Adeus a Tudo Isso

6 ago

No fim dos 1960 e no início dos 1970, Rato, era um dos principais jornais da contracultura / Nova Esquerda na Cidade de Nova York. Em Janeiro de 1970, um grupo de mulheres que trabalhou para Rato, se enfastiou com o sexismo agressivo crescente do conteúdo do jornal e hierarquias internas, tomou posse do jornal e, com a ajuda de mulheres dos grupos de Libertação das Mulheres em Nova York, converteram-no em um jornal feminista. Na primeira edição, Robin Morgan (naquele tempo integrante da W.I.T.C.H.) contribuiu com Adeus a Tudo Isso. Desde então o artigo tem sido amplamente reimpresso em antologias de escritos de feminismo radical; esta cópia é baseada na reimpressão que aparece em Queridas Irmãs: Expedições do Movimento de Libertação das Mulheres. Uma versão levemente diferente está presente, junto com uma longa introdução e notas de rodapé explicativas, no A Palavra de uma Mulher: Expedições Feministas 1968–1992 de Morgan.

Adeus a Tudo Isso

Então, Rato foi liberado, por esta semana, pelo menos. Próxima semana? Se os homens voltarem a restabelecer as fotos pornográficas, as histórias em quadrinhos sexistas, as capas com garotas nuas (juntamente com a retórica paternalista deles sobre serem a favor da liberação das mulheres) – se isto acontecer, nossas alternativas estão evidentes. Rato deve ser tomado permanentemente pelas mulheres – ou Rato deve ser destruído.

Por que Rato? Por que não EVO ou até as novas revistas pornográficas óbvias (distribuídas pela máfia ao lado da pornografia humana da prostituição)? Antes de tudo, elas receberão o delas – mas isto não será por meio de uma tomada, que é reservada a alguma coisa que pelo menos vale a pena ser tomada. Nem elas deviam ser censuradas. Elas deviam exatamente ser ajudadas a não existirem – de qualquer maneira necessária. Mas Rato, que tem continuamente tentado ser um jornal de estilo realmente radical cumulativo, essa é uma outra questão. Isto é, as máscaras liberais cooptativas na cara do medo e do ódio sexista, usadas por rapazes realmente bondosos que todas nós conhecemos e gostamos, certo? Nós encontramos o inimigo e ele é nosso amigo. E perigoso. Que droga, deixe as garotas fazerem uma edição; talvez isto as satisfaça por um tempo, é uma boa controvérsia, e talvez venda jornais – corre uma conversa não ouvida que estou certa que aconteceu em algum momento na semana passada.

E é sobre isso que eu quero escrever – os amigos, irmãos, amantes na falsa Esquerda masculino-dominada. Os bons rapazes que pensam que sabem tudo o que é a Liberação das Mulheres, como eles a chamam tão intimamente – que então continuam a degradar e destruir mulheres através de quase tudo o que eles dizem e fazem: A capa na última edição do Rato (frente e verso). Os emblemáticos artigos poder da boceta ou militância do clitóris. As descrições falsas de mulheres integrantes no topo do mastro. As piadinhas, os anúncios pessoais, o sorriso, o rosnado. Não mais, irmãos. Não mais ignorância bem intencionada, não mais cooptação, não mais pretensão que essa coisa pela qual nós estamos lutando é a mesma; uma revolução dominada pelo homem, com liberdade e justiça para todos. Não mais.

Permita-nos derrubar isso. Homens brancos são os maiores responsáveis pela destruição da vida humana e do ambiente no planeta hoje. No entanto quem está controlando a suposta revolução para mudar tudo isso? Homens brancos (sim, sim, mesmo com os dedos pálidos deles apoiados em tortas negras e marrons mais uma vez). Isto poderia perfeitamente deixar alguém um bocado inconfortável. Parece óbvio que uma revolução legítima deve ser conduzida, feita por aquelas que têm sido as maiores oprimidas: mulheres negras, marrons, amarelas, vermelhas, e brancas – com homens se relacionando a isso o melhor que eles podem. Uma Esquerda genuína não considera o sofrimento de alguém irrelevante ou excitante; nem funciona como um microcosmo da economia capitalista, com homens competindo por poder e status na parte superior, e mulheres fazendo todo o trabalho na parte inferior (e funcionando como prêmios objetivados ou moedas também). Adeus a tudo isso.

