O Pensamento Hétero – Heterossexualidade Compulsória e a Existência Lesbiana

8 mar

Monique Wittig, escritora, poetisa e militante lésbica-feminista, nasceu na França em 1935. Estudou na Universidade de Paris e foi colaboradora juntamente com Simone de Beauvoir e com Christiane Delphy da revista Questions Feministes. Exilou-se no final dos anos 70 nos Estados Unidos, e revolucionou o movimento feminista com seus escritos. Dentre os mais conhecidos estão: Les Guérrillères (novela, 1969), Le Corps Lesbien (poesia, 1973), Le Voyage sans fin (teatro), La Pensée Straight (ensaio, 1978) e One is not Born a Woman (de 1980).

Recordaremos aqui o importantíssimo ensaio “O Pensamento Hétero” de Wittig, dedicado às lesbianas americanas, em associação à análise de uma das mais influentes feministas lesbianas na crítica da heterossexualidade obrigatória e defesa da lesbianidade como categoria política e conceito revolucionário, Adrienne Rich.

O Pensamento Hétero

Os discursos que acima de tudo nos oprimem, lésbicas, mulheres, e homens homossexuais, são aqueles que tomam como certo que a base da sociedade, de qualquer sociedade, é a heterossexualidade. Estes discursos falam sobre nós e alegam dizer a verdade num campo apolítico, como se qualquer coisa que significa algo pudesse escapar ao político neste momento da história, e como se, no tocante a nós, pudessem existir signos politicamente insignificantes. Estes discursos da heterossexualidade oprimem-nos no sentido em que nos impedem de falar a menos que falemos nos termos deles. Tudo quanto os põe em questão é imediatamente posto de parte como elementar. A nossa recusa da interpretação totalizante da psicanálise faz com que os teóricos digam que estamos a negligenciar a dimensão simbólica. Estes discursos negam-nos toda a possibilidade de criar as nossas próprias categorias. Mas a sua ação mais feroz é a implacável tirania que exercem sobre os nossos seres físicos e mentais.

Ao usarmos o termo demasiado genérico ideologia para designar todos os discursos do grupo dominante, relegamos estes discursos para o domínio das Ideias Irreais; esquecemos a violência material (física) que diretamente fazem contra as pessoas oprimidas, violência essa produzida pelos discursos abstratos e científicos, assim como pelos discursos dos mass media.

As imagens pornográficas, os filmes, as fotos de revistas, os pôsteres publicitários que vemos nas paredes das cidades, constituem um discurso, e este discurso cobre o nosso mundo com os seus signos, e este discurso tem um significado: significa que as mulheres são dominadas. Os semióticos podem interpretar o sistema deste discurso, descrever a sua natureza. O que eles lêem nesse discurso são signos cuja função não é significar e que não têm qualquer razão de ser exceto a de serem elementos de um certo sistema ou natureza. Mas para nós este discurso não está divorciado do real tal como está para os semióticos. Este discurso não só mantém uma relação muito próxima com a realidade social que é a nossa opressão (econômica e politicamente) mas, igualmente, é em si próprio real já que é um dos aspectos da opressão, já que exerce um poder bem definido sobre nós. O discurso pornográfico é uma das estratégias de violência que são exercidas sobre nós: ele humilha, ele avilta, ele é um crime contra a nossa humanidade. Como técnica de assédio tem uma outra função, a de ser um aviso. Ordena-nos que nos mantenhamos na linha e mantém na linha aquelas que teriam tendência a esquecer quem são; esse discurso chama o medo.

Estes peritos em semiótica a que nos referimos previamente censuram-nos por confundirmos os discursos com a realidade, quando nos manifestamos contra a pornografia. Não vêem que este discurso é a realidade para nós, uma das facetas da realidade da nossa opressão. Acreditam que estamos enganadas no nosso nível de análise.

Escolhi a pornografia como exemplo porque o seu discurso é o mais sintomático e o mais demonstrativo da violência que nos é feita através de discursos, assim como na sociedade em geral. Não há nada de abstrato acerca do poder que as ciências e as teorias têm de agir materialmente e na realidade sobre os nossos corpos e as nossas mentes, mesmo se é abstrato o discurso que produz esse poder. É uma das formas de domínio, a sua própria expressão, como disse Marx. Eu diria, alternativamente, um dos seus exercícios. Todos os oprimidos conhecem este poder e têm de lidar com ele. É aquele que diz: não tens o direito de falar porque o teu falar não é científico e não é teórico, estás a um nível errado de análise, estás a confundir discurso e realidade, o teu discurso é ingênuo, compreendes mal esta ou aquela ciência.

Se o discurso dos sistemas teóricos modernos e da ciência social exercem poder sobre nós, é porque esse discurso trabalha com conceitos que nos tocam de perto. Apesar do advento histórico dos movimentos de libertação lésbica, feminista e gay, cuja ação já transtornou as categorias filosóficas e políticas dos discursos das ciências sociais, as suas categorias (assim brutalmente postas em questão) são, no entanto utilizadas, sem serem examinadas, pela ciência contemporânea. Essas categorias funcionam como primitivos conceitos num aglomerado de toda a espécie de disciplinas, teorias e ideias correntes a que chamarei o pensamento hétero.

Dizem respeito à mulher, homem, sexo, diferença, e a toda a série de conceitos que carregam esta marca, incluindo conceitos tais como história, cultura, e o real. E embora tenha sido aceito em anos recentes que não existe semelhante coisa como a natureza, que tudo é cultura, permanece dentro dessa cultura um cerne de natureza que resiste a ser examinado, uma relação excluída do social na análise – uma relação cuja característica é inescapável na cultura, assim como na natureza, e que é a relação heterossexual. Chamar-lhe-ei a relação social obrigatória entre homem e mulher (Aqui refiro-me a Ti-Grace Atkinson e à sua análise do coito como uma instituição).

