Desconstrua Isto!

20 fev

Por Alix Dobkin

Do Chicago OUTLINES 21 de Outubro, 1998

“Homofobia” e “Lesbofobia” são dois termos tão diferentes um do outro como os homens são das mulheres. E como homens e mulheres, não são permutáveis. “Homofobia” significa medo de SER homossexual. “Lesbofobia” significa medo de LÉSBICAS, significando mulheres sem homens.

Você vê como mulheres são facilmente feitas a desaparecerem. Uma manchete para uma história de off our backs a respeito da Conferência Nacional de Estudos de Mulheres de 1998 fala por si própria. “As Políticas das Comunidades Lésbica, Gay, Bissexual e Transgênero”, apontam diretamente para onde os Estudos Nacionais de Mulheres estão focalizando agora a atenção: NÃO em mulheres e mais definitivamente NÃO nessa antiga e esgotada coisa de papel sexual, dominação/subordinação, poder/controle, que nos inflamou nos anos 70 e ainda está muito no lugar.

Certo, então O QUE o pósmodernismo tem a dizer sobre a escravidão sexual feminina, classe feminina, tetos de vidro? Movendo-se adiante, “Gênero” é “líquido” e “a Polícia de Limites” é “autoritária”, notou uma oradora da Conferência Nacional de Estudos de Mulheres que também declarou que, “… a demanda por limites claros fere mais do que nos ajuda…”. Mas não importa como as marés de gênero fluam e as areias de gênero se desloquem, você pode ter certeza que homens governarão esta praia.

Sim, eu sei que a vida é incerta e que não há nenhuma garantia. Eu estudei a “Dialética” Marxista que diz que “mudança” é a única constante. Eu fui educada nela e compreendo mudança. Mas desde quando “identidade”, “rótulos” e “limites” se tornaram repentinamente suspeitos? Quando Lésbicas os obtiveram, isso foi quando. Pois tão logo nós descobrimos e começamos a celebrar nossos eus femininos nós fomos acusadas de “Políticas de Identidade” e banidas para o borrão da ambiguidade onde todo mundo é “socialmente construído”, “líquido”, “performativo”, “desempenha códigos de gênero” e ninguém, particularmente Lésbicas, podem realmente saber quem são. Jogos de fumaça e espelho são perpetrados por aqueles que pretendem estar no controle quando a fumaça se retirar, e contrariamente à linha partidária atual, eu amo a “identidade” e “limites” dos quais dependem minha política para ter posição e direção.

“O pessoal é político” é sobre agir responsavelmente e permanecer responsável. Feminismo é a política mais ética, coerente, compreensiva, prática, espiritual e divertida que eu já encontrei, e eu já encontrei bastante, acredite em mim! Feminismo é esperto e muito perigoso, que é o que os homens gostam de pensar sobre eles mesmos.

Os Estudos de Mulheres lutaram duramente para ser reconhecidos, e mesmo então têm recebido menos suporte e devem lutar mais duramente por financiamento do que outros programas da Universidade preocupados com disciplinas “mais importantes” (leia, “masculinas”). Todavia os Estudos de Mulheres têm se tornado muito mais bem sucedidos do que os homens gostariam e consequentemente muito menos suportáveis. O Feminismo navegou por cima das cabeças dos homens e fora da estimativa deles, deixando-os atordoados na poeira do seu pensamento antiquado. “Ei”, eles gritaram, “aquelas garotas estão ganhando toda a atenção e nós estamos sendo deixados de fora!” Eles se perguntaram, “Como nós podemos tornar o que está ALÉM DE NÓS, A RESPEITO DE NÓS?” E mais rápido do que você pode dizer “construcionismo social pósmoderno” eles foram para a França e voltaram com teoria de “Gênero/Queer” para substituir “Estudos de Mulheres”, como “trabalhador de reposição” estava substituindo “fura-greve”, “de segunda mão” substituindo “usado”, e “limpeza étnica” substituindo “genocídio”.

Após vinte séculos de somente-homens focalizando somente em homens, eles agora foram forçados a encarar mulheres, a quem disseram então, “Certo, o bastante sobre nós. O que VOCÊS pensam sobre nós?” Algumas mulheres sentiram que a vida era muito curta e não poderiam ser incomodadas.

Algumas mulheres acreditaram que os homens poderiam usar “Gênero” e “Queer” para mudar seu mau comportamento, de maneira que elas fizeram um esforço para ajudar. E algumas mulheres viram como poderiam usar “Gênero” e “Queer” para fazerem carreiras e elas ajudaram a si mesmas. Entra em cena Camille Paglia, Katie Roiphe, Judith Butler e enxames de restauracionistas que, capitalizando em cima do terror dos homens, aceleraram o resgate, colocando os homens agradecidos em conforto, e os cérebros de uma geração para dormir.

Ao ponto onde hoje em dia as feministas radicais lutam para manter “mulheres” no currículo e elas mesmas na faculdade. Entrementes, jovens que pretendem ser feministas lutam para permanecer acordadas por causa de soníferas palavras de efeito do jargão obscuro, ameaçador, como “polícia de limites”, “autoritária” e “políticas de identidade”.

Nós temos ouvido sobre a “brecha entre gerações” na Comunidade Lésbica, e como “mulheres jovens atualmente apenas ‘não entendem’ o feminismo.” Mas eu estou aqui para lhes dizer que eu tenho falado com e ouvido de um grupo inteiro de Lésbicas em sua adolescência e vinte anos que estão muito ligadas e muito furiosas com o backlash patriarcal, anti-feministas conspiratórios de papo furado que as têm roubado de sua história e herança. Para esses colaboradores nós dizemos, que vergonha!

