Tirando os Nossos Olhos dos Caras

30 jan

Sonia Johnson

 

Todas nós – todas as mulheres no patriarcado – somos criadas para sermos escravas, somos criadas para sermos prostitutas. Todas nós, em algum sentido, somos, ou fomos, prostitutas e escravas, e muitas de nós continuaremos a ser para o resto de nossas vidas. E é a essência, a própria natureza da criação, cegar-nos – de nossa condição, assim como das mecânicas de nossa escravização.

Aquelas de nós, no entanto, que crescemos e fomos criadas nos tradicionais ambientes Judaico-Cristãos fundamentalistas, temos um olhar mais atento para a mecânica desse processo de criação do que algumas outras. E embora nós sejamos às vezes matronizadas dentro do movimento – partindo do princípio de que, se conseguimos acreditar nesse absurdo ridículo, perigoso, nunca mais poderemos ser confiadas a ver com clareza – a verdade é que provavelmente podemos ser mais confiadas em ter mantido a visão clara do feminismo, uma vez que a vimos, do que aquelas de vocês que cresceram como Unitárias ou Quakers ou mesmo Metodistas e Presbiterianas, porque, você vê, vimos o patriarcado nu diante de nós o tempo todo, ao redor de nós durante todo o dia, todos os dias.

E o que nós soubemos, o que nós percebemos logo que pudemos ver o que estávamos vendo e rejeitá-lo – arrancá-lo de nossas almas e jogar tudo fora – com o que ficamos foi o entendimento da família patriarcal como o modelo para toda opressão: a família patriarcal com o homem no topo como deus e a mulher e as crianças como vermes debaixo dele – e muito frequentemente literalmente debaixo dele.

Nós entendemos, então, que esse paradigma – esse paradigma de poder-sobre, esse paradigma sadomasoquista que é o patriarcado – se estende a tudo, que esse é o modelo para todas as instituições sociais, para todas as estruturas econômicas, para as políticas internacionais. É o branco em cima na posição do macho como deus, pessoas de cor por baixo na posição da mulher como verme. É o rico como macho em cima, pobres como a fêmea embaixo. É seres humanos em cima, todos os outros seres vivos embaixo. É grande em cima, pequeno embaixo – países grandes como macho, países pequenos como fêmea – e assim por diante.

Agora onde aprendemos que isso é “natural” e “normal” é na família. Todas nós tivemos uma dessas, e algumas delas, como eu digo, foram mais descaradamente patriarcais do que outras. Algumas de nós tivemos uma educação realmente completa, e como foi dito na minha introdução, eu tive uma das melhores que já existiu! Sou grata aos anciões Mórmons por uma educação verdadeiramente incomparável na ontologia patriarcal. Eu não posso ser enganada novamente, e nem podem vocês Católicas graduadas ou quaisquer outras de vocês que foram verdadeiras crentes em qualquer religião.

Quando eu digo que todas as mulheres têm sido criadas como escravas e prostitutas, eu estou falando da criação que começou em casa. Todas as outras instituições da sociedade participaram avidamente nela, é claro. Mas não importa como somos criadas – como prostituta ou como esposa, que é a mesma coisa – somos criadas na família patriarcal quase que exclusivamente para servir funções sexuais.

Não importa a forma que a criação leva, ela sempre tem o mesmo objetivo – fazer nos sentirmos inúteis e dependentes. Obviamente, o incesto é uma ferramenta da criação por excelência; um incidente de incesto é realmente tudo o que é necessário para nos ensinar o nosso papel no patriarcado. É uma traição de confiança tão profunda, principalmente de nossa confiança em nós mesmas. Ele é projetado para fazer nos sentirmos impotentes, para quebrar o nosso núcleo interno de confiança, e portanto, para fazer nos sentirmos totalmente dependentes dos homens. Ele funciona para fazer-nos crer apaixonadamente que precisamos de um salvador, que os homens devem nos salvar, que nós temos que passar por eles para sermos salvas. Que de alguma forma temos que levá-los a mudar suas mentes sobre nós. Temos que fazê-los concordarem que o comportamento deles é terrível e levá-los a pará-lo. Nossa criação nos ensina o absurdo: que nós temos que fazer os escravocratas libertarem as escravas.

Esse é o objetivo da criação: fazer-nos acreditar que devemos sempre passar por outra pessoa para ser livres. É claro que a razão pela qual somos ensinadas isso é porque a liberdade nunca acontece dessa forma. Tiranos nunca libertam os escravos. É uma verdade histórica que os oprimidos devem sempre se levantar e libertar-se, e em libertar-se, libertar todo mundo. A verdade é que a mudança radical, a mudança na raiz, deve ser feita por nós.

Há muitas razões para estarmos na única posição, historicamente falando, de mudar as coisas. Uma delas é o paradoxo básico da tirania, que os opressores são sempre menos livres que os oprimidos. Outra é que, como mulheres, nós estamos verdadeiramente fora do sistema dos homens. Virginia Woolf disse isso, você sabe. Ela disse em Three Guineas que as mulheres são a Sociedade das Forasteiras, que é onde nós temos o nosso poder.