Com a sua inescapabilidade erigida em conhecimento, em princípio óbvio, em dado pré-adquirido a qualquer ciência, o pensamento hétero desenvolve uma interpretação totalizante da história, da realidade social, da cultura, da linguagem e simultaneamente de todos os fenômenos subjetivos. Posso apenas sublinhar o caráter opressivo de que se reveste o pensamento hétero na sua tendência para imediatamente universalizar a sua produção de conceitos em leis gerais que se reclamam de ser aplicáveis a todas as sociedades, a todas as épocas, a todos os indivíduos. Assim, fala-se de conceitos como a troca de mulheres, a diferença entre os sexos, a ordem simbólica, o Inconsciente, Desejo, Cultura, História, dando um significado absoluto a estes conceitos, quando são apenas categorias fundadas sobre a heterossexualidade, ou sobre um pensamento que produz a diferença entre os sexos como um dogma político e filosófico.

A consequência desta tendência para a universalidade é que o pensamento hétero não pode conceber uma cultura, uma sociedade onde a heterossexualidade não ordenaria não só todas as relações humanas mas também a sua própria produção de conceitos e também todos os processos que escapam à consciência. Além disso, estes processos inconscientes são historicamente cada vez mais imperativos naquilo que nos ensinam sobre nós através da instrumentalidade dos especialistas. A retórica que expressa estes processos (e cuja sedução eu não subestimo) reveste-se de mitos, recorre ao enigma, caminha pelo acumular de metáforas, e a sua função é a de poetisar o caráter obrigatório do serás-hetero-ou-não-serás.

Segundo este pensamento, rejeitar a obrigação do coito e das instituições que esta obrigação produziu como sendo necessárias para a constituição de uma sociedade, é simplesmente uma impossibilidade, já que proceder assim significaria rejeitar a possibilidade da constituição do outro e rejeitar a ordem simbólica, tornar a constituição do significado impossível, sem o qual ninguém pode manter uma coerência interna. Assim, o lesbianismo, a homossexualidade e as sociedades que formamos não podem ser pensados nem falados, embora sempre tivessem existido. Assim, o pensamento hétero continua a afirmar que é o incesto, e não a homossexualidade, o seu maior tabu. Assim, pelo pensamento hétero, a homossexualidade não passa de heterossexualidade.

Sim, a sociedade hétero está baseada na necessidade, a todos os níveis, do diferente/outro. Não pode funcionar economicamente, simbolicamente, linguisticamente ou politicamente sem este conceito. Esta necessidade do diferente/outro é uma necessidade ontológica para todo o aglomerado de ciências e disciplinas a que chamo o pensamento hétero. Mas o que é o diferente/outro se não a(o) dominada(o)? A sociedade heterossexual é a sociedade que não oprime apenas lésbicas e homossexuais, ela oprime muitos diferentes/outros, oprime todas as mulheres e muitas categorias de homens, todas e todos que estão na posição de serem dominadas(os). Para constituir uma diferença e controlá-la é um ato de poder, uma vez que é essencialmente um ato normativo. Todos tentam mostrar o outro como diferente. Mas nem todos conseguem ter sucesso a fazê-lo. Tem que se ser socialmente dominante para se ter sucesso a fazê-lo.

Por exemplo, o conceito de diferença entre os sexos constitui ontologicamente as mulheres em diferentes/outras. Os homens não são diferentes, as pessoas brancas não são diferentes, nem o são os senhores. Mas as pessoas negras, tal como os escravos, são-no. Esta característica ontológica da diferença entre os sexos afeta todos os conceitos que integram o mesmo aglomerado. Mas para nós não existe semelhante coisa que seja ser-mulher ou ser-homem. Homem e mulher são conceitos políticos de oposição, e a cópula que dialeticamente os une é, simultaneamente, aquela que irá abolir os homens e mulheres. É a luta de classes entre mulheres e homens que abolirá os homens e as mulheres. Não há nada de ontológico no conceito de diferença. É a única maneira como os senhores interpretam uma situação histórica de domínio. A função da diferença é a de ocultar a todos os níveis os conflitos de interesse, incluindo os conflitos ideológicos.

Por outras palavras, para nós, isto significa que não podem mais existir mulheres e homens, e que enquanto classes e categorias de pensamento ou linguagem eles têm de desaparecer, política, econômica, ideologicamente. Se nós, lésbicas e homossexuais, continuarmos a falar de nós próprias(os) e a conceber-nos como mulheres e como homens, estamos a ser instrumentais na manutenção da heterossexualidade. Tenho a certeza que uma transformação econômica e política não irá desdramatizar estas categorias da linguagem. Podemos redimir escrava ou escravo? Podemos redimir niger, negress (termos difamatórios para pessoas negras)? Em que medida é “a mulher” diferente? Continuaremos a escrever branco, senhor, homem? A transformação das relações econômicas não será suficiente. Temos de produzir uma transformação política dos conceitos chave, isto é dos conceitos que nos são estratégicos. Porque há uma outra ordem de materialidade, a da linguagem, e a linguagem é trabalhada de dentro por estes conceitos estratégicos. A linguagem é, ao mesmo tempo, intimamente ligada ao campo político, onde tudo o que concerne a linguagem, a ciência e o pensamento se refere à pessoa enquanto subjetividade e à sua relação com a sociedade. E não podemos deixar estas coisas no poder do pensamento hétero ou do pensamento de dominação.

…Rechaçamos o contrato heterossexual. Isto é o que dizem as lésbicas por todas as partes, se não com teorias então pelo menos através da sua prática social, cujas repercussões na cultura e sociedade hétero são ainda incalculáveis. Um antropólogo poderá dizer que temos de esperar 50 anos. Sim, se alguém quiser universalizar o funcionamento destas sociedades e fazer com que apareçam as suas invariantes. Entretanto os conceitos hétero vem sendo minados. O que é a mulher? Pânico, alarme geral para uma defesa ativa. Francamente, este é um problema que as lésbicas não têm por causa de uma mudança de perspectiva, e seria incorreto dizer que as lésbicas se associam, fazem amor, vivem com mulheres, pois mulher” tem significado apenas em sistemas de pensamento heterossexuais e em sistemas econômicos heterossexuais. As lésbicas não são mulheres.

