Arte e Feminismo

12 jun

Houve um tempo em que tu não eras escrava… lembra-te disso. Um tempo em que caminhavas sozinha, cheia de riso, em que te banhavas nua no mar… Podes ter perdido a lembrança desse tempo, mas procura lembrar-te… Podes dizer que não há palavras que descrevam esse tempo, podes dizer que ele não existe. Mas recorda. Faz um esforço para o relembrares, ou, se não conseguires, inventa-o! (“Les Guerrilleres” de Monique Wittig)

Por todo o tempo em que escritores têm escrito, até hoje, essa tem sido uma arte masculinista – arte que serve aos homens em um mundo feito por homens. Essa arte tem degradado as mulheres. Ela tem, praticamente sem exceção, nos caracterizado como seres mutilados, sensibilidades empobrecidas, pessoas triviais com preocupações triviais. Ela tem sido, praticamente sem exceção, saturada com uma misoginia tão profunda, uma misoginia que era de fato sua visão de mundo, que quase todas nós, até hoje, tinhamos pensado que é isso o que o mundo é, que é isso o que as mulheres são.

Eu me perguntei, o que eu aprendi com todos estes livros que eu li a medida que eu crescia? Eu aprendi algo real ou verdadeiro sobre as mulheres? Eu aprendi algo real ou verdadeiro sobre séculos de mulheres e o que elas viveram? Estes livros iluminaram minha vida, ou a vida ela mesma, de alguma maneira proveitosa, ou profunda, ou generosa, ou rica, ou real? Eu penso que não. Eu penso que essa arte, esses livros, teriam me roubado de minha vida assim como o mundo que eles servem roubou minha mãe da dela.

Theodore Roethke, nos é dito um grande poeta, um poeta da condição masculina eu insistiria, escreveu:

Duas das cargas mais apontadas contra a poesia de mulheres são falta de extensão – em matéria de assunto e em tom emocional – e falta de um senso de humor. E alguém poderia, em instâncias individuais entre escritores de talento verdadeiro, adicionar outras falhas estéticas e de moral: o prolongamento; o adorno de temas triviais; o interesse pelas meras superfícies da vida – aquela divisão especial do talento feminino na prosa – se escondendo das verdadeiras agonias do espírito; a recusa de encarar o que a existência é; a postura lírica ou religiosa; correr entre o vestiário feminino e o altar, batendo um pé minúsculo contra Deus; ou o deslizamento em um laconismo que significa que a autora reinventou a integridade; a preocupação excessiva a respeito do Destino, do tempo; a lamentação da sina da mulher… e assim por diante.

O que caracteriza arte masculinista, e os homens que a fazem, é misoginia. Eles, os masculinistas, nos disseram que eles escrevem sobre condição humana, que seus temas são grandes temas – amor, morte, heroísmo, sofrimento, história ela mesma. Eles nos disseram que nossos temas – amor, morte, heroísmo, sofrimento, história ela mesma – são triviais porque nós somos, pela nossa própria natureza, triviais.

Eu renuncio a arte masculinista. Ela não é a arte que ilumina a condição humana – ela ilumina apenas, e para a vergonha final e perpétua dos homens, o mundo masculinista – e quando nós olhamos ao nosso redor, esse mundo não é algum para se orgulhar. Arte masculinista, a arte de séculos de homens, não é universal, nem a explicação final do que é existir no mundo. Ela é, no fim, descritiva apenas de um mundo em que as mulheres são subjugadas, submissas, escravizadas, privadas de formação plena, distintas apenas pela carnalidade, rebaixadas. Eu digo, minha vida não é trivial; minha sensibilidade não é trivial; minha luta não é trivial. Nem a da minha mãe, ou da mãe dela. Eu renuncio aqueles que odeiam as mulheres, que têm desprezo pelas mulheres, que ridicularizam e rebaixam mulheres, e quando o faço, eu renuncio a maior parte da arte, arte masculinista, já feita.