Derrube isso inteiramente.

Adeus ao movimento da paz masculino-dominado, onde o velho Tio Dave pode dizer com impunidade para as mulheres na equipe da revista Libertação, “O problema com você é que você é uma mulher agressiva.”

Adeus à Esquerda heterossexual masculino-dominada: ao PL, que admitirá que alguns trabalhadores são mulheres, mas não verá todas as mulheres (digo, donas de casa) como trabalhadoras (cegos como o próprio Sistema); a todos os velhos partidos de Esquerda restantes que oferecem suas convenções de Libertação das Mulheres para nós como se isso não fosse uma contradição de termos; aos líderes individuais anti-liderança, que selecionam determinadas mulheres para serem líderes e então se relacionam somente com elas, seja na Esquerda masculina ou na Libertação das Mulheres — trazendo os problemas deles sobre manipulação e domínio de poder para tudo que eles tocam.

Adeus ao Tempo Vão, com a imagem de Stanley Kowalski e a teoria da sexualidade livre, mas a prática do sexo à demanda masculina. Esquerda fora! — não Direita acima! — às Irmãs do Tempo que (e elas sabem melhor — elas sabem) rejeitam seu próprio feminismo radical por aquele ultimo agarramento desesperado da aprovação masculina que todas nós conhecemos tão bem, por reivindicar que o estilo do machismo e da violência gratuita é seu próprio estilo pela livre escolha, e por acreditar que esta é a maneira de uma mulher fazer sua revolução… todo o tempo, ó minha irmã, não encontrando meus olhos porque os homens do Tempo escolheram Charles Manson como o herói deles — e seu. (Honesto, ao menos, já que Manson é somente o extremo lógico da fantasia Americana masculina normal, quer ele seja Dick Nixon ou Mark Rudd: mestre de um harém – mulheres a fazerem todo o trabalho de merda, de criar bebês e cozinhar e excitar a matar pessoas no comando.) Adeus a toda essa merda que separa mulheres das mulheres; merda que cobre a cara de qualquer Mulher do Tempo, que é a cara de qualquer Escrava do Manson, que é a cara de Sharon Tate, que é a cara de Mary Jo Kopechne, que é a cara de Beulah Saunders, que é a minha cara, que é a cara de Pat Nixon, que é a cara de Pat Swinton. Na escuridão nós todas somos a mesma – e é melhor você acreditar nisto: nós estamos na escuridão, bebê. (Lembra a velha piada: Sabe o que chamam um homem negro com um Ph.D.? Um preto. Variações: Sabe o que chamam uma Mulher do Tempo? Uma boceta pesada. Sabe o que chamam uma mulher revolucionária hip? Uma boceta moderna. Sabe o que eles chamam uma militante feminista radical? Uma boceta louca. Amerika é a terra da livre escolha – faça a sua seleção de títulos.) Esquerda Fora, minha irmã — você não vê? Adeus à ilusão de força quando você funciona em conjunto com seus opressores; adeus ao sonho de que você estando na liderança coletiva obterá qualquer coisa senão gonorréia.

Adeus ao MJR II, também, e todos os outros MJRs — não que as irmãs não realizaram neles um excelente número apreendendo controle, mas porque elas permitiram os homens voltarem ao comando após somente um dia mais ou menos de autocrítica no chauvinismo masculino. (E adeus ao uso geral impreciso desta expressão, no que diz respeito ao assunto: chauvinismo masculino é uma atitude — supremacia masculina é a realidade objetiva, o fato.) Adeus ao Conspiração, que, ao almoçar com os desgraçados companheiros sexistas Norman Mailer e Terry Southern em um clube tipo-Coelho em Chicago encontraram o Juíz Hoffman na mesa vizinha — nenhuma surpresa: na luz eles todos são o mesmo.