Monique Wittig, La Pensée Straight (1978)


Monique Wittig afirma que a lésbica não é uma mulher porque ser mulher é estar inserida no domínio heterossexista. Uma lésbica não é uma mulher econômica, política ou ideologicamente, pois o que faz uma mulher é a sua construção em relação aos homens, relação de subserviência que implica uma obrigação pessoal e física e também econômica: “residência obrigatória”, trabalhos domésticos, deveres conjugais, produção de crianças, etc.
Em ‘One Is Not Born a Woman’ (Ninguém Nasce Mulher), ela põe em discussão o ‘mito da mulher’: a idéia de natureza foi estabelecida para definir as mulheres como ‘grupo natural’, já que tanto seus corpos como suas mentes viriam a caracterizar algo já dado, preestabelecido. A opressão contra as mulheres se vale da argumentação de que elas já nascem prontas, sua capacidade de procriar as define. A definição é, portanto, presa à categoria de sexo, a divisão em homens e em mulheres reporta à explicação biológica. Para Wittig, ao ser feita essa conversão “naturaliza-se a história e se passa a crer que homens e mulheres sempre existiram e sempre existirão do mesmo modo”.

A consequência que Wittig vê ao naturalizar-se a história é que se naturalizam os fenômenos sociais de opressão das mulheres, como por exemplo, a maternidade, que é vista como única atividade produtiva feminina, sem que o caráter de controle sobre seus corpos seja percebido. Sua argumentação sobre a opressão das mulheres é exemplificada com uma referência ao trabalho de Colette Guillaumin, para quem, antes da realidade socioeconômica da escravidão dos negros pelos brancos, não existia o conceito de raça; esse conceito com seu significado moderno foi, portanto, criado com a escravidão para justificá-la. Assim, também mulheres e homens tiveram de ser constituídos em mulheres e em homens através de uma sofisticada construção e formação imaginária. Para que sejam vistos como mulheres ou como negros, tiveram de ser criados assim, antes de serem vistos desta maneira. Nesse sentido é que Monique Wittig aponta as lesbianas como um afrontamento à naturalização das mulheres. Sendo ‘A Mulher’ um mito criado no quadro do pensamento hétero, do pensamento dominante, hierarquizante e opressor, ele não deve servir como conceito útil para as lesbianas.

Lembradas e reconhecidas como ‘antinaturais’, pois não estão à disposição dos homens e se recusam à posição de submissão a eles, as lésbicas foram marcadas pelo estigma de não serem ‘mulheres reais’ e, ao mesmo tempo, ‘quererem ser homens’. Segundo Wittig: “Foi uma restrição política, e aquelas que resistiram à essa restrição foram acusadas de não serem mulheres ‘verdadeiras’. Mas ficamos orgulhosas disso, vendo que na acusação já existia algo como uma sombra de vitória: o aval dos opressores dizendo que ‘mulher’ não é algo que acontece por acaso, sendo que para ser uma, precisa-se ser ‘verdadeira’. Fomos, ao mesmo tempo, acusadas de querermos ser homens. Hoje, essa dupla acusação renovou-se com entusiasmo no contexto do movimento de liberação das mulheres por algumas feministas e também, infelizmente, por algumas lésbicas que parecem ter como objetivo político se tornarem cada vez mais ‘femininas’.” (Monique Wittig, 1992)

Recusar-se a ser mulher não significa querer tornar-se homem.  Wittig cita o exemplo da Butch, a mulher vista socialmente como excessivamente ‘masculina’, que causa horror e provoca uma certa repulsa social e que, mesmo ao ‘querer tornar-se homem’, ela está “escapando da sua programação inicial”. A fabricação das mulheres no quadro de pertencimento à classe dos homens é o que indica que as lésbicas não podem ser mulheres nos termos assim impostos. Também não podem tornar-se homens, pois isso exigiria a consciência que eles dispõem das mulheres como suas ‘escravas naturais’. Assim, as lésbicas escapam à dominação masculina imposta através da heterossexualidade, estão fora do alcance dos homens, não pertencem a eles, têm de ser qualquer outra coisa, como uma não-mulher, um não-homem, um produto da sociedade, não um produto da natureza, por isso são acusadas de antinaturais, aberração, desvio. As lésbicas ao se recusarem a tornarem-se ou mesmo permanecerem heterossexuais, se recusam a tornarem-se mulheres ou homens. De forma consciente ou não, essa recusa é uma frente de luta feminista, é uma recusa com implicações políticas, pois as categorias homem e mulher não são naturais, mas sim políticas.

Wittig faz uma crítica às correntes feministas que acreditam nas teses do curso ‘natural evolutivo’ no qual as mulheres eram menos evoluídas que os homens e, quando ambos divergiram, houve como consequência a polaridade como reflexo natural desse curso. Sua crítica é de que essas teses científicas serviram em grande medida para criar o fracasso feminino, a inferioridade feminina e reforçar o ‘mito da mulher’. A tese da igualdade na diferença é para a ela uma armadilha na qual caíram as feministas do início do século XX, elas deixaram em suspenso as contradições entre natureza/cultura – mulher/sociedade. A autora coloca-se, então, a frente de uma luta para derrubar as categorias de mulheres e de homens como classe uniforme, natural e imutável. Sua missão era destruir o mito da mulher como ser natural ou como classe uniforme e a-histórica e destruir simultaneamente o lesbianismo como categoria de sexo recolocando-o como categoria política revolucionária, pois lésbica é o único conceito que está além das categorias de sexo:

Nós somos fugitivas de nossa própria classe da mesma maneira que muitos escravos americanos fizeram para escapar da escravidão e se tornarem livres. Para nós trata-se de uma necessidade absoluta; nossa sobrevivência exige que contribuamos com toda nossa força para a destruição da classe de mulheres que se tornam propriedade dos homens. E isso pode ser alcançado somente com a destruição da heterossexualidade como um sistema social que se baseia na opressão das mulheres pelos homens e que produz a doutrina da diferença entre os sexos como justificativa para essa opressão.