O Verbo de Gênero & Outras Notas de Três Dólares*

Por Alix Dobkin

Do Chicago OUTLINES 11 de Novembro, 1998

Ghandi é admitido ter dito, “Primeiro eles nos ignoram, em seguida nos ridicularizam, depois nos atacam, então nós vencemos.” Se Ghandi tivesse vivido tempo suficiente ele poderia ter adicionado “então eles nos confundem” à sua lista de métodos táticos opressivos.

Tiranos conhecem e temem o poder de falar a verdade, e Ghandi poderia ter notado que logo depois que o Feminismo começou a falar a Verdade sobre o Poder Patriarcal, “Verdade” se tornou ininteligível, e “Poder” se tornou irreconhecível. Pois como “Gênero” incapacita “Mulheres” na Academia, assim também “Queer” realmente apaga “Lésbica” nas ruas. Juntos eles têm confundido, desviado e enchido de lama seu caminho até o pior inimigo do Patriarcado, o Feminismo Lésbico.

O que realmente me irrita é esse círculo de acadêmicas estáveis de mais-de-cinquenta anos que conduzem a marcha forçada em direção oposta à análise feminista que elas descartam com jargão ameaçador tal como “feminismo cultural” e “políticas de identidade”. Estas pessoas pensam realmente que “gênero” é um verbo. Elas “desempenham” gênero, “performam” gênero, e fazem mingau da genuína mudança da vida, o feminismo radical de anos passados, que é como algumas de nós ainda reconhecemos papéis sexuais e sistemas de superioridade de poder do domínio masculino.

Em vez de eliminar mulheres, o estudo de gênero apropriado revelaria como os homens fazem o que, e a quem, confrontaria o mau comportamento institucional dos homens e os ajudaria a se tornarem menos auto-referentes, odiosos e destrutivos.

A boa notícia é que alguns homens estão começando realmente a perceber e rejeitar “masculinidade” tóxica para se tornarem humanos. A má notícia é que pateticamente pouco disto ocorre na Academia.

Além de expor o domínio masculino, estudantes educados a respeito de gênero revelariam que a exibição decorativa representada como “feminina” é, de fato, ruidosamente “masculina”. Para evidência nós temos simplesmente que referir ao “reino” animal ou das aves, onde os machos são normalmente apresentados muito mais belamente do que as fêmeas. Restringir “embelezamento” às fêmeas contradiz a mãe natureza. Quem, afinal, inventou e administra isto? Eu tenho observado frequentemente que qualquer drag queen de segunda-classe pode facilmente sobrevestir Elizabeth Taylor. (Teriam um tempo mais difícil ultrapassando Dolly Parton, a quem a aparência drag é um disfarce e um tíquete refeição mais do que um imperativo interno.)

“Então, por que”, você pode perguntar, “são atribuídas exclusivamente às mulheres as funções e imagem tão naturalmente adequadas aos homens?”

Aha!

Agora nós estamos adentrando no DOMÍNIO e SUBMISSÃO, o coração e a alma do Patriarcado, onde a “masculinidade” denota domínio e a “feminilidade” sinaliza submissão. É tão simples quanto isso. E tão complicado. Pois em um mundo conduzido por intimidadores, naturezas humanas individuais verdadeiras devem ser deturpadas em papéis distorcidos que exigem aparências, comportamentos, expectativas, etc, falsificadas à exaustão.

Porque os homens são afastados da criação da vida no apavorante mundo real, eles constroem um mundo falsificado onde os homens DEVEM dominar, e as mulheres DEVEM se submeter. Mas já que isto é tão NÃO NATURAL, os desvios aparecem subitamente como espinhas em um adolescente. Consequentemente, o Patriarcado precisa monitorar a maneira que adolescentes necessitam de creme para espinha.

A exibição masculina no mundo natural serve para atrair a fêmea indiferente da espécie. No mundo não natural do Patriarcado, os homens vestem-se principalmente para situarem melhor a si mesmos em hierarquias que são facilmente lidas, conformadas e reforçadas. Desta maneira os homens distinguem quem dirigem e quem os dirige. Hierarquias sociais confiáveis, familiares, como as forças armadas, os ajudam a se sentirem confortavelmente seguros e repelir o medo. E quando se trata de vestir papéis-sexuais codificados, homens são prováveis a se tornarem extremamente melindrosos. Afinal, eles assassinaram Joana D’Arc não por ouvir vozes, mas por usar roupas de homens.

Além disso, embora ativamente heterossexual, a maioria dos cross dressers, como J. Edgar Hoover, devem se vestir em segredo de modo a não serem espancados por homens muito medrosos para usarem vestidos eles mesmos. Muitas mulheres parecem gostar do travestismo masculino também, mas no Patriarcado é impossível saber o que é autêntico. As mulheres escolheriam usar os vestidos dos homens, seu batom, seu salto alto e seu decote fora do Patriarcado? Ou elas estão meramente tentando evitar a desaprovação? Ninguém que vive em um mundo não natural pode saber com certeza.

A popularidade recente dos eventos de “Drag King” para mulheres diz mais a respeito de esforços superficiais para resolver desequilíbrios de poder do que sobre exibição feminina. Ela também demonstra com quem as jovens Lésbicas têm andado, a sensibilidade de quem elas têm absorvido, e a quem têm procurado sua identidade. O que nos traz de volta ao “Queer,” onde uma geração de jovens Lésbicas tem sido educada, onde as ideias e paixões de Feministas Lésbicas frequentemente parecem estrangeiras, a quem a experiência de espaços somente de mulheres parece estranha, e para quem a consciência Lésbica desvaneceu em homens de todos os “gêneros” e “Queers” de todas as nações.

* N.T: Uma nota de três dólares significa algo falso, que não deveria existir.

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