminino.” (Adrienne Rich)

[Distribuído em uma reunião para a Semana do Orgulho Lesbiano, Central Park, Cidade de Nova Iorque, 28 de Junho de 1975.]

Para mim, ser uma lésbica significa três coisas –

Primeira, significa que eu amo, estimo, e respeito mulheres em minha mente, em meu coração, e em minha alma. Este amor das mulheres é o solo no qual minha vida está enraizada. É o solo da nossa vida comum em conjunto. Em qualquer outro solo, eu morreria. De qualquer maneira que eu sou forte, eu sou forte por causa do poder e paixão deste amor nutritivo.

Segunda, ser uma lésbica significa para mim que há uma paixão erótica e intimidade que surge do toque e sabor, uma selvagem, ternura picante, um suor doce molhado, nossos seios, nossas bocas, nossas vulvas, nossos cabelos entrelaçados, nossas mãos. Eu estou falando aqui de uma paixão sensual tão profunda e misteriosa como o mar, tão forte e serena como a montanha, tão insistente e mutável como o vento.

Terceira, ser uma lésbica significa para mim a memória da mãe, lembrada em meu próprio corpo, procurada, desejada, encontrada, e verdadeiramente honrada. Significa a lembrança do ventre, quando nós éramos uma com nossas mães, até o nascimento quando nós fomos separadas. Significa um retorno àquele lugar interno, dentro dela, dentro de nós mesmas, aos tecidos e membranas, à umidade e sangue.

Há um orgulho no amor nutritivo que é nosso solo comum, e no amor sensual, e na lembrança da mãe–e esse orgulho brilha radiante como o sol do verão ao meio dia. Este orgulho não pode ser degradado. Aqueles que o degradariam estão na posição de lançar punhados de lama no sol. Ainda ele brilha, e aqueles que atiram lama apenas sujam suas próprias mãos.

Ocasionalmente o sol é coberto por camadas densas de nuvens escuras. Uma pessoa olhando para cima juraria que não há sol. Mas o sol ainda brilha. À noite, quando não há iluminação, o sol ainda brilha. Durante a chuva ou granizo ou furacão ou tufão, o sol ainda brilha.

O sol pergunta a si mesmo, “Eu sou bom? Eu valho a pena? Há o suficiente de mim?” Não, ele queima e ele brilha. O sol se pergunta, “O que a lua pensa de mim? Como Marte se sente a respeito de mim hoje?” Não, ele queima, ele brilha. O sol se pergunta, “Eu sou tão grande como outros sóis em outras galáxias?” Não, ele queima, ele brilha.

Neste país, nos próximos dias, eu penso que haverá uma terrível tempestade. Eu penso que os céus escurecerão para além de qualquer reconhecimento. Aquelas pessoas que caminham pelas ruas caminharão por elas na escuridão. Aquelas que estão em cadeias ou instituições mentais não verão o céu de jeito nenhum, apenas a escuridão fora das janelas com barras. Aquelas que estão com fome e em desespero podem não olhar para cima de jeito nenhum. Elas verão a escuridão quando ela se encontrar junto ao chão na frente de seus pés. Aquelas que são estupradas verão a escuridão quando levantarem os olhos na direção do rosto do estuprador. Aquelas que são agredidas e brutalizadas por loucos olharão atentamente para a escuridão a fim de discernir quem está se movendo na direção delas a cada momento. Será difícil lembrar, enquanto a tempestade estiver intensa, que ainda, mesmo que não possamos vê-lo, o sol queima. Será difícil lembrar que, mesmo que não consigamos ver, o sol ainda queima. Nós tentaremos vê-lo e nós tentaremos senti-lo, e nós esqueceremos que ele ainda nos aquece, que se ele não estivesse lá, queimando, brilhando, esta terra seria um lugar frio e desolado e infértil.

Contanto que nós tenhamos vida e respirarmos, não importa como a terra ao nosso redor esteja escura, aquele sol ainda queima, ainda brilha. Não existe hoje sem ele. Não existe o dia de amanhã sem ele. Não existiu o dia de ontem sem ele. Essa luz está dentro de nós – constante, quente, e curativa. Lembrem-se disso, irmãs, nos dias escuros por vir.

“Orgulho Lesbiano” 1975, 1976 por Andrea Dworkin. Todos os direitos reservados. Publicada primeiramente sob o título “O Que É Orgulho Lesbiano?” em A Segunda Onda, Vol. 4, No. 2, 1975. Distribuída como uma preleção sob o título “O Que É Orgulho Lesbiano?”

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