Monique Wittig (Ninguém Nasce Mulher, 1980)

“O Pensamento Hétero” na íntegra:

http://mulheresrebeldes.blogspot.com/2010/07/sempre-viva-wittig.html

Para ler “Ninguém Nasce Mulher”, outra importante contribuição de Wittig ao movimento feminista:

http://mulheresrebeldes.blogspot.com/2009/04/ninguem-nasce-mulher.html


A Heterossexualidade Compulsória e a Existência Lesbiana

Se mulheres são as fontes mais antigas de cuidado emocional e nutrição física tanto para meninos quanto meninas, seria lógico, pelo menos de uma perspectiva feminista, posicionar as seguintes questões: se a busca por amor e ternura em ambos os sexos não levam originalmente às mulheres; por que de fato mulheres deveriam sequer redirecionar essa busca? Por que a sobrevivência da espécie, os meios de reprodução, e as relações emocionais/eróticas deveriam se tornar tão rigidamente identificadas umas com as outras? E por que tais restrições violentas deveriam ser encontradas necessariamente para obter à força total lealdade emocional e erótica das mulheres e subserviência aos homens? Eu duvido que muitas estudiosas feministas tenham tomado as dores de reconhecer as forças societais que extraem as energias emocionais e eróticas delas mesmas e de outras mulheres e de valores identificados nas mulheres. Essas forças, como eu tentarei demonstrar, vão desde escravidão por força física literal ao disfarce e distorção de opções possíveis…” Adrienne Rich (1981)

Em A Heterossexualidade Compulsória e a Existência Lesbiana, Adrienne Rich expõe duas questões que a preocupam. A primeira é como e porque a escolha feita pelas mulheres de gostar de outras mulheres como companheiras e amantes, de compartilhar suas vidas, suas paixões, seus trabalhos, ou de viver em tribo com elas tem sido mal vista, invalidada, condenada à clandestinidade ou à mentira. Na segunda ela se interroga sobre a omissão total ou quase, da existência lésbica em uma vasta extensão de escritos, incluindo os escritos feministas. Ela acredita que não é suficiente para o pensamento feminista que existam textos especificamente lésbicos, pois qualquer teoria ou criação política/cultural que trata a existência lésbica como um fenômeno marginal ou menos ‘natural’, como mera ‘preferência sexual’, ou como imagem refletida ou das relações heterossexuais ou homossexuais masculinas é enfraquecida por meio disso, quaisquer que sejam suas outras contribuições. A Teoria Feminista não pode mais dispor-se meramente a expressar uma tolerância do ‘lesbianismo’ como um ‘estilo de vida alternativo’, ou fazer alusão simbólica às lésbicas. A crítica feminista da orientação heterossexual obrigatória para mulheres está por um longo tempo atrasada.

Em seu ensaio, The Origin of Family”, Kathleen Gough cataloga oito características do poder masculino em sociedades arcaicas e contemporâneas que Adrienne Rich utiliza como esquema para apontar métodos pelos quais os homens exercem seu poder sobre as mulheres (Gough não percebe estas características de poder como reforçando a heterossexualidade especificamente, mas somente como produzindo desigualdade sexual):

1. interdição às mulheres de formas de sexualidade fora de seus domínios, por meio da clitoridectomia e infibulação; cintos de castidade; punição, incluindo a morte, para adultério feminino; punição, incluindo a morte, para a sexualidade lésbica; negação psicanalítica do clitóris; censuras contra a masturbação; negação de sensualidade maternal e pósmenopausal; histerectomias desnecessárias; imagens pseudolésbicas na mídia e literatura; fechamento de arquivos e destruição de documentos referentes à existência lesbiana.

2. a sexualidade masculina é imposta, por meio do estupro (incluindo estupro marital) e espancamento da esposa; do incesto pai-filha, irmão-irmã; da socialização de mulheres para sentirem que o “impulso” sexual masculino corresponde a um direito; da idealização do romance heterossexual na arte, literatura, mídia, publicidade, e assim por diante; casamentos de crianças; casamentos arranjados; da prostituição; do harém; das doutrinas psicanalíticas de frigidez e orgasmo vaginal; das representações pornográficas de mulheres respondendo aprazivelmente à violência sexual e humilhação (uma mensagem que o sadismo heterossexual é mais “normal” que a sensualidade entre mulheres).

3. os homens exploram o trabalho feminino e controlam a produção, através das instituições do casamento e da maternidade nas quais as mulheres são sistematicamente desvalorizadas e exercem trabalho doméstico gratuito; da segregação horizontal de mulheres em trabalho pago; do engodo da mobilidade ascendente simbólica da mulher;  do controle masculino do aborto, contracepção e nascimento de crianças; da cafetinagem; do infanticídio feminino, que rouba as mães de suas filhas e contribui para a desvalorização generalizada das mulheres.

4. a apropriação e a retirada dos filhos por meio do direito-do-pai e do “sequestro legal”; as esterilizações forçadas; o infanticídio sistematizado; a apreensão legal de crianças de mães lésbicas por tribunais de justiça; o tratamento inadequado da obstetrícia masculina; o uso da mãe como “torturadora simbólica” em mutilação genital ou ao amarrar os pés da filha (ou a mente) para ajustá-la ao casamento, são alguns dos modos pelos quais os homens roubam as crianças de suas genitoras.

5. coibir os movimentos corporais das mulheres e impedir seu movimento, por meio do estupro como terrorismo, mantendo as mulheres fora das ruas; da bandagem nos pés; do atrofiamento das capacidades atléticas das mulheres; dos códigos de vestuário “feminino”; do véu; do assédio sexual nas ruas; das prescrições para as mães ficarem em casa em “tempo integral”; da dependência econômica forçada de esposas.

6. o uso das mulheres como objetos de transações masculinas, pelo uso de mulheres como “presentes”; pelo dote ou preço da noiva; pela cafetinagem; pelos casamentos arranjados; pelo uso das mulheres para expor produtos; pelo uso de roupas sensuais para exibicionismo público; pelo uso de mulheres como divertimento para facilitar negócios masculinos, geralmente a esposa como anfitriã ou a garçonete de coquetel vestida para titilação sexual masculina.

7. o corte da criatividade feminina através da caça às bruxas, mulheres inteligentes e curandeiras; a perseguição e massacre de mulheres independentes, “não assimiladas”; a definição das buscas masculinas como mais valiosas do que as femininas em qualquer cultura, de modo que os valores culturais se tornam a personificação da subjetividade masculina; a restrição da satisfação pessoal feminina ao casamento e à maternidade; a exploração sexual de mulheres por homens artistas e professores; a interrupção social e econômica das aspirações criativas das mulheres; o apagamento das tradições femininas e:

8. a retirada das mulheres do domínio de conhecimentos e realizações culturais, por meio da não educação de mulheres; do grande silêncio relativo às mulheres, e particularmente, à existência lesbiana na história e na cultura; da estereotipação de papéis sexuais que desviam mulheres da ciência, tecnologia e outras atividades “masculinas”; dos laços sociais e profissionais masculinos que excluem mulheres; da discriminação contra as mulheres nas profissões.