Nós temos poder – significando a capacidade de agir, de efetuar mudança – fora do sistema, porque é onde verdadeiramente vivemos, politicamente, psiquicamente; esse é, portanto, o único lugar onde somos autênticas, e só podemos ter poder onde somos autênticas. Também temos poder lá porque estar fora e ser escravas significa ser flexíveis; escravos têm que ser quase sobrenaturalmente flexíveis, a fim de sobreviver. E uma das leis mais importantes da cibernética é que o elemento mais flexível em qualquer sistema é o elemento controlador. Privilégios são correntes. Os homens são limitados por seus privilégios, não têm flexibilidade, não podem mudar seu sistema, mesmo se quisessem – e eles não querem. Sendo os mais flexíveis elementos neste sistema, as mulheres estão agora no controle do planeta. Nosso comportamento, e não o dos homens, irá determinar o curso dos acontecimentos humanos.

Mas condicionadas, criadas como nós somos, esta é a concepção mais difícil possível para nós, e a maioria de nós continuamos a acreditar que nós devemos fazer os homens mudarem seus caminhos, que somos dependentes de legisladores para aprovar leis, por exemplo. Poxa vida! Quando foi que aqueles no controle alguma vez desistiram de uma quantidade significativa dele para aqueles que eles controlam? Você consegue pensar em uma única vez na história?

Bem, isso nunca aconteceu e não vai acontecer. Nós deveríamos ter aprendido isso com a Emenda de Direitos Iguais. Se nós não aprendemos então, o que é que vai ser necessário para nos ensinar isso? Não aprendermos isso é parte da nossa criação, nosso profundo condicionamento. Estamos profundamente dependentes, profundamente servis de maneiras que nossa militância de superfície camufla.

Esse é o objetivo principal da criação: fazer-nos acreditar que os homens devem mudar o mundo para nós e que somos impotentes para mudar a realidade a menos que os homens mudem primeiro. Mas a verdade é que eles não vão mudar – não podem mudar – por isso não temos mais que perder nosso tempo tentando levá-los a isso. Nós somos as únicas que têm de mudar, porque nós podemos. E quando mudamos, tudo fora de nós vai ter que mudar para acomodar a nossa nova maneira de ser no mundo – inclusive os homens, mas isso está além do ponto, não vem ao caso.

O princípio subjacente a toda a criação – como você obtém este efeito, como você chega a este objetivo de fazer as mulheres acreditarmos que a nossa salvação depende do comportamento de outra pessoa – é que você leva alguém a fazer tudo em relação à outra pessoa que elas percebem como mais poderosa; você as leva a sempre consultar uma imagem de outra pessoa em suas mentes, para dizer a si mesmas – para dizermos a nós mesmas como mulheres, por exemplo – “Agora, como é que os homens responderão a isso?” cada vez que tomamos uma decisão, ou “Se fizermos isso, o que eles vão fazer?” Sempre ser relacional, consultar os mestres em nossa psique toda vez – isso é servidão.

Quando as mulheres tornamos os nossos estados internos, o nosso bem-estar, dependente do comportamento dos homens, comportamento que não podemos controlar nem mudar, nós desistimos de toda chance de independência e liberdade. Nossa liberdade deve depender exclusivamente de nós; somos as únicas que nós podemos mudar e controlar.

Devemos entender e internalizar o fato de que os homens são totalmente irrelevantes agora, na medida em que a mudança está em causa. Então, podemos tirar os olhos deles e olhar para nós mesmas para fazer uma nova realidade brilhante aqui e agora, no meio do putrescente, em colapso, velho mundo dos pais.

Enquanto estamos focadas nos homens, nós nunca vamos ver que a porta da nossa cela está aberta, que está aberta não para o patriarcado, mas para nosso poder. Enquanto estamos nos concentrando nos homens, fazendo tudo com nossos cafetões em mente, nunca vamos nos libertar. Nossos cafetões são os homens que nos rodeiam. Eles são os legisladores, professores, ministros – nenhuma de vocês ainda tem ministros ou sacerdotes, creio eu? Nossos cafetões são os nossos pais, nossos maridos, nossos filhos. Ser tudo em relação a eles é escravidão.

Eu aprendi isso como uma prostituta-em-treinamento no Mormonismo, em um lar Mórmon, assim como na igreja. E no Partido Democrata. E em grupos liberais e progressistas e de esquerda. E na Organização Nacional para as Mulheres, que é modelada, também, na família patriarcal. Aprendi essas coisas no mesmo lugar que você aprendeu elas. Todas nós temos aprendido elas da maneira mais difícil.

