O medo do feminismo entre as mulheres

28 abr

“…mulheres jovens têm sido profundamente afetadas hoje pela demonização do feminismo…”

 

“Mulheres mais velhas podem ver o backlash (reação) como temporário e mutável; mulheres mais jovens podem vê-lo tanto como as coisas são. A situação econômica para estudantes universitárias piorou durante esses 12 anos do mesmo jeito, com menos ajuda estudantil disponível, dessa maneira jovens mulheres podem experimentar sua situação como extremamente precária – Precária demais para se arriscar com feminismo.”

 

“Minhas estudantes mulheres jovens frequentemente interpretam críticas ao casamento – um material principal da análise feminista – por séculos – como evidências das famílias disfuncionais de suas autoras. Isto demonstra mais uma realidade com a qual elas cresceram: a tendência crescente de patologizar todo tipo de política relativa à oposição.”

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“Para entender o que as mulheres temem quando elas temem feminismo – e o que elas não temem – é útil traçar uma distinção entre consciência de gênero e consciência feminista.”

 

“Consciência de gênero toma duas formas: consciência da vulnerabilidade das mulheres e celebração da diferença das mulheres… Consciência de gênero é uma condição prévia para consciência feminista, mas elas não são a mesma. A diferença encontra-se na conexão entre gênero e política. Feminismo politiza consciência de gênero, a insere em uma análise sistemática de histórias e estruturas de dominação e privilégio. Feminismo faz perguntas – perguntas difíceis e complexas, frequentemente com respostas contraditórias e confusas – sobre como consciência de gênero pode ser usada tanto em prol e contra as mulheres, como vulnerabilidade e diferença ajudam e impedem a autodeterminação e liberdade das mulheres. Medo do feminismo, então, não é um medo de gênero, mas é certamente um medo de política. Medo de política pode ser entendido como um medo de viver consequências, um medo de represálias.”

 

“O medo de represálias políticas é muito realista. Existem interesses poderosos opostos ao feminismo – vamos esclarecer a respeito disso. Não é dos interesses da supremacia branca que mulheres brancas insistam nos direitos de aborto, que mulheres de cor insistam sobre um fim para a esterilização involuntária, que, todas as mulheres insistam na autodeterminação reprodutiva. Não é do interesse do capitalismo que as mulheres demandem direitos econômicos ou valor comparável. Não é dos interesses de muitos indivíduos homens ou muitas instituições que as mulheres demandem uma autonomia sexual não exploradora. O que nossa cultura de massa pareceria se ela não vendesse corpos de mulheres – até mesmo à parte da pornografia. Não é dos interesses do patriarcado heterossexista que as mulheres desafiem as nossas compreensões de eventos intituladas HOMEM MATOU A FAMÍLIA PORQUE ELE AMAVA ELA, que mulheres desafiem a noção de violência dos homens contra mulheres e crianças como derivada do “amor” mais propriamente do que poder. Não é dos interesses de qualquer dos sistemas de dominação que nos emaranham que nós vejamos como estes sistemas trabalham – que nós compreendamos a violência masculina, dominação masculina, supremacia de raça e classe, como sistemas de permissão para o exercício de poder tanto individual como institucional, mais propriamente do que meramente patologias individuais. Não é dos interesses do patriarcado branco supremacista capitalista que as mulheres aliem-se através das diferenças. Aliar-se através das diferenças é um trabalho difícil, e é frequentemente impedida pela homofobia.”

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“A insistência feminista que o pessoal é político pode dar a impressão de ameaçar antes de empoderar o eu frágil, emergente de uma garota conforme ela se desenvolve em um ser sexual e relacional. Mulheres jovens podem acreditar que uma identidade feminista as coloca para fora do reservatório para muitos homens, limita as opções de quem elas podem vir a ser com um parceiro…”

 

“Minhas estudantes mulheres, feministas e não feministas igualmente, estão perfeitamente cientes dos riscos de irem desacompanhadas para a biblioteca a noite. Ao mesmo tempo, elas estão assustadas por eu sugerir que tais restrições baseadas em gênero (?) ao seu acesso às instalações da universidade negam a elas uma educação igual. Não é que a violência dos homens não é real para elas, mas que elas estão relutantes em traçar suas consequências e compreender suas complexidades.”