Estes são alguns dos métodos pelos quais o poder masculino é manifestado e mantido. Olhando para o esquema, o que certamente impressiona é o fato de que nós estamos confrontando não uma simples manutenção de desigualdade e posse de propriedade, mas um agrupamento de forças pervasivo, estendido desde a brutalidade física ao controle de consciência, que sugere que uma enorme contraforça potencial está tendo de ser contida.

Algumas das formas pelas quais o poder masculino manifesta a si mesmo são mais facilmente reconhecíveis como forçando a heterossexualidade para mulheres do que outras. No entanto cada uma listada contribui com o agrupamento de forças dentro do qual mulheres têm sido convencidas que o casamento e a orientação sexual em direção aos homens são inevitáveis, ainda que insatisfatórios ou componentes opressivos de suas vidas. O cinto de castidade, o casamento infantil, o apagamento da existência lésbica (exceto quando vista como exótica ou perversa) na arte, na literatura e no cinema, e a idealização do amor romântico e do casamento heterossexual são algumas das formas óbvias de compulsão, as duas primeiras expressando força física, as outras duas expressando o controle da consciência feminina. Enquanto a clitoridectomia vem sendo atacada por feministas como uma forma de tortura das mulheres, Kathleen Barry primeiro alerta que isso não é apenas um modo de tornar uma menina em uma mulher “apropriada para o casamento” através de uma cirurgia brutal; pretende-se que as mulheres em proximidade íntima dentro de um casamento polígamo não terão relações sexuais entre si, que – partindo de uma perspectiva genital-fetichista masculina – as conexões eróticas femininas, mesmo em uma situação de segregação dos sexos, sejam literalmente extirpadas.

A função da pornografia como influência sobre a consciência é uma grande questão pública de nossos tempos, quando uma indústria multibilionária tem o poder de disseminar imagens visuais cada vez mais sadísticas, degradantes das mulheres. Mesmo a chamada pornografia não explícita e a propaganda, apresentam as mulheres como objetos de apetite sexual destituídos de conteúdo emocional, sem significado individual ou personalidade – essencialmente como uma mercadoria sexual a ser consumida por homens. (A chamada pornografia lésbica, criada para o olhar voyeurístico masculino, é igualmente vazia de conteúdo emocional e personalidade individual). A mensagem mais perniciosa transmitida pela pornografia é a de que as mulheres são presas sexuais naturais dos homens e que elas gostam disso; que sexualidade e violência são congruentes; e que, para as mulheres, o sexo é essencialmente masoquista, a humilhação é prazerosa, o abuso físico é erótico. Porém, junto dessa mensagem vem outra, nem sempre reconhecida: de que a submissão imposta e o uso de crueldade, se exercidas por um casal heterossexual, são sexualmente “normais”, enquanto a sensualidade entre mulheres, inclusive mutualidade erótica e respeito, é “esquisita”, “doentia”, e mesmo pornográfica em si mesma ou não muito excitante, comparada com a sexualidade de chicotes, das cordas e da sujeição. A pornografia não cria simplesmente uma atmosfera na qual sexo e violência seriam permutáveis, ela amplia o conjunto de comportamentos considerados aceitáveis para os homens em seus intercursos heterossexuais – comportamentos que reiteradamente retiram as mulheres de sua autonomia, de sua dignidade e de seu potencial sexual, inclusive o potencial de amar e ser amada por mulheres com mutualidade e integridade.

Os meios de assegurar o acesso sexual masculino às mulheres receberam uma recente investigação minuciosa por Kathleen Barry. Ela documenta evidências extensivas e apavorantes da existência, em uma muito larga escala, da escravidão internacional feminina, a instituição conhecida como “escravidão branca” que de fato, tem envolvido, e neste exato momento envolve, mulheres de todas as raças e classes. Na análise teórica de sua pesquisa, Barry faz a conexão entre todas as situações forçadas sob as quais as mulheres vivem sujeitadas aos homens: prostituição, estupro marital, incesto pai-filha e irmão-irmã, espancamento de esposas, pornografia, preço da noiva, a venda de filhas, purdah, e mutilação genital. Ela vê o paradigma do estupro – onde a vítima da agressão sexual é responsabilizada por sua própria vitimização – levando à racionalização e aceitação de outras formas de escravização onde se presume que a mulher tenha “escolhido” seu destino, que o aceitou passivamente, ou o cortejou perversamente através de comportamento impulsivo ou incasto. Ao contrário, Barry sustenta que “a escravidão sexual feminina está presente em TODAS as situações onde as mulheres ou as meninas não podem mudar as condições de sua existência; onde independente de como elas chegaram a essas condições, por exemplo, pressão social, dificuldades econômicas, confiança mal empregada ou o desejo por afeição, elas não podem escapar; e onde elas são sujeitadas a violência e exploração sexual”. Em vez de “culpar a vítima” ou tentar diagnosticar a sua presumida patologia, Barry direciona seu holofote para a própria patologia da colonização sexual, a ideologia do “sadismo cultural”, representada pela vasta indústria da pornografia e pela identificação global das mulheres primariamente como “seres sexuais cuja responsabilidade é o serviço sexual aos homens”.

Barry delineia o que ela chama de uma “perspectiva de dominção sexual” através da qual o abuso sexual e o terrorismo das mulheres pelos homens têm sido apresentados de modo quase invisível, por serem tratados como naturais e inevitáveis. A partir deste ponto de vista, as mulheres são consumíveis enquanto as necessidades sexuais e emocionais do macho possam ser satisfeitas. O propósito político do seu livro é substituir esta perspectiva de dominação por um modelo universal de liberdade básica para as mulheres da violência específica de gênero, das restrições de movimento, do direito masculino de acesso sexual e emocional. Como Mary Daly em Gyn/Ecology, Barry rejeita as racionalizações estruturalistas ou outras racionalizações relativistas culturais para a tortura sexual e a violência anti-mulher. Em seu capítulo introdutório, ela pede a suas leitoras que elas rejeitem todas as fugas convenientes de ignorância e negação. “A única maneira que nós podemos sair do esconderijo, romper nossas defesas paralisantes, é saber tudo isto – toda a ampla extensão da violência sexual e da dominação das mulheres… Ao sabermos, ao encararmos diretamente, nós podemos aprender a mapear nosso caminho para fora desta opressão, ao visionar e criar um mundo que impedirá a escravidão sexual feminina… Até nomearmos sua prática, darmos sua definição conceitual e sua forma, ilustrarmos sua vida ao longo do tempo e no espaço, aquelas que são suas mais óbvias vítimas não serão capazes de nomeá-la ou definir sua experiência.”