Quando eu escapei do Mormonismo, eu olhei para fora e vi que todas as igrejas eram a igreja Mórmon. Olhei mais longe e vi que o mundo inteiro era a igreja Mórmon. Ao longo dos anos, como eu ficava olhando, eu vi que o Congresso e as legislaturas e os partidos políticos e Mother Jones e a National Public Radio também eram todas a igreja Mórmon – você sabe, “Nada de Novo Considerado”, “As Mesmas Velhas Coisas Consideradas”. Eu vi que eles todos eram o Velho Clube dos Garotos.

Eu decidi que não ia escapar de um bordel só para ficar presa em outro; que havia algo basicamente errado com o pensamento de que qualquer dessas instituições era o Novo Mundo. Então, me pareceu que era hora de eu tirar os olhos dos caras, me livrar da crença supersticiosa de que se eu não monitorar todas as coisas que eles fizerem, se eu não agarrá-los e pedir-lhes e implorar-lhes e pressioná-los e chutar e gritar e bater meu pé e demandar, eles iriam enlouquecer e matar todas nós.

Mas isso é um absurdo, é claro, porque todas as evidências mostram que os homens têm enlouquecido de qualquer maneira. Com os nossos olhos fixos, sem pestanejar, nos rostos deles dia e noite por milhares de anos, eles têm ficado cada vez mais loucos. Com a nossa atenção concentrada neles eles estão nos matando e o mundo que nos rodeia diariamente. A evidência é que com o nosso comportamento reativo, temeroso, dependente, fomos facilitando o patriarcado em todas as suas manifestações ao longo da história. Temos sido criadas para fazer isso, para manter nossos olhos em nossos patriarcas, nossos cafetões, assim não vamos olhar para nós mesmas e ver as alternativas deslumbrantes.

Eu vi que já que isso não havia nos levado a lugar nenhum, era hora de parar de fazer isso. Não temos mil anos para obter o número suficiente de mulheres em nossas legislaturas e nosso Congresso. E mesmo que conseguíssemos, elas seriam todas imitadoras no momento em que chegassem lá, de qualquer maneira.

Não temos tempo. Nós só temos, talvez, dez anos. Isso significa que nós temos que aprender com a história que a resistência e a cooperação com o opressor não funcionam. Todas as maneiras que nós tentamos mudar as coisas não funcionaram. Elas não funcionaram! Estruturas hierárquicas não funcionam. Elas são todas cópias da família patriarcal, um paradigma que tem falhado conosco completamente.

Então eu decidi que é hora de eu recusar essa criação. É tempo para eu desprogramar a mim mesma e parar de me concentrar todo o tempo nos senhores, nos cafetões do mundo, parar de fazer tudo o que eu faço em relação a eles, em referência a eles, em reação a eles; parar de tornar os meus sentimentos de bem-estar dependentes do comportamento deles; parar de pensar sobre eles – eles são tão chatos, tão estupidamente chatos! Podemos prever tudo o que eles vão fazer, cada coisa selvagem, horrível, bruta, grosseira, que eles vão fazer. Sabemos tudo de cor. Nós não precisamos ver isso mais, não é? Você precisa? Eu certamente não. Já vi muito disso, e eu conheço isso de dentro pra fora.

Parece-me que o que eu tenho de fazer é o que o meu condicionamento profundo me diz para não fazer, fazer a coisa que me assusta mais do que tudo, fazer o que me foi ensinado a nunca fazer ou eu morreria – e isso é tirar os olhos dos caras e me levar a sério. Parar de possibilitar o sistema dos homens, o patriarcado. Parar de acreditar que eles vão mudar o mundo, que eu alguma vez terei que tentar levá-los a fazer alguma coisa redentora novamente. Eles não vão, não poderiam nem se quisessem. E me entender com a verdade de que se eu quero o mundo de outra forma, eu devo torná-lo dessa maneira eu mesma.

A mensagem mais importante que a minha velha sábia interior já me deu é que a transformação deste mundo cabe a mim e a você. Que alívio! Ainda bem que cabe às mulheres, pois agora ela vai ser feita!

 

em  “The Sexual Liberals and the Attack on Feminism” (1990).

The Sexual Liberals and the Attack on Feminism

 

Se queremos um mundo futuro em que as mulheres não estão de joelhos implorando para os homens serem um pouco mais gentis, devemos levantar-nos de nossos joelhos agora mesmo. Não existe um momento mágico em que rastejar de repente se torna respeito próprio e independência de espírito.”  Sonia Johnson

 

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2 Respostas to “Tirando os Nossos Olhos dos Caras”

  1. Laura 28/02/2014 às 19:40 #

    Ótimo, lindo, muito obrigada!

  2. Ana Silva 14/01/2015 às 11:41 #

    Ótimo trabalho! Continuem, já li quase tudo e sei que é bom ter notícia de que alguém esta lendo… Esse trabalho é importante, sei bem que poucas entendem e que o Brasil é um celeiro de escravas…. E por isso mesmo propagar estes textos faz parte da verdadeira revolução.

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