Como feministas, nós habitamos o mundo de uma maneira diferente. Nós vemos o mundo de uma nova maneira. Nós ameaçamos virá-lo de cabeça para baixo e às avessas. Nós pretendemos mudá-lo tão completamente que algum dia os textos dos escritores masculinistas serão curiosidades antropológicas. Do que estava falando aquele Mailer, nossa descendência perguntará, ela deverá encontrar o trabalho dele em algum arquivo oculto. E ela se surpreenderá – confusa, triste – com a glorificação masculinista da guerra; as mistificações masculinistas a cerca de matança, mutilação, violência, e dor; as máscaras torturadas do heroísmo fálico; a arrogância fútil da supremacia fálica; as representações empobrecidas de mães e filhas, e desta forma, da vida ela mesma. Ela perguntará, essas pessoas realmente acreditaram nesses deuses?

Arte feminista não é um córrego minúsculo escoando do grande rio da arte verdadeira. Ela não é uma rachadura em uma pedra por outro lado perfeita. Ela é, completamente espetacularmente eu acho, a arte que não é fundamentada na subjugação de metade da espécie. Ela é a arte que tomará os grandes temas humanos – amor, morte, heroísmo, sofrimento, história ela mesma – e os tornará completamente humanos. Ela também pode, ainda que nossas imaginações estejam tão mutiladas agora que nós somos incapazes até mesmo da ambição, introduzir um novo tema, um tão grande e tão rico como aqueles outros – devemos chamá-lo de “alegria”?

Nós não podemos imaginar um mundo em que mulheres não são experimentadas como triviais e desprezíveis, em que mulheres não são rebaixadas, abusadas, exploradas, estupradas, diminuídas antes mesmo de nascermos – e por isso nós não podemos saber que tipo de arte será feita nesse novo mundo. Nosso trabalho, que honra completamente a estes séculos de irmãs que vieram antes de nós, é para a parteira desse novo mundo por vir. Ele será deixado para nossas crianças e para as crianças delas viverem nele.

(Andrea Dworkin em “Feminism, Art and my Mother Sylvia”)

A Guerra Contra as Mulheres na Arte

Ainda não se fez nenhum estudo exaustivo das atitudes em relação às mulheres na arte do século 20. Mas John Berger, no seu importante livro, Ways of Seeing (Maneiras de Ver), relaciona a apresentação da mulher, na pintura e publicidade ocidentais, com a obsessão consumista do capitalismo. O deus do capitalismo (que Berger considera quase uma religião) é o dinheiro. Só o dinheiro e nada mais do que o dinheiro pode dar ao homem status, amor e felicidade (definida como a inveja dos outros). Argumentando que no século 20 a tradição da pintura ocidental foi apropriada pela publicidade, Berger demonstra que os temas da arte do Ocidente são utilidades projetadas para atrair o consumidor masculino. Por suposição, ele é sempre homem, mesmo quando o anúncio se dirige às mulheres. Elas são estimuladas a comprar coisas que as transformem em utilidades mais atraentes para os homens. Elas próprias são as mercadorias mais importantes que o mundo é capaz de oferecer aos compradores masculinos. Sua sexualidade, maternidade, beleza e trabalho são expostos na pintura e publicidade ocidentais como qualidades à disposição dos homens que tenham dinheiro suficiente. Mas o brilhante e fascinante argumento de Berger não toca nem de leve no ódio dos homens por essas mesmas utilidades.

As feministas apontam o ódio às mulheres nas obras de pintores como Willem de Kooning, Picasso e nos retratos de Balthus, de meninas surpreendentemente lascivas. Porém, a análise feminista da arte é impedida por estarmos obrigadas, em nossas almas, à liberdade de expressão. Os artistas se apropriam do corpo feminino, junto com a natureza e os objetos, como seu tema, sua posse. Pintando com ódio as mulheres ou as idealizando e grosseiramente sentimentalizando (como Renoir, por exemplo) ou tomando posse delas com fria superioridade (como Degas), eles implicitamente violentam a realidade e autonomia femininas. Mas não se pode negar aos artistas o direito à sua própria visão. Embora, na realidade, as mulheres raramente ataquem os homens, Jerome Robbins criou um balé, A Gaiola, em que dois homens são eviscerados por mulheres em forma de insetos. Representações de ameaça às mulheres são comuns em todas as artes e, supostamente, exprimem um verdadeiro terror masculino a elas. Não é de admirar! Tendo subjugado as mulheres em todos os aspectos da vida, eles naturalmente temem a retaliação.

A escultura moderna freqüentemente representa as mulheres com pequenas cabeças vazias e orgãos sexuais proeminentes ou grandemente aumentados. Visitando galerias de escultura nos museus modernos (especialmente o Centro Pompidou, em Paris), senti-me agredida pela arte supostamente abstrata do século 20, que representa partes exageradamente ampliadas do corpo feminino, principalmente os seios. Parece que se pretendeu ridicularizar e desmembrar esculturas pré-históricas de mulheres.

Não é a imagem erótica do corpo feminino que perturba, mas o fato que ela é assim feita para ser apropriada por um sexo que assume posição superior, comprador de utilidades. Muitas mulheres se magoam ao ver seus corpos assim apropriados e transformados em utilidades, na moda e na publicidade. A maioria engole seu desgosto. Várias, ensinadas a “verem” dessa maneira, deformam-se para se adaptarem ao modelo, como as meias-irmãs de Cinderela, forçando os pés para caber no sapato de cristal do Príncipe. As desanimadas acham difícil, talvez impossível, fazer mais do que tentar ver claramente e procurar dizer o que nós vemos. A visão clara nos conduz, não às mulheres, mas aos homens e à canibalística psique masculina. Mas as mulheres que descrevem e analisam essa psique masculina são acusadas de “injuriar os homens”. A sociedade, complacente com a representação feminina negativa nas artes, torna-se absurdamente censora quando as mulheres atacam, na sua arte, os valores masculinos, seus comportamentos e imagens.

A depreciação das mulheres nas imagens publicitárias encontra eco nas representações cinematográficas. As mulheres são tratadas tão indecorosamente nos filmes que Janet Maslin, não particularmente feminista, foi levada a protestar contra a ridicularização de mulheres, como Madonna em Dick Tracy, Jennifer Jason Leigh em Noites Violentas no Brooklin e Anjo Assassino, Victoria Abril em Ata-me, de Pedro Almodóvar, e Goldie Hawn em Alta Tensão. Neste último, Hawn é uma advogada debilóide que passa a maior parte do tempo de camisola. O filme mais popular de 1990, Uma Linda Mulher, é um conto de Cinderela com uma prostituta. Os anúncios cinematográficos mostram a protagonista feminina quase nua, mesmo que não apareça assim no filme. Ou homens carregando mulheres como presas, a exemplo de Gerard Depardieu com a risonha Andie McDowell pendurada em seus ombros em Passaporte do Amor. Estupros e quase-estupros tornaram-se tão obrigatórios no cinema violento dos Estados Unidos como são, há tempos, na Índia. Acrescente-se a isso a tendência do cinema e dos livros de apresentarem as mulheres com carreiras como mesquinhas e egoístas (Sigourney Weaver em Uma Secretária de Futuro) ou imensamente más (Atração Fatal e Acima de Qualquer Suspeita que, como romance encabeçou a lista dos mais vendidos por dois anos) e a depreciação e ódio às mulheres nos divertimentos populares e tem-se uma anatomia dos sentimentos dos homens a respeito das mulheres na nossa época, sem nem se falar da pornografia.

(Marilyn French em “The War Against Women”, 1992)

 

A “Grande Arte” e a “Cultura”

por Valerie Solanas

O “artista” macho procura compensar sua incapacidade de viver e sua frustração de não ser uma fêmea construindo um mundo completamente artificial onde ele é o herói, ou seja, um mundo em que ele pode exibir traços femininos e em que a mulher é reduzida a papéis subordinados, insípidos e extremamente limitados, ou seja, ser macho.

Dado que seu objetivo “artístico” não é comunicar-se (como não tem nada dentro dele, ele não tem nada a dizer), mas disfarçar seu animalismo, ele recorre ao simbolismo e à ambigüidade (“materiais profundos”). A grande maioria das pessoas, particularmente as “educadas”, carentes de fé em seus próprios julgamentos, humildes e respeitosas da autoridade (“Papai sabe mais” é traduzido para a linguagem adulta como “O crítico sabe mais”, “O escritor sabe mais”, “O Ph.D sabe mais”), são facilmente levadas a acreditar que a incerteza, a evasão, a incompreensibilidade, o indireto, a ambigüidade e o aborrecimento são marcas de profundidade e brilho.

A “Grande Arte” prova que os homens são superiores às mulheres, que os homens são mulheres, já que quase toda a chamada “Grande Arte”, como os antifeministas adoram nos lembrar, foi criada pelos homens. Nós sabemos que a “Grande Arte” é grande porque as autoridades masculinas nos disseram isso e não podemos afirmar o contrário, pois somente quem tem uma sensibilidade extraordinária, muito superior à nossa, podem perceber e apreciar tal grandeza, sendo o fato deles apreciarem essa merda a prova de sua sensibilidade superior. Apreciar é a única diversão dos “cultos”; passivos e incompetentes, sem imaginação nem perspicácia, eles precisam se contentar com isso; incapazes de criar suas próprias diversões, de criar um mundinho seu, de afetar da menor maneira seu ambiente, eles têm de aceitar o que lhes é dado; incapazes de criar ou de se relacionar, eles contemplam. Absorver “cultura” é uma tentativa desesperada, frenética, de se divertir em um mundo sem diversão, de escapar do horror de uma existência estéril e estúpida. A “cultura” fornece um suborno para o ego dos incompetentes, um meio de racionalizar a observação passiva; eles podem se orgulhar de sua capacidade de apreciar as coisas “mais finas”, de ver uma jóia onde há apenas uma merda (querem ser admirados por admirar). Não acreditando em sua capacidade de mudar o que quer que seja, resignados com o estado atual, eles têm de ver beleza na merda porque, até onde vai a sua visão de mundo, a única coisa que terão mesmo é a merda.

A veneração pela “Arte” e pela “Cultura” – além de levar muitas mulheres para atividades enfadonhas, passivas, que as desviam de atividades mais importantes e gratificantes e do cultivo de suas capacidades ativas, leva à constante intromissão em nossa sensibilidade de pomposas dissertações sobre a profunda beleza dessa e daquela merda. Isso permite que o “artista” seja estabelecido como alguém dotado de sentimentos, percepções, compreensões e julgamentos superiores, e por meio disso minando a fé das mulheres inseguras do valor e da validez dos seus próprios sentimentos, percepções, compreensões e julgamentos.

O macho, tendo uma extensão muito limitada de sentimentos e, conseqüentemente, percepções, compreensões e julgamentos muito limitados, precisa do “artista” para guiá-lo, para que o diga o que é a vida. Mas o “artista” macho, sendo totalmente sexual, incapaz de se relacionar com qualquer coisa a não ser com suas próprias sensações físicas e não tendo nada para expressar além da compreensão de que para o macho a vida é sem sentido e absurda, não pode ser artista. Como pode ele, que não é capaz de vida, nos dizer no que consiste a vida? Um “artista macho” é uma contradição de termos. Um degenerado só pode produzir “arte” degenerada. A verdadeira artista é toda fêmea autoconfiante, saudável, e em uma sociedade feminina, a única Arte, a única Cultura, serão as fêmeas orgulhosas, excêntricas e autênticas se divertindo umas com as outras e com tudo mais no universo.

(do “SCUM Manifesto” de 1967)

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