Mas todas as mulheres, de maneiras e em graus diferentes, são suas vítimas; e parte do problema de nomear e conceituar a escravidão sexual feminina é, como Barry vê claramente, a heterossexualidade compulsória. A heterossexualidade compulsória facilita o trabalho do proxeneta e do cafetão nos círculos mundiais de prostituição e “centros eróticos”, enquanto, na privacidade do lar, leva a filha a “aceitar” o incesto/estupro por seu pai, a mãe a negar que isto esteja acontecendo, a esposa agredida a continuar vivendo com um marido abusivo. “Agir como amigo ou cupido” é a principal tática atrativa do proxeneta, cujo trabalho é dirigir a menina fugitiva ou confusa para o cafetão. A ideologia do romance heterossexual, irradiada nela desde a infância por meio dos contos de fada, da televisão, do cinema, da propaganda, das canções populares e da pompa dos casamentos, é um instrumento pronto para as mãos do proxeneta e um que ele não hesita em usar, como Barry amplamente documenta. A doutrinação feminina precoce do “amor” como uma emoção pode ser em grande medida um conceito ocidental; mas uma ideologia mais universal diz respeito a primazia e a incontrolabilidade do impulso sexual masculino. Esta é uma das muitas compreensões oferecidas pelo trabalho de Barry:

Quando o poder sexual é aprendido por garotos adolescentes através da experiência social do seu impulso sexual, as garotas também aprendem que o lócus do poder sexual é masculino. Dada a importância colocada sobre o impulso sexual masculino na socialização das garotas assim como dos garotos, o início da adolescência é provavelmente a primeira fase significante de identificação masculina na vida e desenvolvimento de uma garota… Quando uma garota se torna consciente de seus sentimentos sexuais crescentes… ela se distancia de suas relações, até então, primárias com suas amigas. Quando elas se tornam secundárias para ela, perdem a importância que tinham na vida dela, a própria identidade dela também assume um papel secundário e ela cresce em identificação com os homens.

O efeito da identificação com os homens significa “internalizar os valores do colonizador e participar ativamente na realização da colonização de seu eu e de seu sexo… Identificação com os homens é o ato pelo qual as mulheres colocam os homens acima das mulheres, incluindo elas mesmas, em credibilidade, status e importância na maioria das situações, desconsiderando a qualidade comparativa que as mulheres possam trazer para a situação… A interação com mulheres é vista como uma forma menor de se relacionar em todos os níveis.” O que merece investigação adicional é o pensamento-duplo em que muitas mulheres se empenham e do qual nenhuma mulher está permanentemente e totalmente livre por mais que relações de mulher-para-mulher, redes de apoio feminino, sistemas de valores femininos e feministas, sejam apreciados e depositada confiança, a doutrinação na credibilidade e status masculino pode ainda criar sinapses no pensamento, negações de sentimento, criação ilusória de fatos que se desejaria que fossem realidade, uma confusão sexual e intelectual profunda.

Nós ainda precisamos nos perguntar por que algumas mulheres nunca, nem temporariamente, “se distanciam de suas relações, até então primárias” com outras mulheres. E por que a identificação com os homens – o direcionamento da própria lealdade social, política e intelectual aos homens – existe entre mulheres que são lésbicas durante toda a vida? A hipótese de Barry nos lança entre novas questões, mas ela elucida a diversidade de formas nas quais a heterossexualidade compulsória se apresenta. Na mística do impulso sexual masculino dominador, vitorioso, o pênis-com-uma-vida-própria, está enraizada a lei do direito sexual masculino às mulheres, que justifica a prostituição como uma suposição cultural por um lado, enquanto defende a escravidão sexual dentro da família com base na “privacidade familiar e singularidade cultural” por outro lado. O impulso sexual masculino do adolescente, que assim como as mulheres e os homens jovens são ensinados, uma vez provocado, não pode tomar responsabilidade por si mesmo ou tomar um não como resposta, tornando-se, segundo Barry, a norma e a razão física para o comportamento sexual masculino adulto, uma condição de desenvolvimento sexual obrigatória. As mulheres aprendem a aceitar como natural a inevitabilidade deste “impulso” porque nós o recebemos como dogma.

Considerando o desenvolvimento sexual obrigatório que é compreendido a ser normal na população masculina, e considerando o número de homens que são cafetões, proxenetas, membros de gangues de escravidão, oficiais corruptos que participam neste tráfico, proprietários, operadores, empregados de bordéis e alojamentos e instalações de entretenimento, provedores de pornografia, associada com a prostituição, espancadores de esposas, molestadores de crianças, perpetradores de incesto, clientes e estupradores, uma pessoa não poderia não ficar momentaneamente atordoada pela enorme população masculina comprometida com a escravidão sexual feminina. O imenso número de homens engajados nestas práticas devia ser motivo para declaração de uma emergência internacional, uma crise de violência sexual. Mas o que devia ser motivo para alarme é em vez disso aceito como coito sexual normal.

 Kathleen Barry, Female Sexual Slavery (1979).