Adeus à cultura Hip e a assim-chamada Revolução Sexual, que tem funcionado para a liberdade das mulheres como a Reconstrução funcionou para os antigos escravos — reinstituindo a opressão com um outro nome. Adeus à suposição que Hugh Romney está seguro na revolução cultural dele, seguro o bastante para se referir as nossas mulheres, que fazem todas as nossas roupas sem alguém não perdoar isso. Adeus à arrogância do poder que certamente deixa o Czar Stan Freeman do Circo Elétrico dormir sem medo à noite, ou permite Tomi Ungerer andar destemido na rua após executar os desenhos para a campanha publicitária do Circo contra mulheres. Adeus à idéia que Hugh Hefner é legal porque ele deixa Conspiradores irem às festas na Mansão da Playboy — adeus ao sonho de Hefner de uma idade avançada madura. Adeus ao Tuli e os Fugs e todos os garotos na parte dianteira do lugar — que sempre souberam que eles odiavam as mulheres que amaram. Adeus à noção que o velho bom Abbie é diferente de qualquer outra empreendedora estrela de cinema que se livra da primeira esposa e crianças, boas o bastante para os dias antigos, mas ineptas uma vez que você está Fazendo Isso. Adeus ao padrão duplo hipócrita dele que fede através do charme maltrapilho. Adeus ao adorável pró-Liberacionista das Mulheres Paul Krassner, com toda sua raiva surpreendida que as mulheres perderam seu senso de humor nesta edição e não riem mais das gracinhas que as machucam e degradam: adeus à lembrança de seu pôster aerossol Boceta Imediata – pode, à coluna dele para a revista masculina de ódio à mulher Cavalier, ao sonho dele de uma Violação-ao-Poder contra as esposas dos legisladores, ao Bodes Expiatórios e Freiras Realistas e anedotas simpáticas sobre a filhinha que ele vê tão frequentemente quanto qualquer outro pai de meia-idade em Scarsdale convenientemente divorciado; adeus para sempre à noção que um homem é meu irmão que, como Paul, compra uma prostituta para a noite como o presente de aniversário para um amigo, ou que, como Paul, desenrola a lista de nomes em ordem alfabética das pessoas no movimento das mulheres que ele fodeu, desenrola a lista de nomes na melhor tradição de vestiário – como prova que ele não é um opressor sexista.

Deixe tudo isso ser exposto. Deixe que pareça perversa, rancorosa, sapatão, Solanasesca, frustrada, louca, tola, frígida, ridícula, amarga, desagradável, odiadora de homens, difamatória, pura, injusta, invejosa, intuitiva, baixa, estúpida, mesquinha, liberadora. Nós somos as mulheres que os homens nos advertiram sobre.

We are the women that men have warned us about

E deixe que uma mentira descanse para sempre: a mentira que os homens são oprimidos, também, pelo sexismo — a mentira que pode existir tal coisa como grupos de libertação dos homens. Opressão é algo que um grupo de pessoas comete contra um outro grupo especificamente por causa de uma característica ameaçadora compartilhada pelo último grupo — cor da pele ou sexo ou idade, etc. Os opressores são de fato fodidos sendo mestres (racismo fere pessoas brancas, estereótipos sexuais são prejudiciais aos homens), mas esses mestres não são oprimidos. Qualquer mestre tem a alternativa de se despojar do sexismo ou racismo; as oprimidas e os oprimidos não têm alternativa — por elas e eles não terem poder — senão lutar. Em longo prazo, a Libertação das Mulheres naturalmente libertará homens — mas em curto prazo ela está custando aos homens muito privilégio, que ninguém abandona de modo disposto ou facilmente. Sexismo não é falha das mulheres — mate seus pais, não suas mães.

Derrube isso. Adeus a um belo movimento novo de ecologia que poderia lutar para salvar a todos e todas nós se parasse de confundir mulheres com tipos de mãe terra ou garotas da fronteira, se cedessem agora mesmo liderança àquelas que não tem poluído o planeta porque essa ação envolve poder e mulheres não tiveram qualquer poder por aproximadamente 5,000 anos, ceder liderança àquelas cujos cérebros são tão resistentes e desobstruídos quanto o de todo homem, mas cujos corpos estão também inevitavelmente cientes do relacionamento trancado entre seres humanos e sua biosfera — a terra, as marés, a atmosfera, a lua. Ecologia não é uma grande vara se você é uma mulher — sempre esteve aí.

Adeus à cumplicidade inerente nos Membros da Tribo de Berkeley que são editores das Histórias em Quadrinhos do Trashman; adeus, no que se refere ao assunto, ao raciocínio que acha o devasso Trashman um modelo apropriado, por mais que a história em quadrinho seja interessante, para um homem revolucionário — de algum modo relacionado ao mesmo raciocínio Super-macho que permite que a primeira declaração sobre a Libertação das Mulheres e o chauvinismo masculino que saiu do Partido das Panteras Negras a ser feito por um homem, falando um monte sobre como as irmãs deveriam falar por si mesmas. Tal ignorância e arrogância doentia – convém a um revolucionário.

Nós sabemos como o racismo é trabalhado profundamente no inconsciente pelo Sistema – a mesma maneira que o sexismo é, como aparece no próprio nome Os Jovens Senhores. O que você é se você é uma “mulher viril” — uma Senhor? Ou, deus não permita, uma Jovem Dama? Mude o, mude o para Jovem Gente se precisar, ou nunca pretenda que o próprio nome é inocente da dor, da opressão.

Teoria e prática — e os anos-luz entre elas. “Faça!” diz Jerry Rubin na última edição do Rato — mas ele não faz ou cada leitor do Rato conheceria a cara situada próxima ao artigo dele assim como conhecem a tão-fotografada cara dele: era Nancy Kurshan, sua esposa, o poder atrás do palhaço.

Adeus à Nova Nação e ao Parque de Pessoas da Terra pelo que diz respeito a isso, concebido por homens, anunciado por homens, conduzido por homens — condenado antes do nascimento pelas sementes podres da supremacia masculina transplantadas no solo fresco. Era meu irmão que listou seres humanos entre os objetos que estariam facilmente disponíveis após a Revolução: Grama livre, comida livre, mulheres livres, ácido livre, roupas livres, etc.? Era meu irmão que escreveu “Foda suas mulheres até elas não poderem levantar” e disse que tietes eram garotas liberadas porque elas preferiam um aperto de mama em vez de um aperto de mão? O epítome do exclusionismo masculino — “homens farão a Revolução e suas garotas”. Não meu irmão. Não. Não minha revolução. Nenhum suspiro do meu apoio ao Cristo forjado — John Sinclair. Apenas um a menos para preocupar-se a respeito por dez anos. Eu não escolho meu inimigo por meu irmão.

Adeus, adeus. Para o inferno com a noção simplista que a libertação automática para a mulher – ou pessoas não-brancas – acontecerá zap! com o advento da revolução socialista. Papo furado. Dois males pré-datam o capitalismo e claramente puderam sobreviver e pós-datar o socialismo: sexismo e racismo. As mulheres eram a primeira propriedade quando a Contradição Principal ocorreu: quando uma metade da espécie humana decidiu subjugar a outra metade, porque ela era diferente, estrangeira, a Outra. Dali foi um passo bastante fácil estender o conceito de Outro para alguém de cor de pele diferente, altura ou peso diferentes ou linguagem — ou força para resistir. Adeus a estes simplórios sonhos otimistas de igualdade socialista que todos os nossos bons irmãos socialistas querem que nós acreditemos. Quão meramente uma política liberal ela é! Quão mais além nós temos de ir para criar essas mudanças profundas que gerariam uma sociedade sem gênero. Profunda, Irmã. Além do que é masculino ou feminino. Além dos padrões que nós aderimos agora sem ousar examiná-los como macho-criados, macho-dominados, macho-fodidos, e em interesse do próprio macho. Além de todos os padrões conhecidos, especialmente aqueles revolucionários que nós invocamos retoricamente. Além — para uma espécie com um novo nome, que não ousará definir a ela mesma como Homem.

Eu disse uma vez, “Eu sou uma revolucionária, não apenas uma mulher”, e sabia minha própria mentira mesmo enquanto eu disse as palavras. A piedade da ânsia dessa declaração para ser aceitável àqueles cujo zelo revolucionário ninguém questionaria, isto é, qualquer supremacista masculino na contra-esquerda. Mas para se tornar um verdadeiro revolucionário alguém precisa primeiro se tornar um dos oprimidos (não organizar ou educar ou manipulá-los, mas se tornar um deles) – ou perceber que você já é um. Nenhuma mulher quer isso. Porque essa compreensão é humilhante, fere. Dói compreender que em Woodstock ou Altamont uma mulher poderia ser declarada nervosa ou uma má perdedora se ela não quisesse ser estuprada. Dói aprender que as irmãs ainda no cativeiro masculino da Esquerda estão rebaixandoas feministas loucas para fazerem elas mesmas parecerem não ameaçadoras para nossos opressores mútuos. Dói ser peões nesses jogos. Dói tentar mudar cada dia da sua vida agora mesmo — não na conversa, não “na sua cabeça”, e não apenas convenientemente “lá fora” no Terceiro Mundo (do qual metade são mulheres) ou nas comunidades negra ou morena (da qual metade são mulheres), mas na sua própria casa, cozinha, cama. Não há como escapar, não importa como mais você é oprimida, da opressão primária de ser fêmea em um mundo patriarcal. Dói ouvir que as irmãs na Frente de Libertação Gay, também, têm de lutar continuamente contra o chauvinismo masculino de seus irmãos gays. Dói que Jane Alpert foi aclamada quando bateu sobre o imperialismo, o racismo, o Terceiro Mundo, e Todos Aqueles Tópicos Seguros, mas vaiada e assobiada por uma multidão de homens do movimento que não queriam nada disso quando ela começou a falar sobre a Libertação das Mulheres. A reação está sobre nós.

Eles nos dizem que a alternativa é permanecer ali e “lutar”, confrontar a dominação masculina na contra-esquerda, lutar ao lado ou atrás ou abaixo dos nossos irmãos – para mostrá-los que nós somos tão resistentes, tão revolucionárias, exatamente como qualquer-imagem-do-que-eles-querem-agora-de-nós-como-uma-vez-eles-quiserem-que-fôssemos-femininas-e-ficássemos-em-casa-esquentando-o-fogão. Eles colocarão liderança titular sobre nossos ombros agradecidos, quer seja uma mulher simbólica no Movimento de Oradores do Departamento do Conselho, ou uma fã da Conspiração ou uma das “respeitáveis” agitadoras do Motor da Cidade Nove. Irmãs todas, com apenas uma alternativa real: apreender nosso próprio poder em nossas próprias mãos, todas as mulheres, separadas e juntas, e fazer a Revolução da maneira que ela deve ser feita — nenhuma prioridade desta vez, nenhum grupo sofrendo dito para esperar até depois.

É trabalho das feministas revolucionárias construir um Movimento de Libertação das Mulheres independente sempre mais forte, de modo que as irmãs no cativeiro da contra-esquerda tenham algum lugar para voltar-se, para usar seu poder e raiva e beleza e frieza em seu próprio interesse pela primeira vez, nos seus próprios termos, nos seus próprios assuntos, em seu próprio estilo — quaisquer que eles sejam. Não é para nós na Libertação das Mulheres discutirmos com elas e confrontá-las da maneira que os homens delas fazem, nem culpá-las — ou nós mesmas — pelo que qualquer uma de nós é: um povo oprimido, mas um povo elevando nossa consciência para algo que é o outro lado da raiva, alguma coisa brilhante e suave e fria, como a ação diferente de qualquer coisa até o momento contemplada ou executada. É para nós sobrevivermos (algo que os homens brancos radicais têm o luxo de nunca terem realmente se preocupado a respeito, com todas as opções deles), conversarmos, planejarmos, sermos pacientes, darmos as boas-vindas às novas fugitivas da Esquerda forjada sem arrogância, mas somente humildade e prazer, impulsionar — atacar.

Há algo que toda mulher usa ao redor do seu pescoço em uma fina corrente de medo — um amuleto de loucura. Para cada uma de nós, existe em algum lugar um momento de insulto tão intenso que ela agarrará e arrancará o amuleto fora, mesmo se a corrente rasgar a carne do pescoço dela. E a última proteção de ver a verdade terá ido. Você pensa que, puxando furtivamente todo dia a corrente e avançando agradavelmente insana como eu estou, eu poderia estar preocupada com as disputas pueris da Esquerda forjada que ri da minha dor? Você pensa que tal preocupação é notável quando colocada lado a lado com o sofrimento de mais da metade da espécie humana pelos últimos 5,000 anos — devido aos caprichos da outra metade? Não, não, não, adeus a tudo isso.

Womankind is awakening

Mulheres são Algo Mais. Desta vez, nós vamos chutar todos os emperramentos, e os garotos terão justamente de se apressarem para prosseguirem, ou então saírem e se juntarem abertamente à estrutura de poder da qual eles já são os filhos ilegítimos. Qualquer homem que reivindique ser sério sobre querer despojar a si mesmo do privilégio do pênis devia desengatar isto: toda a liderança masculina fora da Esquerda é a única maneira; e isso vai acontecer, por meio dos homens abdicarem ou por meio das mulheres se apoderarem do leme. Compete aos “irmãos” — afinal, sexismo é interesse deles, não nosso; nós estamos muito ocupadas nos reunindo para lidar com o fanatismo deles. Assim eles terão de decidirem se eles querem ser despojados do privilégio do pênis ou — que merda, por que não dizer isto, diga! — serem despojados dos pênis. Quão profundo o medo desta perda deve ser, que ela pode ser suprimida somente pela edificação de impérios e o empreendimento de guerras genocidas!

Adeus, adeus para sempre, Esquerda forjada, contra-esquerda, reflexo masculino-dominado do espelho de vidro-rachado do Pesadelo Amerikano. Mulheres são a verdadeira Esquerda. Nós estamos nos levantando, poderosas em nossos corpos imundos; brilhante loucura incandescente em nossos cérebros inferiores; cabelos selvagens esvoaçantes, olhos selvagens fitantes, vozes selvagens penetrantes; destemidas pelo sangue que nós derramamos a cada vinte e oito dias; rindo da nossa própria beleza, nós que perdemos nosso senso de humor; lamentando por tudo que cada uma tão preciosa de nós poderia ter sido neste lugar e tempo de vida se ela não tivesse nascido uma mulher; enchendo nossas bocas de dedos para parar os gritos de dor e ódio e piedade pelos homens que nós temos amado e amamos ainda; lágrimas em nossos olhos e amargura em nossas bocas pelas crianças que não poderíamos ter, ou não poderíamos não ter, ou não queríamos, ou não queríamos ainda, ou queríamos e tivemos neste lugar e neste tempo de horror. Nós estamos nos levantando com uma fúria mais antiga e potencialmente maior do que qualquer força na história, e desta vez nós seremos livres ou ninguém sobreviverá. Poder para todos os povos ou para nenhum. Inteiramente abaixo, desta vez.

Kathleen Cleaver livre!

Anita Hoffman livre!

Bernardine Dohrn livre!

Donna Malone livre!

Ruth Ann Miller livre!

Leni Sinclar livre!

Jane Alpert livre!

Gumbo livre!

Cohen livre!

Judy Lampe livre!

Kim Agnew livre!

Holly Krassner livre!

Lois Hart livre!

Alice Embree livre!

Nancy Kurshan livre!

Lynn Phyillips livre!

Dinky Forman livre!

Sharon Krebs livre!

Iris Luciano livre!

Robin Morgan livre!

Valerie Solanas livre!

NOSSAS IRMÃS LIVRES!   NÓS MESMAS LIVRES!

– Robin Morgan (Janeiro de 1970)

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3 Respostas to “Adeus a Tudo Isso”

  1. Ana Raquel 10/05/2010 às 16:46 #

    Esse com certeza é o texto mais raivoso que li! E o texto mais lindo e emocionante também… Me encontrei nas palavras escritas por Robin Morgan. E me reafirmei como feminista. Militante da luta mais difícil! E só lamentei não fazer parte desse grupo de mulheres tão magníficas… de não fazer parte ao de um grupo!

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  1. Por que feminismo radical? « Amazonas e Icamiabas - 25/06/2012

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