 

“Mulheres de todas as idades temem a situação existencial do feminismo, o que nós aprendemos de Simone de Beauvoir, o que nós aprendemos das feministas radicais nos anos 1970, o que nós aprendemos das mulheres feministas de cor nos anos 1980: feminismo tem consequências.”

 

“Mulheres temem tomar uma posição pública, entrar no discurso público, demandar e talvez ganhar atenção. E para quê? Para ser chamada de uma “feminazi”? Para serem denunciadas como traidoras da “natureza essencial” das mulheres?”

 

“O desafio à divisão público-privado que o feminismo representa é profundamente ameaçadora para mulheres jovens que somente desejam serem deixadas em paz, para todas as mulheres que acreditam que elas podem se esconder de assuntos feministas por não serem feministas.”

 

“…mulheres que temem o feminismo temem viver as consequências. Pensar mais severamente, agir mais cuidadosamente; feminismo requer que você entre em um mundo supersaturado com significado, com implicações. E para as mulheres privilegiadas em particular, a noção que o privilégio de alguém vem às custas de outro alguém – que o meu privilégio é a sua opressão – é profundamente ameaçadora.”

 

“Medo do feminismo é também medo da complexidade, medo de pensar, medo das idéias – nós vivemos, afinal, em uma cultura profundamente anti-intelectual. Feminismo é um dos poucos movimentos que produz intelectuais não acadêmicas – leitoras, escritoras, pensadoras, e teoristas fora da academia, que combinam e refinam seu conhecimento com sua prática. Que outro movimento se aloja tão substancialmente nas livrarias?”

 

“Feminismo é trabalho – tão certamente trabalho intelectual como ele é trabalho ativista – e pode ser muito fácil para mulheres que têm sido feministas por um longo tempo esquecerem o quanto seus discernimentos são de difícil obtenção, quantas leituras e conversas e reflexões e trabalho os produziram.”

 

“Feminismo requer uma expansão do eu – uma expansão de empatia, interesse, inteligência, e responsabilidade através das diferenças, histórias, culturas, etnicidades, identidades sexuais, othernesses (diversidades).”

 

“Mulheres têm razões reais para temer o feminismo, e nós não fazemos nenhum serviço às mulheres jovens se nós sugerirmos para elas que o feminismo propriamente dito é seguro. Ele não é. Posicionar-se em oposição à sua cultura, ser crítica as instituições, comportamentos, discursos – quando tão claramente NÃO É do seu interesse imediato fazer de tal modo – requer muito de uma pessoa jovem, de qualquer pessoa.” 

Passagens extraídas de Fear of Feminism – Why young women get the willies, de Lisa Maria Hogeland @ Vancouver Rape Relief

 

http://www.rapereliefshelter.bc.ca/volunteer/fearoffem.html

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5 Respostas to “O medo do feminismo entre as mulheres”

  1. Patriarkill 28/04/2009 às 21:37 #

    MUITO OBRIGADA, estava querendo faz tempo traduzir este, agora tenho que atualizar no hysterocracya e tb por aí….

    valeu mesmo por este trabalho. Seguimos!!

    • su 16/07/2009 às 11:07 #

      não tem paginação? Gostaria de citar algumas passagens do texto. Preciso da referência tb…

      • su 16/07/2009 às 11:10 #

        ok, peguei a referência, mas ainda estou em dúvida, não há paginação?

  2. Ju 10/04/2011 às 16:08 #

    O texto fez todo o sentido para mim. Vejo colegas minhas se recusando a se identificarem como feministas como se isto fosse um absurdo. Elas concordam que mulheres devam ter direitos básicos inerentes a qualquer ser humano como, ir e vir, andar na rua sem medo de estupro, legislação que reconheça crimes praticados contra esse grupo, elas reconhecem que recebem tratamento degrandante pela sociedade e que não concorrem em pé de igualdade com homens pelo simples fato de serem mulheres entre tantas outras coisas. Mas recusam o rótulo feminista. Há muita pressão para que as coisas não mudem. Porém, ninguém para a evolução, se retarda às vezes mas, não a impede.

  3. Maria de Lourdes 23/05/2011 às 21:31 #

    estou meio que já enojada de ver as mulheres demonizarem o feminismo e depois querer que ele as defenda…crucificam as feministas e depois querem os beneficios…francamente!Ao meu ver,mulheres que tacampedra no feminismo deviam que arcar com as consequências quando acontecem violências masculinas com elas.Farta desta “inocência feminina” na colaboração do sistema patriaracal.

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