Susan Calvin, em sua rica e provocadora, se altamente especulativa, dissertação sugere que o patriarcado se torna possível quando o grupo feminino original, que inclui crianças mas ejeta machos adolescentes, vem a ser invadido e excedido em número por machos; que não o casamento patriarcal, mas o estupro da mãe pelo filho, vem a ser o primeiro ato de dominação masculina. A entrada à força, ou alavancagem, que permite que isto aconteça não é somente uma simples mudança nas relações de sexo; ela é também a ligação mãe-criança, manipulada por machos adolescentes a fim de permanecerem dentro da matriz passada a idade de exclusão. A afeição maternal é usada para estabelecer o direito masculino de acesso sexual, que, entretanto, deve ser desde então mantido por força (ou através do controle de consciência) já que a ligação adulta profunda original é aquela da mulher com a mulher. (Lesbian Origins, 1978)

“Eu acho esta hipótese extremamente sugestiva, já que uma forma da falsa consciência que serve a heterossexualidade compulsória é a manutenção de um relacionamento mãe-filho entre mulheres e homens, incluindo a demanda que as mulheres forneçam conforto maternal, nutrição incondicional, e compaixão para seus assediadores, estupradores, e espancadores (assim como para os homens que as vampirizam passivamente) quantas mulheres fortes e assertivas não aceitam postura masculina de ninguém mas dos seus filhos?

Mas seja qual for a sua origem, quando nós olhamos firme e completamente para a extensão e elaboração das medidas projetadas para manter as mulheres dentro de um confinamento sexual masculino, se torna uma questão inescapável se o assunto que temos que nos dedicar como feministas não é somente ‘desigualdade de gênero’, nem a colonização da cultura pelos homens, nem os tabus contra a homossexualidade, mas o da obrigatoriedade da heterossexualidade para as mulheres como um meio de assegurar um direito masculino de utilização física, econômica e emocional. Um de muitos meios de coação é, logicamente, tornar invisível a possibilidade lesbiana, um continente engolfado que frequentemente levanta-se de tempos em tempos somente para se tornar submerso outra vez. A pesquisa e teoria feministas que contribuem com a invisibilidade ou marginalidade lesbiana estão trabalhando realmente contra a libertação e empoderamento das mulheres como um grupo.

A suposição que ‘a maioria das mulheres é naturalmente heterossexual’ coloca-se como um obstáculo teórico e político para muitas mulheres. Ela permanece como uma suposição convincente, parcialmente porque a existência lesbiana tem sido escrita fora da história ou catalogada na categoria de doença; parcialmente porque ela tem sido tratada como excepcional em vez de intrínseca; parcialmente porque reconhecer que para mulheres a heterossexualidade pode não ser uma ‘preferência’ de qualquer maneira, mas algo que tem de ser imposto, controlado, organizado, propagandeado e mantido pela força, é um passo imenso a tomar se você se considera livremente enaturalmente’ heterossexual. Ainda a incapacidade de considerar a heterossexualidade como uma instituição é como a incapacidade de admitir que o sistema econômico nomeado capitalismo ou o sistema de casta do racismo é mantido por um conjunto de forças que compreendem tanto a violência física quanto a falsa consciência. Tomar o passo de questionar a heterossexualidade como uma ‘preferência’ ou ‘escolha’ para mulheres – e efetuar o trabalho intelectual e emocional que segue – chamará por uma qualidade especial de coragem em feministas identificadas heterossexualmente, mas eu penso que as recompensas serão grandes: uma libertação do pensamento, a exploração de novos caminhos, a quebra de um outro grande silêncio, nova clareza nas relações pessoais.” Diz Rich.

Adrienne Rich utiliza as terminologias “continuum lésbico e existência lesbiana em contrapartida à conotação clínica, pejorativa e limitada do termo lesbianismo. Existência lesbiana sugere tanto o fato da presença histórica das lésbicas quanto a criação contínua dos significados dessa própria existência. Por meio do termo “continuum lésbico”, Rich pretende incluir uma extensão – através da vida de cada mulher e ao longo da história – de experiências identificadas com a mulher, não simplesmente o fato que uma mulher tenha tido ou conscientemente tivesse desejado uma experiência sexual genital com outra mulher, mas ampliá-lo para abraçar muito mais formas de intensidade primária entre mulheres, incluindo o compartilhamento de uma vida interior rica, o vínculo contra a tirania masculina, o dar e receber de apoio prático e político, associações como resistência ao casamento e o comportamento “selvagem” identificado por Mary Daly (com significados obsoletos como “intratável”, “teimosa”, “licenciosa” e “impudica”, “uma mulher relutante em render-se a cortejos”).

Considerando que todas as mulheres da criança mamando no seio de sua mãe, até a mulher crescida experimentando sensações orgásticas enquanto dá de mamar para sua filha, talvez lembrando o cheiro do leite de sua mãe em seu próprio leite; até duas mulheres como Chloe e Olivia, de Virginia Woolf, que compartilham um laboratório; até a mulher morrendo aos noventa anos, tocada e amparada por mulheres existem em um continuum lésbico, todas as mulheres podem se ver como a mover-se para dentro e para fora deste continuum, mesmo as que não se identificam como lésbicas. Isto nos permite conectar aspectos da identificação das mulheres tão diversos como as amizades das meninas de oito ou nove anos, tão íntimas e impudentes, e as associações daquelas mulheres dos séculos doze e quinze, conhecidas como Beguines, que “dividiam e alugavam casas umas para as outras, as deixavam de herança para suas companheiras de quarto… casas baratas subdivididas nas áreas dos artesãos da cidade”, que “praticavam a virtude cristã por si mesmas, vestindo-se e vivendo de maneira simples e não se associando com homens”, que ganhavam a vida como fiandeiras, doceiras, enfermeiras, ou mantinham escolas para meninas, e que conduziram – até a Igreja as forçarem a dispersar – uma vida independente tanto do casamento quanto das restrições dos conventos. Isso nos permite conectar estas mulheres com as mais celebradas “Lésbicas” da escola de mulheres ao redor de Safo do sétimo século A.C., com as irmandades e redes econômicas presentes entre mulheres Africanas, e com irmandades Chinesas de resistência ao casamento comunidades de mulheres que recusaram o matrimônio ou que, se casadas, frequentemente se recusavam a consumar o casamento e logo abandonavam seus maridos as únicas mulheres na China que não tiveram seus pés amarrados e que, segundo Agnes Smedley, festejavam os nascimentos de meninas e organizavam greves bem-sucedidas de mulheres nas fábricas de seda. Isso nos permite conectar e comparar exemplos individuais díspares de resistência ao casamento: por exemplo, o tipo de autonomia reivindicado por Emily Dickinson, uma mulher branca genial do século XIX, com as estratégias disponíveis a Zora Neale Hurston, uma mulher negra genial do século XX. Dickinson nunca se casou, teve amizades intelectuais bem tênues com homens, viveu autoenclausurada na casa distinta de seu pai e passou toda a sua vida escrevendo cartas apaixonadas a sua amiga Kate Scott Anthon. Hurston casou duas vezes, mas logo abandonou seus dois maridos, enfrentou um longo caminho da Flórida para Harlem e para a Universidade de Columbia, daí para o Haiti, e finalmente de volta à Flórida, movendo-se para dentro e para fora do patronado branco e da pobreza, do sucesso profissional e do fracasso. Suas relações de sobrevivência foram todas com mulheres, começando com sua mãe. Essas duas mulheres, em suas circunstâncias imensamente diferentes, resistiram ao casamento, comprometidas com seu próprio trabalho e com sua pessoalidade, mas depois foram caracterizadas como “apolíticas”, arrastadas para homens com qualidades intelectuais. Para ambas, as mulheres forneceram a fascinação e o apoio constantes em vida.

Se pensarmos na heterossexualidade como a inclinação emocional e sexual natural para as mulheres, vidas como essas seriam consideradas desviantes, patológicas ou destituídas emocionalmente e sensualmente. Ou, em jargão mais atual e permissivo, elas são banalizadas como “estilos de vida”. E o trabalho dessas mulheres – mesmo se meramente o trabalho cotidiano de sobrevivência ou resistência individual e coletiva, ou o trabalho da escritora, da ativista, da reformadora, da antropóloga ou da artista – o trabalho de autocriação – é depreciado e visto como o fruto amargo da “inveja do pênis”, ou a sublimação de erotismo reprimido ou a diatribe sem sentido de uma “odiadora de homens”. Mas quando mudamos o ângulo de visão e consideramos o grau e os métodos pelos quais a “preferência” heterossexual tem sido realmente imposta às mulheres, poderemos não apenas entender de maneira diferente o significado do trabalho e de vidas individuais, mas começamos a reconhecer um fato central da história das mulheres: que elas sempre resistiram à tirania masculina. Um feminismo de ação, frequentemente, embora nem sempre, sem teoria, tem reemergido constantemente em toda cultura e em todos os tempos. Podemos, então, começar a estudar a luta das mulheres contra a falta de poder, a rebelião radical das mulheres, não apenas em “situações revolucionárias concretas” definidas em termos masculinos , mas em todas as situações em que ideologias masculinas não as tenham visto como revolucionárias – por exemplo, a recusa de algumas mulheres de gerar filhos, ajudadas, sob grande risco, por outras mulheres ; a recusa de contribuir com um padrão mais elevado de vida e de lazer para os homens (ambas são parte da contribuição econômica das mulheres, que não é plenamente reconhecida, nem paga, nem garantida por meios sindicais); a sexualidade feminina antifálica que, conforme notada por Andrea Dworkin, tem sido “legendária”, que, definida como “frigidez” e “puritanismo”, tem sido verdadeiramente uma forma de subversão do poder masculino. Não podemos ter paciência com a visão de Dorothy Dinnerstein de que as mulheres têm simplesmente colaborado com os homens nos “arranjos sexuais” da história. Começamos a observar tanto na história como nas biografias individuais, o comportamento que tem sido até o momento invisibilizado e inominado, comportamento que, frequentemente, dados os limites da contraforça exercidos em determinado tempo e lugar, constitui rebelião radical. E nós podemos conectar tais rebeliões e sua necessidade com a paixão física de mulher para mulher que é central para a existência lésbica: a sensualidade erótica que tem sido, precisamente, o fato mais violentamente apagado da experiência feminina.

lesbians

Em sua crítica à obrigatoriedade da heterossexualidade, Rich reposiciona as mulheres em seu potencial emancipatório através dos grupos de mulheres, das associações entre mulheres. A militância, as organizações, a união das mulheres formam um complexo de resistências à escravidão, à violência, ao estupro, às várias formas de dominação masculina. Assim como Monique Wittig, ela compreende que a heterossexualidade é um regime político que se funda na apropriação da classe de mulheres, coletiva e socialmente pela classe de homens. Apresentada na categoria da lésbica em contraposição à categoria mulher nos textos de Monique Wittig, ou no conceito de Adrienne Rich da existência lésbica associada ao conceito de continuum lésbico como práticas entre mulheres em contraposição às representações correntes do que as mulheres são – estabelecidas pelos vínculos com homens e com instituições masculinas –podemos encontrar nos escritos das duas autoras a crítica radical à instituição do heterossexualismo, que vem mantendo o domínio masculino regulamentando o acesso dos homens às mulheres e trabalhando para invisibilizar e eliminar da história a realidade da existência lésbica, por não conseguir enquadrá-la em seus parâmetros.

A existência lesbiana compreende tanto a ruptura de um tabu como o rechaço de um modo de vida obrigatório. Também é um ataque direto e indireto ao direito masculino de acesso às mulheres… Podemos dizer que há um conteúdo político nascente no ato de eleger a uma amante ou a uma companheira de vida mulher frente à heterossexualidade institucionalizada. Mas para que a existência lesbiana complete este conteúdo político em uma forma liberadora até as últimas consequências, a decisão erótica deve aprofundar-se e expandir-se em uma identificação feminina consciente: em um feminismo lésbico.” Adrienne Rich (Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence)

Anúncios

2 Respostas to “O Pensamento Hétero – Heterossexualidade Compulsória e a Existência Lesbiana”

  1. alieninwhite 24/03/2012 às 20:21 #

    Se me permite, acho que a heterosexualidade é apresentada tradicionalmente como condição inerente à sociedade por mera conveniência conservadora. A sociedade evoluiu, ou melhor, involuiu, através das eras, para a misoginia, o patriarcado, a desigualdade entre os gêneros, a rejeição dos “diferentes” (bissexuais, homossexuais, hermafroditas) e assim se manteve por coerência hipócrita, temor da perca do poder (a boa e velha luta de classes). “Em minha opinião…”

Trackbacks/Pingbacks

  1. Lésbicas, precisamos falar sobre feminismo! « A luta nossa de cada dia - 26/01/2011

    […] nós, que nos educamos, minimamente, no lesbofeminismo de Monique Wittig e Adrienne Rich, sabemos o quanto essa escolha individual da nossa sexualidade é uma escolha política. O que […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: