Tirando os Nossos Olhos dos Caras

30 jan

Sonia Johnson

 

Todas nós – todas as mulheres no patriarcado – somos criadas para sermos escravas, somos criadas para sermos prostitutas. Todas nós, em algum sentido, somos, ou fomos, prostitutas e escravas, e muitas de nós continuaremos a ser para o resto de nossas vidas. E é a essência, a própria natureza da criação, cegar-nos – de nossa condição, assim como das mecânicas de nossa escravização.

Aquelas de nós, no entanto, que crescemos e fomos criadas nos tradicionais ambientes Judaico-Cristãos fundamentalistas, temos um olhar mais atento para a mecânica desse processo de criação do que algumas outras. E embora nós sejamos às vezes matronizadas dentro do movimento – partindo do princípio de que, se conseguimos acreditar nesse absurdo ridículo, perigoso, nunca mais poderemos ser confiadas a ver com clareza – a verdade é que provavelmente podemos ser mais confiadas em ter mantido a visão clara do feminismo, uma vez que a vimos, do que aquelas de vocês que cresceram como Unitárias ou Quakers ou mesmo Metodistas e Presbiterianas, porque, você vê, vimos o patriarcado nu diante de nós o tempo todo, ao redor de nós durante todo o dia, todos os dias.

E o que nós soubemos, o que nós percebemos logo que pudemos ver o que estávamos vendo e rejeitá-lo – arrancá-lo de nossas almas e jogar tudo fora – com o que ficamos foi o entendimento da família patriarcal como o modelo para toda opressão: a família patriarcal com o homem no topo como deus e a mulher e as crianças como vermes debaixo dele – e muito frequentemente literalmente debaixo dele.

Nós entendemos, então, que esse paradigma – esse paradigma de poder-sobre, esse paradigma sadomasoquista que é o patriarcado – se estende a tudo, que esse é o modelo para todas as instituições sociais, para todas as estruturas econômicas, para as políticas internacionais. É o branco em cima na posição do macho como deus, pessoas de cor por baixo na posição da mulher como verme. É o rico como macho em cima, pobres como a fêmea embaixo. É seres humanos em cima, todos os outros seres vivos embaixo. É grande em cima, pequeno embaixo – países grandes como macho, países pequenos como fêmea – e assim por diante.

Agora onde aprendemos que isso é “natural” e “normal” é na família. Todas nós tivemos uma dessas, e algumas delas, como eu digo, foram mais descaradamente patriarcais do que outras. Algumas de nós tivemos uma educação realmente completa, e como foi dito na minha introdução, eu tive uma das melhores que já existiu! Sou grata aos anciões Mórmons por uma educação verdadeiramente incomparável na ontologia patriarcal. Eu não posso ser enganada novamente, e nem podem vocês Católicas graduadas ou quaisquer outras de vocês que foram verdadeiras crentes em qualquer religião.

Quando eu digo que todas as mulheres têm sido criadas como escravas e prostitutas, eu estou falando da criação que começou em casa. Todas as outras instituições da sociedade participaram avidamente nela, é claro. Mas não importa como somos criadas – como prostituta ou como esposa, que é a mesma coisa – somos criadas na família patriarcal quase que exclusivamente para servir funções sexuais.

Não importa a forma que a criação leva, ela sempre tem o mesmo objetivo – fazer nos sentirmos inúteis e dependentes. Obviamente, o incesto é uma ferramenta da criação por excelência; um incidente de incesto é realmente tudo o que é necessário para nos ensinar o nosso papel no patriarcado. É uma traição de confiança tão profunda, principalmente de nossa confiança em nós mesmas. Ele é projetado para fazer nos sentirmos impotentes, para quebrar o nosso núcleo interno de confiança, e portanto, para fazer nos sentirmos totalmente dependentes dos homens. Ele funciona para fazer-nos crer apaixonadamente que precisamos de um salvador, que os homens devem nos salvar, que nós temos que passar por eles para sermos salvas. Que de alguma forma temos que levá-los a mudar suas mentes sobre nós. Temos que fazê-los concordarem que o comportamento deles é terrível e levá-los a pará-lo. Nossa criação nos ensina o absurdo: que nós temos que fazer os escravocratas libertarem as escravas.

Esse é o objetivo da criação: fazer-nos acreditar que devemos sempre passar por outra pessoa para ser livres. É claro que a razão pela qual somos ensinadas isso é porque a liberdade nunca acontece dessa forma. Tiranos nunca libertam os escravos. É uma verdade histórica que os oprimidos devem sempre se levantar e libertar-se, e em libertar-se, libertar todo mundo. A verdade é que a mudança radical, a mudança na raiz, deve ser feita por nós.

Há muitas razões para estarmos na única posição, historicamente falando, de mudar as coisas. Uma delas é o paradoxo básico da tirania, que os opressores são sempre menos livres que os oprimidos. Outra é que, como mulheres, nós estamos verdadeiramente fora do sistema dos homens. Virginia Woolf disse isso, você sabe. Ela disse em Three Guineas que as mulheres são a Sociedade das Forasteiras, que é onde nós temos o nosso poder.

Nós temos poder – significando a capacidade de agir, de efetuar mudança – fora do sistema, porque é onde verdadeiramente vivemos, politicamente, psiquicamente; esse é, portanto, o único lugar onde somos autênticas, e só podemos ter poder onde somos autênticas. Também temos poder lá porque estar fora e ser escravas significa ser flexíveis; escravos têm que ser quase sobrenaturalmente flexíveis, a fim de sobreviver. E uma das leis mais importantes da cibernética é que o elemento mais flexível em qualquer sistema é o elemento controlador. Privilégios são correntes. Os homens são limitados por seus privilégios, não têm flexibilidade, não podem mudar seu sistema, mesmo se quisessem – e eles não querem. Sendo os mais flexíveis elementos neste sistema, as mulheres estão agora no controle do planeta. Nosso comportamento, e não o dos homens, irá determinar o curso dos acontecimentos humanos.

Mas condicionadas, criadas como nós somos, esta é a concepção mais difícil possível para nós, e a maioria de nós continuamos a acreditar que nós devemos fazer os homens mudarem seus caminhos, que somos dependentes de legisladores para aprovar leis, por exemplo. Poxa vida! Quando foi que aqueles no controle alguma vez desistiram de uma quantidade significativa dele para aqueles que eles controlam? Você consegue pensar em uma única vez na história?

Bem, isso nunca aconteceu e não vai acontecer. Nós deveríamos ter aprendido isso com a Emenda de Direitos Iguais. Se nós não aprendemos então, o que é que vai ser necessário para nos ensinar isso? Não aprendermos isso é parte da nossa criação, nosso profundo condicionamento. Estamos profundamente dependentes, profundamente servis de maneiras que nossa militância de superfície camufla.

Esse é o objetivo principal da criação: fazer-nos acreditar que os homens devem mudar o mundo para nós e que somos impotentes para mudar a realidade a menos que os homens mudem primeiro. Mas a verdade é que eles não vão mudar – não podem mudar – por isso não temos mais que perder nosso tempo tentando levá-los a isso. Nós somos as únicas que têm de mudar, porque nós podemos. E quando mudamos, tudo fora de nós vai ter que mudar para acomodar a nossa nova maneira de ser no mundo – inclusive os homens, mas isso está além do ponto, não vem ao caso.

O princípio subjacente a toda a criação – como você obtém este efeito, como você chega a este objetivo de fazer as mulheres acreditarmos que a nossa salvação depende do comportamento de outra pessoa – é que você leva alguém a fazer tudo em relação à outra pessoa que elas percebem como mais poderosa; você as leva a sempre consultar uma imagem de outra pessoa em suas mentes, para dizer a si mesmas – para dizermos a nós mesmas como mulheres, por exemplo – “Agora, como é que os homens responderão a isso?” cada vez que tomamos uma decisão, ou “Se fizermos isso, o que eles vão fazer?” Sempre ser relacional, consultar os mestres em nossa psique toda vez – isso é servidão.

Quando as mulheres tornamos os nossos estados internos, o nosso bem-estar, dependente do comportamento dos homens, comportamento que não podemos controlar nem mudar, nós desistimos de toda chance de independência e liberdade. Nossa liberdade deve depender exclusivamente de nós; somos as únicas que nós podemos mudar e controlar.

Devemos entender e internalizar o fato de que os homens são totalmente irrelevantes agora, na medida em que a mudança está em causa. Então, podemos tirar os olhos deles e olhar para nós mesmas para fazer uma nova realidade brilhante aqui e agora, no meio do putrescente, em colapso, velho mundo dos pais.

Enquanto estamos focadas nos homens, nós nunca vamos ver que a porta da nossa cela está aberta, que está aberta não para o patriarcado, mas para nosso poder. Enquanto estamos nos concentrando nos homens, fazendo tudo com nossos cafetões em mente, nunca vamos nos libertar. Nossos cafetões são os homens que nos rodeiam. Eles são os legisladores, professores, ministros – nenhuma de vocês ainda tem ministros ou sacerdotes, creio eu? Nossos cafetões são os nossos pais, nossos maridos, nossos filhos. Ser tudo em relação a eles é escravidão.

Eu aprendi isso como uma prostituta-em-treinamento no Mormonismo, em um lar Mórmon, assim como na igreja. E no Partido Democrata. E em grupos liberais e progressistas e de esquerda. E na Organização Nacional para as Mulheres, que é modelada, também, na família patriarcal. Aprendi essas coisas no mesmo lugar que você aprendeu elas. Todas nós temos aprendido elas da maneira mais difícil.

Quando eu escapei do Mormonismo, eu olhei para fora e vi que todas as igrejas eram a igreja Mórmon. Olhei mais longe e vi que o mundo inteiro era a igreja Mórmon. Ao longo dos anos, como eu ficava olhando, eu vi que o Congresso e as legislaturas e os partidos políticos e Mother Jones e a National Public Radio também eram todas a igreja Mórmon – você sabe, “Nada de Novo Considerado”, “As Mesmas Velhas Coisas Consideradas”. Eu vi que eles todos eram o Velho Clube dos Garotos.

Eu decidi que não ia escapar de um bordel só para ficar presa em outro; que havia algo basicamente errado com o pensamento de que qualquer dessas instituições era o Novo Mundo. Então, me pareceu que era hora de eu tirar os olhos dos caras, me livrar da crença supersticiosa de que se eu não monitorar todas as coisas que eles fizerem, se eu não agarrá-los e pedir-lhes e implorar-lhes e pressioná-los e chutar e gritar e bater meu pé e demandar, eles iriam enlouquecer e matar todas nós.

Mas isso é um absurdo, é claro, porque todas as evidências mostram que os homens têm enlouquecido de qualquer maneira. Com os nossos olhos fixos, sem pestanejar, nos rostos deles dia e noite por milhares de anos, eles têm ficado cada vez mais loucos. Com a nossa atenção concentrada neles eles estão nos matando e o mundo que nos rodeia diariamente. A evidência é que com o nosso comportamento reativo, temeroso, dependente, fomos facilitando o patriarcado em todas as suas manifestações ao longo da história. Temos sido criadas para fazer isso, para manter nossos olhos em nossos patriarcas, nossos cafetões, assim não vamos olhar para nós mesmas e ver as alternativas deslumbrantes.

Eu vi que já que isso não havia nos levado a lugar nenhum, era hora de parar de fazer isso. Não temos mil anos para obter o número suficiente de mulheres em nossas legislaturas e nosso Congresso. E mesmo que conseguíssemos, elas seriam todas imitadoras no momento em que chegassem lá, de qualquer maneira.

Não temos tempo. Nós só temos, talvez, dez anos. Isso significa que nós temos que aprender com a história que a resistência e a cooperação com o opressor não funcionam. Todas as maneiras que nós tentamos mudar as coisas não funcionaram. Elas não funcionaram! Estruturas hierárquicas não funcionam. Elas são todas cópias da família patriarcal, um paradigma que tem falhado conosco completamente.

Então eu decidi que é hora de eu recusar essa criação. É tempo para eu desprogramar a mim mesma e parar de me concentrar todo o tempo nos senhores, nos cafetões do mundo, parar de fazer tudo o que eu faço em relação a eles, em referência a eles, em reação a eles; parar de tornar os meus sentimentos de bem-estar dependentes do comportamento deles; parar de pensar sobre eles – eles são tão chatos, tão estupidamente chatos! Podemos prever tudo o que eles vão fazer, cada coisa selvagem, horrível, bruta, grosseira, que eles vão fazer. Sabemos tudo de cor. Nós não precisamos ver isso mais, não é? Você precisa? Eu certamente não. Já vi muito disso, e eu conheço isso de dentro pra fora.

Parece-me que o que eu tenho de fazer é o que o meu condicionamento profundo me diz para não fazer, fazer a coisa que me assusta mais do que tudo, fazer o que me foi ensinado a nunca fazer ou eu morreria – e isso é tirar os olhos dos caras e me levar a sério. Parar de possibilitar o sistema dos homens, o patriarcado. Parar de acreditar que eles vão mudar o mundo, que eu alguma vez terei que tentar levá-los a fazer alguma coisa redentora novamente. Eles não vão, não poderiam nem se quisessem. E me entender com a verdade de que se eu quero o mundo de outra forma, eu devo torná-lo dessa maneira eu mesma.

A mensagem mais importante que a minha velha sábia interior já me deu é que a transformação deste mundo cabe a mim e a você. Que alívio! Ainda bem que cabe às mulheres, pois agora ela vai ser feita!

 

em  “The Sexual Liberals and the Attack on Feminism” (1990).

The Sexual Liberals and the Attack on Feminism

 

Se queremos um mundo futuro em que as mulheres não estão de joelhos implorando para os homens serem um pouco mais gentis, devemos levantar-nos de nossos joelhos agora mesmo. Não existe um momento mágico em que rastejar de repente se torna respeito próprio e independência de espírito.”  Sonia Johnson

 

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O Pensamento Hétero – Heterossexualidade Compulsória e a Existência Lesbiana

8 mar

Monique Wittig, escritora, poetisa e militante lésbica-feminista, nasceu na França em 1935. Estudou na Universidade de Paris e foi colaboradora juntamente com Simone de Beauvoir e com Christiane Delphy da revista Questions Feministes. Exilou-se no final dos anos 70 nos Estados Unidos, e revolucionou o movimento feminista com seus escritos. Dentre os mais conhecidos estão: Les Guérrillères (novela, 1969), Le Corps Lesbien (poesia, 1973), Le Voyage sans fin (teatro), La Pensée Straight (ensaio, 1978) e One is not Born a Woman (de 1980).

Recordaremos aqui o importantíssimo ensaio “O Pensamento Hétero” de Wittig, dedicado às lesbianas americanas, em associação à análise de uma das mais influentes feministas lesbianas na crítica da heterossexualidade obrigatória e defesa da lesbianidade como categoria política e conceito revolucionário, Adrienne Rich.

O Pensamento Hétero

Os discursos que acima de tudo nos oprimem, lésbicas, mulheres, e homens homossexuais, são aqueles que tomam como certo que a base da sociedade, de qualquer sociedade, é a heterossexualidade. Estes discursos falam sobre nós e alegam dizer a verdade num campo apolítico, como se qualquer coisa que significa algo pudesse escapar ao político neste momento da história, e como se, no tocante a nós, pudessem existir signos politicamente insignificantes. Estes discursos da heterossexualidade oprimem-nos no sentido em que nos impedem de falar a menos que falemos nos termos deles. Tudo quanto os põe em questão é imediatamente posto de parte como elementar. A nossa recusa da interpretação totalizante da psicanálise faz com que os teóricos digam que estamos a negligenciar a dimensão simbólica. Estes discursos negam-nos toda a possibilidade de criar as nossas próprias categorias. Mas a sua ação mais feroz é a implacável tirania que exercem sobre os nossos seres físicos e mentais.

Ao usarmos o termo demasiado genérico ideologia para designar todos os discursos do grupo dominante, relegamos estes discursos para o domínio das Ideias Irreais; esquecemos a violência material (física) que diretamente fazem contra as pessoas oprimidas, violência essa produzida pelos discursos abstratos e científicos, assim como pelos discursos dos mass media.

As imagens pornográficas, os filmes, as fotos de revistas, os pôsteres publicitários que vemos nas paredes das cidades, constituem um discurso, e este discurso cobre o nosso mundo com os seus signos, e este discurso tem um significado: significa que as mulheres são dominadas. Os semióticos podem interpretar o sistema deste discurso, descrever a sua natureza. O que eles lêem nesse discurso são signos cuja função não é significar e que não têm qualquer razão de ser exceto a de serem elementos de um certo sistema ou natureza. Mas para nós este discurso não está divorciado do real tal como está para os semióticos. Este discurso não só mantém uma relação muito próxima com a realidade social que é a nossa opressão (econômica e politicamente) mas, igualmente, é em si próprio real já que é um dos aspectos da opressão, já que exerce um poder bem definido sobre nós. O discurso pornográfico é uma das estratégias de violência que são exercidas sobre nós: ele humilha, ele avilta, ele é um crime contra a nossa humanidade. Como técnica de assédio tem uma outra função, a de ser um aviso. Ordena-nos que nos mantenhamos na linha e mantém na linha aquelas que teriam tendência a esquecer quem são; esse discurso chama o medo.

Estes peritos em semiótica a que nos referimos previamente censuram-nos por confundirmos os discursos com a realidade, quando nos manifestamos contra a pornografia. Não vêem que este discurso é a realidade para nós, uma das facetas da realidade da nossa opressão. Acreditam que estamos enganadas no nosso nível de análise.

Escolhi a pornografia como exemplo porque o seu discurso é o mais sintomático e o mais demonstrativo da violência que nos é feita através de discursos, assim como na sociedade em geral. Não há nada de abstrato acerca do poder que as ciências e as teorias têm de agir materialmente e na realidade sobre os nossos corpos e as nossas mentes, mesmo se é abstrato o discurso que produz esse poder. É uma das formas de domínio, a sua própria expressão, como disse Marx. Eu diria, alternativamente, um dos seus exercícios. Todos os oprimidos conhecem este poder e têm de lidar com ele. É aquele que diz: não tens o direito de falar porque o teu falar não é científico e não é teórico, estás a um nível errado de análise, estás a confundir discurso e realidade, o teu discurso é ingênuo, compreendes mal esta ou aquela ciência.

Se o discurso dos sistemas teóricos modernos e da ciência social exercem poder sobre nós, é porque esse discurso trabalha com conceitos que nos tocam de perto. Apesar do advento histórico dos movimentos de libertação lésbica, feminista e gay, cuja ação já transtornou as categorias filosóficas e políticas dos discursos das ciências sociais, as suas categorias (assim brutalmente postas em questão) são, no entanto utilizadas, sem serem examinadas, pela ciência contemporânea. Essas categorias funcionam como primitivos conceitos num aglomerado de toda a espécie de disciplinas, teorias e ideias correntes a que chamarei o pensamento hétero.

Dizem respeito à mulher, homem, sexo, diferença, e a toda a série de conceitos que carregam esta marca, incluindo conceitos tais como história, cultura, e o real. E embora tenha sido aceito em anos recentes que não existe semelhante coisa como a natureza, que tudo é cultura, permanece dentro dessa cultura um cerne de natureza que resiste a ser examinado, uma relação excluída do social na análise – uma relação cuja característica é inescapável na cultura, assim como na natureza, e que é a relação heterossexual. Chamar-lhe-ei a relação social obrigatória entre homem e mulher (Aqui refiro-me a Ti-Grace Atkinson e à sua análise do coito como uma instituição).

Com a sua inescapabilidade erigida em conhecimento, em princípio óbvio, em dado pré-adquirido a qualquer ciência, o pensamento hétero desenvolve uma interpretação totalizante da história, da realidade social, da cultura, da linguagem e simultaneamente de todos os fenômenos subjetivos. Posso apenas sublinhar o caráter opressivo de que se reveste o pensamento hétero na sua tendência para imediatamente universalizar a sua produção de conceitos em leis gerais que se reclamam de ser aplicáveis a todas as sociedades, a todas as épocas, a todos os indivíduos. Assim, fala-se de conceitos como a troca de mulheres, a diferença entre os sexos, a ordem simbólica, o Inconsciente, Desejo, Cultura, História, dando um significado absoluto a estes conceitos, quando são apenas categorias fundadas sobre a heterossexualidade, ou sobre um pensamento que produz a diferença entre os sexos como um dogma político e filosófico.

A consequência desta tendência para a universalidade é que o pensamento hétero não pode conceber uma cultura, uma sociedade onde a heterossexualidade não ordenaria não só todas as relações humanas mas também a sua própria produção de conceitos e também todos os processos que escapam à consciência. Além disso, estes processos inconscientes são historicamente cada vez mais imperativos naquilo que nos ensinam sobre nós através da instrumentalidade dos especialistas. A retórica que expressa estes processos (e cuja sedução eu não subestimo) reveste-se de mitos, recorre ao enigma, caminha pelo acumular de metáforas, e a sua função é a de poetisar o caráter obrigatório do serás-hetero-ou-não-serás.

Segundo este pensamento, rejeitar a obrigação do coito e das instituições que esta obrigação produziu como sendo necessárias para a constituição de uma sociedade, é simplesmente uma impossibilidade, já que proceder assim significaria rejeitar a possibilidade da constituição do outro e rejeitar a ordem simbólica, tornar a constituição do significado impossível, sem o qual ninguém pode manter uma coerência interna. Assim, o lesbianismo, a homossexualidade e as sociedades que formamos não podem ser pensados nem falados, embora sempre tivessem existido. Assim, o pensamento hétero continua a afirmar que é o incesto, e não a homossexualidade, o seu maior tabu. Assim, pelo pensamento hétero, a homossexualidade não passa de heterossexualidade.

Sim, a sociedade hétero está baseada na necessidade, a todos os níveis, do diferente/outro. Não pode funcionar economicamente, simbolicamente, linguisticamente ou politicamente sem este conceito. Esta necessidade do diferente/outro é uma necessidade ontológica para todo o aglomerado de ciências e disciplinas a que chamo o pensamento hétero. Mas o que é o diferente/outro se não a(o) dominada(o)? A sociedade heterossexual é a sociedade que não oprime apenas lésbicas e homossexuais, ela oprime muitos diferentes/outros, oprime todas as mulheres e muitas categorias de homens, todas e todos que estão na posição de serem dominadas(os). Para constituir uma diferença e controlá-la é um ato de poder, uma vez que é essencialmente um ato normativo. Todos tentam mostrar o outro como diferente. Mas nem todos conseguem ter sucesso a fazê-lo. Tem que se ser socialmente dominante para se ter sucesso a fazê-lo.

Por exemplo, o conceito de diferença entre os sexos constitui ontologicamente as mulheres em diferentes/outras. Os homens não são diferentes, as pessoas brancas não são diferentes, nem o são os senhores. Mas as pessoas negras, tal como os escravos, são-no. Esta característica ontológica da diferença entre os sexos afeta todos os conceitos que integram o mesmo aglomerado. Mas para nós não existe semelhante coisa que seja ser-mulher ou ser-homem. Homem e mulher são conceitos políticos de oposição, e a cópula que dialeticamente os une é, simultaneamente, aquela que irá abolir os homens e mulheres. É a luta de classes entre mulheres e homens que abolirá os homens e as mulheres. Não há nada de ontológico no conceito de diferença. É a única maneira como os senhores interpretam uma situação histórica de domínio. A função da diferença é a de ocultar a todos os níveis os conflitos de interesse, incluindo os conflitos ideológicos.

Por outras palavras, para nós, isto significa que não podem mais existir mulheres e homens, e que enquanto classes e categorias de pensamento ou linguagem eles têm de desaparecer, política, econômica, ideologicamente. Se nós, lésbicas e homossexuais, continuarmos a falar de nós próprias(os) e a conceber-nos como mulheres e como homens, estamos a ser instrumentais na manutenção da heterossexualidade. Tenho a certeza que uma transformação econômica e política não irá desdramatizar estas categorias da linguagem. Podemos redimir escrava ou escravo? Podemos redimir niger, negress (termos difamatórios para pessoas negras)? Em que medida é “a mulher” diferente? Continuaremos a escrever branco, senhor, homem? A transformação das relações econômicas não será suficiente. Temos de produzir uma transformação política dos conceitos chave, isto é dos conceitos que nos são estratégicos. Porque há uma outra ordem de materialidade, a da linguagem, e a linguagem é trabalhada de dentro por estes conceitos estratégicos. A linguagem é, ao mesmo tempo, intimamente ligada ao campo político, onde tudo o que concerne a linguagem, a ciência e o pensamento se refere à pessoa enquanto subjetividade e à sua relação com a sociedade. E não podemos deixar estas coisas no poder do pensamento hétero ou do pensamento de dominação.

…Rechaçamos o contrato heterossexual. Isto é o que dizem as lésbicas por todas as partes, se não com teorias então pelo menos através da sua prática social, cujas repercussões na cultura e sociedade hétero são ainda incalculáveis. Um antropólogo poderá dizer que temos de esperar 50 anos. Sim, se alguém quiser universalizar o funcionamento destas sociedades e fazer com que apareçam as suas invariantes. Entretanto os conceitos hétero vem sendo minados. O que é a mulher? Pânico, alarme geral para uma defesa ativa. Francamente, este é um problema que as lésbicas não têm por causa de uma mudança de perspectiva, e seria incorreto dizer que as lésbicas se associam, fazem amor, vivem com mulheres, pois mulher” tem significado apenas em sistemas de pensamento heterossexuais e em sistemas econômicos heterossexuais. As lésbicas não são mulheres.

Monique Wittig, La Pensée Straight (1978)


Monique Wittig afirma que a lésbica não é uma mulher porque ser mulher é estar inserida no domínio heterossexista. Uma lésbica não é uma mulher econômica, política ou ideologicamente, pois o que faz uma mulher é a sua construção em relação aos homens, relação de subserviência que implica uma obrigação pessoal e física e também econômica: “residência obrigatória”, trabalhos domésticos, deveres conjugais, produção de crianças, etc.
Em ‘One Is Not Born a Woman’ (Ninguém Nasce Mulher), ela põe em discussão o ‘mito da mulher’: a idéia de natureza foi estabelecida para definir as mulheres como ‘grupo natural’, já que tanto seus corpos como suas mentes viriam a caracterizar algo já dado, preestabelecido. A opressão contra as mulheres se vale da argumentação de que elas já nascem prontas, sua capacidade de procriar as define. A definição é, portanto, presa à categoria de sexo, a divisão em homens e em mulheres reporta à explicação biológica. Para Wittig, ao ser feita essa conversão “naturaliza-se a história e se passa a crer que homens e mulheres sempre existiram e sempre existirão do mesmo modo”.

A consequência que Wittig vê ao naturalizar-se a história é que se naturalizam os fenômenos sociais de opressão das mulheres, como por exemplo, a maternidade, que é vista como única atividade produtiva feminina, sem que o caráter de controle sobre seus corpos seja percebido. Sua argumentação sobre a opressão das mulheres é exemplificada com uma referência ao trabalho de Colette Guillaumin, para quem, antes da realidade socioeconômica da escravidão dos negros pelos brancos, não existia o conceito de raça; esse conceito com seu significado moderno foi, portanto, criado com a escravidão para justificá-la. Assim, também mulheres e homens tiveram de ser constituídos em mulheres e em homens através de uma sofisticada construção e formação imaginária. Para que sejam vistos como mulheres ou como negros, tiveram de ser criados assim, antes de serem vistos desta maneira. Nesse sentido é que Monique Wittig aponta as lesbianas como um afrontamento à naturalização das mulheres. Sendo ‘A Mulher’ um mito criado no quadro do pensamento hétero, do pensamento dominante, hierarquizante e opressor, ele não deve servir como conceito útil para as lesbianas.

Lembradas e reconhecidas como ‘antinaturais’, pois não estão à disposição dos homens e se recusam à posição de submissão a eles, as lésbicas foram marcadas pelo estigma de não serem ‘mulheres reais’ e, ao mesmo tempo, ‘quererem ser homens’. Segundo Wittig: “Foi uma restrição política, e aquelas que resistiram à essa restrição foram acusadas de não serem mulheres ‘verdadeiras’. Mas ficamos orgulhosas disso, vendo que na acusação já existia algo como uma sombra de vitória: o aval dos opressores dizendo que ‘mulher’ não é algo que acontece por acaso, sendo que para ser uma, precisa-se ser ‘verdadeira’. Fomos, ao mesmo tempo, acusadas de querermos ser homens. Hoje, essa dupla acusação renovou-se com entusiasmo no contexto do movimento de liberação das mulheres por algumas feministas e também, infelizmente, por algumas lésbicas que parecem ter como objetivo político se tornarem cada vez mais ‘femininas’.” (Monique Wittig, 1992)

Recusar-se a ser mulher não significa querer tornar-se homem.  Wittig cita o exemplo da Butch, a mulher vista socialmente como excessivamente ‘masculina’, que causa horror e provoca uma certa repulsa social e que, mesmo ao ‘querer tornar-se homem’, ela está “escapando da sua programação inicial”. A fabricação das mulheres no quadro de pertencimento à classe dos homens é o que indica que as lésbicas não podem ser mulheres nos termos assim impostos. Também não podem tornar-se homens, pois isso exigiria a consciência que eles dispõem das mulheres como suas ‘escravas naturais’. Assim, as lésbicas escapam à dominação masculina imposta através da heterossexualidade, estão fora do alcance dos homens, não pertencem a eles, têm de ser qualquer outra coisa, como uma não-mulher, um não-homem, um produto da sociedade, não um produto da natureza, por isso são acusadas de antinaturais, aberração, desvio. As lésbicas ao se recusarem a tornarem-se ou mesmo permanecerem heterossexuais, se recusam a tornarem-se mulheres ou homens. De forma consciente ou não, essa recusa é uma frente de luta feminista, é uma recusa com implicações políticas, pois as categorias homem e mulher não são naturais, mas sim políticas.

Wittig faz uma crítica às correntes feministas que acreditam nas teses do curso ‘natural evolutivo’ no qual as mulheres eram menos evoluídas que os homens e, quando ambos divergiram, houve como consequência a polaridade como reflexo natural desse curso. Sua crítica é de que essas teses científicas serviram em grande medida para criar o fracasso feminino, a inferioridade feminina e reforçar o ‘mito da mulher’. A tese da igualdade na diferença é para a ela uma armadilha na qual caíram as feministas do início do século XX, elas deixaram em suspenso as contradições entre natureza/cultura – mulher/sociedade. A autora coloca-se, então, a frente de uma luta para derrubar as categorias de mulheres e de homens como classe uniforme, natural e imutável. Sua missão era destruir o mito da mulher como ser natural ou como classe uniforme e a-histórica e destruir simultaneamente o lesbianismo como categoria de sexo recolocando-o como categoria política revolucionária, pois lésbica é o único conceito que está além das categorias de sexo:

Nós somos fugitivas de nossa própria classe da mesma maneira que muitos escravos americanos fizeram para escapar da escravidão e se tornarem livres. Para nós trata-se de uma necessidade absoluta; nossa sobrevivência exige que contribuamos com toda nossa força para a destruição da classe de mulheres que se tornam propriedade dos homens. E isso pode ser alcançado somente com a destruição da heterossexualidade como um sistema social que se baseia na opressão das mulheres pelos homens e que produz a doutrina da diferença entre os sexos como justificativa para essa opressão.

Monique Wittig (Ninguém Nasce Mulher, 1980)

“O Pensamento Hétero” na íntegra:

http://mulheresrebeldes.blogspot.com/2010/07/sempre-viva-wittig.html

Para ler “Ninguém Nasce Mulher”, outra importante contribuição de Wittig ao movimento feminista:

http://mulheresrebeldes.blogspot.com/2009/04/ninguem-nasce-mulher.html


A Heterossexualidade Compulsória e a Existência Lesbiana

Se mulheres são as fontes mais antigas de cuidado emocional e nutrição física tanto para meninos quanto meninas, seria lógico, pelo menos de uma perspectiva feminista, posicionar as seguintes questões: se a busca por amor e ternura em ambos os sexos não levam originalmente às mulheres; por que de fato mulheres deveriam sequer redirecionar essa busca? Por que a sobrevivência da espécie, os meios de reprodução, e as relações emocionais/eróticas deveriam se tornar tão rigidamente identificadas umas com as outras? E por que tais restrições violentas deveriam ser encontradas necessariamente para obter à força total lealdade emocional e erótica das mulheres e subserviência aos homens? Eu duvido que muitas estudiosas feministas tenham tomado as dores de reconhecer as forças societais que extraem as energias emocionais e eróticas delas mesmas e de outras mulheres e de valores identificados nas mulheres. Essas forças, como eu tentarei demonstrar, vão desde escravidão por força física literal ao disfarce e distorção de opções possíveis…” Adrienne Rich (1981)

Em A Heterossexualidade Compulsória e a Existência Lesbiana, Adrienne Rich expõe duas questões que a preocupam. A primeira é como e porque a escolha feita pelas mulheres de gostar de outras mulheres como companheiras e amantes, de compartilhar suas vidas, suas paixões, seus trabalhos, ou de viver em tribo com elas tem sido mal vista, invalidada, condenada à clandestinidade ou à mentira. Na segunda ela se interroga sobre a omissão total ou quase, da existência lésbica em uma vasta extensão de escritos, incluindo os escritos feministas. Ela acredita que não é suficiente para o pensamento feminista que existam textos especificamente lésbicos, pois qualquer teoria ou criação política/cultural que trata a existência lésbica como um fenômeno marginal ou menos ‘natural’, como mera ‘preferência sexual’, ou como imagem refletida ou das relações heterossexuais ou homossexuais masculinas é enfraquecida por meio disso, quaisquer que sejam suas outras contribuições. A Teoria Feminista não pode mais dispor-se meramente a expressar uma tolerância do ‘lesbianismo’ como um ‘estilo de vida alternativo’, ou fazer alusão simbólica às lésbicas. A crítica feminista da orientação heterossexual obrigatória para mulheres está por um longo tempo atrasada.

Em seu ensaio, The Origin of Family”, Kathleen Gough cataloga oito características do poder masculino em sociedades arcaicas e contemporâneas que Adrienne Rich utiliza como esquema para apontar métodos pelos quais os homens exercem seu poder sobre as mulheres (Gough não percebe estas características de poder como reforçando a heterossexualidade especificamente, mas somente como produzindo desigualdade sexual):

1. interdição às mulheres de formas de sexualidade fora de seus domínios, por meio da clitoridectomia e infibulação; cintos de castidade; punição, incluindo a morte, para adultério feminino; punição, incluindo a morte, para a sexualidade lésbica; negação psicanalítica do clitóris; censuras contra a masturbação; negação de sensualidade maternal e pósmenopausal; histerectomias desnecessárias; imagens pseudolésbicas na mídia e literatura; fechamento de arquivos e destruição de documentos referentes à existência lesbiana.

2. a sexualidade masculina é imposta, por meio do estupro (incluindo estupro marital) e espancamento da esposa; do incesto pai-filha, irmão-irmã; da socialização de mulheres para sentirem que o “impulso” sexual masculino corresponde a um direito; da idealização do romance heterossexual na arte, literatura, mídia, publicidade, e assim por diante; casamentos de crianças; casamentos arranjados; da prostituição; do harém; das doutrinas psicanalíticas de frigidez e orgasmo vaginal; das representações pornográficas de mulheres respondendo aprazivelmente à violência sexual e humilhação (uma mensagem que o sadismo heterossexual é mais “normal” que a sensualidade entre mulheres).

3. os homens exploram o trabalho feminino e controlam a produção, através das instituições do casamento e da maternidade nas quais as mulheres são sistematicamente desvalorizadas e exercem trabalho doméstico gratuito; da segregação horizontal de mulheres em trabalho pago; do engodo da mobilidade ascendente simbólica da mulher;  do controle masculino do aborto, contracepção e nascimento de crianças; da cafetinagem; do infanticídio feminino, que rouba as mães de suas filhas e contribui para a desvalorização generalizada das mulheres.

4. a apropriação e a retirada dos filhos por meio do direito-do-pai e do “sequestro legal”; as esterilizações forçadas; o infanticídio sistematizado; a apreensão legal de crianças de mães lésbicas por tribunais de justiça; o tratamento inadequado da obstetrícia masculina; o uso da mãe como “torturadora simbólica” em mutilação genital ou ao amarrar os pés da filha (ou a mente) para ajustá-la ao casamento, são alguns dos modos pelos quais os homens roubam as crianças de suas genitoras.

5. coibir os movimentos corporais das mulheres e impedir seu movimento, por meio do estupro como terrorismo, mantendo as mulheres fora das ruas; da bandagem nos pés; do atrofiamento das capacidades atléticas das mulheres; dos códigos de vestuário “feminino”; do véu; do assédio sexual nas ruas; das prescrições para as mães ficarem em casa em “tempo integral”; da dependência econômica forçada de esposas.

6. o uso das mulheres como objetos de transações masculinas, pelo uso de mulheres como “presentes”; pelo dote ou preço da noiva; pela cafetinagem; pelos casamentos arranjados; pelo uso das mulheres para expor produtos; pelo uso de roupas sensuais para exibicionismo público; pelo uso de mulheres como divertimento para facilitar negócios masculinos, geralmente a esposa como anfitriã ou a garçonete de coquetel vestida para titilação sexual masculina.

7. o corte da criatividade feminina através da caça às bruxas, mulheres inteligentes e curandeiras; a perseguição e massacre de mulheres independentes, “não assimiladas”; a definição das buscas masculinas como mais valiosas do que as femininas em qualquer cultura, de modo que os valores culturais se tornam a personificação da subjetividade masculina; a restrição da satisfação pessoal feminina ao casamento e à maternidade; a exploração sexual de mulheres por homens artistas e professores; a interrupção social e econômica das aspirações criativas das mulheres; o apagamento das tradições femininas e:

8. a retirada das mulheres do domínio de conhecimentos e realizações culturais, por meio da não educação de mulheres; do grande silêncio relativo às mulheres, e particularmente, à existência lesbiana na história e na cultura; da estereotipação de papéis sexuais que desviam mulheres da ciência, tecnologia e outras atividades “masculinas”; dos laços sociais e profissionais masculinos que excluem mulheres; da discriminação contra as mulheres nas profissões.

Estes são alguns dos métodos pelos quais o poder masculino é manifestado e mantido. Olhando para o esquema, o que certamente impressiona é o fato de que nós estamos confrontando não uma simples manutenção de desigualdade e posse de propriedade, mas um agrupamento de forças pervasivo, estendido desde a brutalidade física ao controle de consciência, que sugere que uma enorme contraforça potencial está tendo de ser contida.

Algumas das formas pelas quais o poder masculino manifesta a si mesmo são mais facilmente reconhecíveis como forçando a heterossexualidade para mulheres do que outras. No entanto cada uma listada contribui com o agrupamento de forças dentro do qual mulheres têm sido convencidas que o casamento e a orientação sexual em direção aos homens são inevitáveis, ainda que insatisfatórios ou componentes opressivos de suas vidas. O cinto de castidade, o casamento infantil, o apagamento da existência lésbica (exceto quando vista como exótica ou perversa) na arte, na literatura e no cinema, e a idealização do amor romântico e do casamento heterossexual são algumas das formas óbvias de compulsão, as duas primeiras expressando força física, as outras duas expressando o controle da consciência feminina. Enquanto a clitoridectomia vem sendo atacada por feministas como uma forma de tortura das mulheres, Kathleen Barry primeiro alerta que isso não é apenas um modo de tornar uma menina em uma mulher “apropriada para o casamento” através de uma cirurgia brutal; pretende-se que as mulheres em proximidade íntima dentro de um casamento polígamo não terão relações sexuais entre si, que – partindo de uma perspectiva genital-fetichista masculina – as conexões eróticas femininas, mesmo em uma situação de segregação dos sexos, sejam literalmente extirpadas.

A função da pornografia como influência sobre a consciência é uma grande questão pública de nossos tempos, quando uma indústria multibilionária tem o poder de disseminar imagens visuais cada vez mais sadísticas, degradantes das mulheres. Mesmo a chamada pornografia não explícita e a propaganda, apresentam as mulheres como objetos de apetite sexual destituídos de conteúdo emocional, sem significado individual ou personalidade – essencialmente como uma mercadoria sexual a ser consumida por homens. (A chamada pornografia lésbica, criada para o olhar voyeurístico masculino, é igualmente vazia de conteúdo emocional e personalidade individual). A mensagem mais perniciosa transmitida pela pornografia é a de que as mulheres são presas sexuais naturais dos homens e que elas gostam disso; que sexualidade e violência são congruentes; e que, para as mulheres, o sexo é essencialmente masoquista, a humilhação é prazerosa, o abuso físico é erótico. Porém, junto dessa mensagem vem outra, nem sempre reconhecida: de que a submissão imposta e o uso de crueldade, se exercidas por um casal heterossexual, são sexualmente “normais”, enquanto a sensualidade entre mulheres, inclusive mutualidade erótica e respeito, é “esquisita”, “doentia”, e mesmo pornográfica em si mesma ou não muito excitante, comparada com a sexualidade de chicotes, das cordas e da sujeição. A pornografia não cria simplesmente uma atmosfera na qual sexo e violência seriam permutáveis, ela amplia o conjunto de comportamentos considerados aceitáveis para os homens em seus intercursos heterossexuais – comportamentos que reiteradamente retiram as mulheres de sua autonomia, de sua dignidade e de seu potencial sexual, inclusive o potencial de amar e ser amada por mulheres com mutualidade e integridade.

Os meios de assegurar o acesso sexual masculino às mulheres receberam uma recente investigação minuciosa por Kathleen Barry. Ela documenta evidências extensivas e apavorantes da existência, em uma muito larga escala, da escravidão internacional feminina, a instituição conhecida como “escravidão branca” que de fato, tem envolvido, e neste exato momento envolve, mulheres de todas as raças e classes. Na análise teórica de sua pesquisa, Barry faz a conexão entre todas as situações forçadas sob as quais as mulheres vivem sujeitadas aos homens: prostituição, estupro marital, incesto pai-filha e irmão-irmã, espancamento de esposas, pornografia, preço da noiva, a venda de filhas, purdah, e mutilação genital. Ela vê o paradigma do estupro – onde a vítima da agressão sexual é responsabilizada por sua própria vitimização – levando à racionalização e aceitação de outras formas de escravização onde se presume que a mulher tenha “escolhido” seu destino, que o aceitou passivamente, ou o cortejou perversamente através de comportamento impulsivo ou incasto. Ao contrário, Barry sustenta que “a escravidão sexual feminina está presente em TODAS as situações onde as mulheres ou as meninas não podem mudar as condições de sua existência; onde independente de como elas chegaram a essas condições, por exemplo, pressão social, dificuldades econômicas, confiança mal empregada ou o desejo por afeição, elas não podem escapar; e onde elas são sujeitadas a violência e exploração sexual”. Em vez de “culpar a vítima” ou tentar diagnosticar a sua presumida patologia, Barry direciona seu holofote para a própria patologia da colonização sexual, a ideologia do “sadismo cultural”, representada pela vasta indústria da pornografia e pela identificação global das mulheres primariamente como “seres sexuais cuja responsabilidade é o serviço sexual aos homens”.

Barry delineia o que ela chama de uma “perspectiva de dominção sexual” através da qual o abuso sexual e o terrorismo das mulheres pelos homens têm sido apresentados de modo quase invisível, por serem tratados como naturais e inevitáveis. A partir deste ponto de vista, as mulheres são consumíveis enquanto as necessidades sexuais e emocionais do macho possam ser satisfeitas. O propósito político do seu livro é substituir esta perspectiva de dominação por um modelo universal de liberdade básica para as mulheres da violência específica de gênero, das restrições de movimento, do direito masculino de acesso sexual e emocional. Como Mary Daly em Gyn/Ecology, Barry rejeita as racionalizações estruturalistas ou outras racionalizações relativistas culturais para a tortura sexual e a violência anti-mulher. Em seu capítulo introdutório, ela pede a suas leitoras que elas rejeitem todas as fugas convenientes de ignorância e negação. “A única maneira que nós podemos sair do esconderijo, romper nossas defesas paralisantes, é saber tudo isto – toda a ampla extensão da violência sexual e da dominação das mulheres… Ao sabermos, ao encararmos diretamente, nós podemos aprender a mapear nosso caminho para fora desta opressão, ao visionar e criar um mundo que impedirá a escravidão sexual feminina… Até nomearmos sua prática, darmos sua definição conceitual e sua forma, ilustrarmos sua vida ao longo do tempo e no espaço, aquelas que são suas mais óbvias vítimas não serão capazes de nomeá-la ou definir sua experiência.”

Mas todas as mulheres, de maneiras e em graus diferentes, são suas vítimas; e parte do problema de nomear e conceituar a escravidão sexual feminina é, como Barry vê claramente, a heterossexualidade compulsória. A heterossexualidade compulsória facilita o trabalho do proxeneta e do cafetão nos círculos mundiais de prostituição e “centros eróticos”, enquanto, na privacidade do lar, leva a filha a “aceitar” o incesto/estupro por seu pai, a mãe a negar que isto esteja acontecendo, a esposa agredida a continuar vivendo com um marido abusivo. “Agir como amigo ou cupido” é a principal tática atrativa do proxeneta, cujo trabalho é dirigir a menina fugitiva ou confusa para o cafetão. A ideologia do romance heterossexual, irradiada nela desde a infância por meio dos contos de fada, da televisão, do cinema, da propaganda, das canções populares e da pompa dos casamentos, é um instrumento pronto para as mãos do proxeneta e um que ele não hesita em usar, como Barry amplamente documenta. A doutrinação feminina precoce do “amor” como uma emoção pode ser em grande medida um conceito ocidental; mas uma ideologia mais universal diz respeito a primazia e a incontrolabilidade do impulso sexual masculino. Esta é uma das muitas compreensões oferecidas pelo trabalho de Barry:

Quando o poder sexual é aprendido por garotos adolescentes através da experiência social do seu impulso sexual, as garotas também aprendem que o lócus do poder sexual é masculino. Dada a importância colocada sobre o impulso sexual masculino na socialização das garotas assim como dos garotos, o início da adolescência é provavelmente a primeira fase significante de identificação masculina na vida e desenvolvimento de uma garota… Quando uma garota se torna consciente de seus sentimentos sexuais crescentes… ela se distancia de suas relações, até então, primárias com suas amigas. Quando elas se tornam secundárias para ela, perdem a importância que tinham na vida dela, a própria identidade dela também assume um papel secundário e ela cresce em identificação com os homens.

O efeito da identificação com os homens significa “internalizar os valores do colonizador e participar ativamente na realização da colonização de seu eu e de seu sexo… Identificação com os homens é o ato pelo qual as mulheres colocam os homens acima das mulheres, incluindo elas mesmas, em credibilidade, status e importância na maioria das situações, desconsiderando a qualidade comparativa que as mulheres possam trazer para a situação… A interação com mulheres é vista como uma forma menor de se relacionar em todos os níveis.” O que merece investigação adicional é o pensamento-duplo em que muitas mulheres se empenham e do qual nenhuma mulher está permanentemente e totalmente livre por mais que relações de mulher-para-mulher, redes de apoio feminino, sistemas de valores femininos e feministas, sejam apreciados e depositada confiança, a doutrinação na credibilidade e status masculino pode ainda criar sinapses no pensamento, negações de sentimento, criação ilusória de fatos que se desejaria que fossem realidade, uma confusão sexual e intelectual profunda.

Nós ainda precisamos nos perguntar por que algumas mulheres nunca, nem temporariamente, “se distanciam de suas relações, até então primárias” com outras mulheres. E por que a identificação com os homens – o direcionamento da própria lealdade social, política e intelectual aos homens – existe entre mulheres que são lésbicas durante toda a vida? A hipótese de Barry nos lança entre novas questões, mas ela elucida a diversidade de formas nas quais a heterossexualidade compulsória se apresenta. Na mística do impulso sexual masculino dominador, vitorioso, o pênis-com-uma-vida-própria, está enraizada a lei do direito sexual masculino às mulheres, que justifica a prostituição como uma suposição cultural por um lado, enquanto defende a escravidão sexual dentro da família com base na “privacidade familiar e singularidade cultural” por outro lado. O impulso sexual masculino do adolescente, que assim como as mulheres e os homens jovens são ensinados, uma vez provocado, não pode tomar responsabilidade por si mesmo ou tomar um não como resposta, tornando-se, segundo Barry, a norma e a razão física para o comportamento sexual masculino adulto, uma condição de desenvolvimento sexual obrigatória. As mulheres aprendem a aceitar como natural a inevitabilidade deste “impulso” porque nós o recebemos como dogma.

Considerando o desenvolvimento sexual obrigatório que é compreendido a ser normal na população masculina, e considerando o número de homens que são cafetões, proxenetas, membros de gangues de escravidão, oficiais corruptos que participam neste tráfico, proprietários, operadores, empregados de bordéis e alojamentos e instalações de entretenimento, provedores de pornografia, associada com a prostituição, espancadores de esposas, molestadores de crianças, perpetradores de incesto, clientes e estupradores, uma pessoa não poderia não ficar momentaneamente atordoada pela enorme população masculina comprometida com a escravidão sexual feminina. O imenso número de homens engajados nestas práticas devia ser motivo para declaração de uma emergência internacional, uma crise de violência sexual. Mas o que devia ser motivo para alarme é em vez disso aceito como coito sexual normal.

 Kathleen Barry, Female Sexual Slavery (1979).

Susan Calvin, em sua rica e provocadora, se altamente especulativa, dissertação sugere que o patriarcado se torna possível quando o grupo feminino original, que inclui crianças mas ejeta machos adolescentes, vem a ser invadido e excedido em número por machos; que não o casamento patriarcal, mas o estupro da mãe pelo filho, vem a ser o primeiro ato de dominação masculina. A entrada à força, ou alavancagem, que permite que isto aconteça não é somente uma simples mudança nas relações de sexo; ela é também a ligação mãe-criança, manipulada por machos adolescentes a fim de permanecerem dentro da matriz passada a idade de exclusão. A afeição maternal é usada para estabelecer o direito masculino de acesso sexual, que, entretanto, deve ser desde então mantido por força (ou através do controle de consciência) já que a ligação adulta profunda original é aquela da mulher com a mulher. (Lesbian Origins, 1978)

“Eu acho esta hipótese extremamente sugestiva, já que uma forma da falsa consciência que serve a heterossexualidade compulsória é a manutenção de um relacionamento mãe-filho entre mulheres e homens, incluindo a demanda que as mulheres forneçam conforto maternal, nutrição incondicional, e compaixão para seus assediadores, estupradores, e espancadores (assim como para os homens que as vampirizam passivamente) quantas mulheres fortes e assertivas não aceitam postura masculina de ninguém mas dos seus filhos?

Mas seja qual for a sua origem, quando nós olhamos firme e completamente para a extensão e elaboração das medidas projetadas para manter as mulheres dentro de um confinamento sexual masculino, se torna uma questão inescapável se o assunto que temos que nos dedicar como feministas não é somente ‘desigualdade de gênero’, nem a colonização da cultura pelos homens, nem os tabus contra a homossexualidade, mas o da obrigatoriedade da heterossexualidade para as mulheres como um meio de assegurar um direito masculino de utilização física, econômica e emocional. Um de muitos meios de coação é, logicamente, tornar invisível a possibilidade lesbiana, um continente engolfado que frequentemente levanta-se de tempos em tempos somente para se tornar submerso outra vez. A pesquisa e teoria feministas que contribuem com a invisibilidade ou marginalidade lesbiana estão trabalhando realmente contra a libertação e empoderamento das mulheres como um grupo.

A suposição que ‘a maioria das mulheres é naturalmente heterossexual’ coloca-se como um obstáculo teórico e político para muitas mulheres. Ela permanece como uma suposição convincente, parcialmente porque a existência lesbiana tem sido escrita fora da história ou catalogada na categoria de doença; parcialmente porque ela tem sido tratada como excepcional em vez de intrínseca; parcialmente porque reconhecer que para mulheres a heterossexualidade pode não ser uma ‘preferência’ de qualquer maneira, mas algo que tem de ser imposto, controlado, organizado, propagandeado e mantido pela força, é um passo imenso a tomar se você se considera livremente enaturalmente’ heterossexual. Ainda a incapacidade de considerar a heterossexualidade como uma instituição é como a incapacidade de admitir que o sistema econômico nomeado capitalismo ou o sistema de casta do racismo é mantido por um conjunto de forças que compreendem tanto a violência física quanto a falsa consciência. Tomar o passo de questionar a heterossexualidade como uma ‘preferência’ ou ‘escolha’ para mulheres – e efetuar o trabalho intelectual e emocional que segue – chamará por uma qualidade especial de coragem em feministas identificadas heterossexualmente, mas eu penso que as recompensas serão grandes: uma libertação do pensamento, a exploração de novos caminhos, a quebra de um outro grande silêncio, nova clareza nas relações pessoais.” Diz Rich.

Adrienne Rich utiliza as terminologias “continuum lésbico e existência lesbiana em contrapartida à conotação clínica, pejorativa e limitada do termo lesbianismo. Existência lesbiana sugere tanto o fato da presença histórica das lésbicas quanto a criação contínua dos significados dessa própria existência. Por meio do termo “continuum lésbico”, Rich pretende incluir uma extensão – através da vida de cada mulher e ao longo da história – de experiências identificadas com a mulher, não simplesmente o fato que uma mulher tenha tido ou conscientemente tivesse desejado uma experiência sexual genital com outra mulher, mas ampliá-lo para abraçar muito mais formas de intensidade primária entre mulheres, incluindo o compartilhamento de uma vida interior rica, o vínculo contra a tirania masculina, o dar e receber de apoio prático e político, associações como resistência ao casamento e o comportamento “selvagem” identificado por Mary Daly (com significados obsoletos como “intratável”, “teimosa”, “licenciosa” e “impudica”, “uma mulher relutante em render-se a cortejos”).

Considerando que todas as mulheres da criança mamando no seio de sua mãe, até a mulher crescida experimentando sensações orgásticas enquanto dá de mamar para sua filha, talvez lembrando o cheiro do leite de sua mãe em seu próprio leite; até duas mulheres como Chloe e Olivia, de Virginia Woolf, que compartilham um laboratório; até a mulher morrendo aos noventa anos, tocada e amparada por mulheres existem em um continuum lésbico, todas as mulheres podem se ver como a mover-se para dentro e para fora deste continuum, mesmo as que não se identificam como lésbicas. Isto nos permite conectar aspectos da identificação das mulheres tão diversos como as amizades das meninas de oito ou nove anos, tão íntimas e impudentes, e as associações daquelas mulheres dos séculos doze e quinze, conhecidas como Beguines, que “dividiam e alugavam casas umas para as outras, as deixavam de herança para suas companheiras de quarto… casas baratas subdivididas nas áreas dos artesãos da cidade”, que “praticavam a virtude cristã por si mesmas, vestindo-se e vivendo de maneira simples e não se associando com homens”, que ganhavam a vida como fiandeiras, doceiras, enfermeiras, ou mantinham escolas para meninas, e que conduziram – até a Igreja as forçarem a dispersar – uma vida independente tanto do casamento quanto das restrições dos conventos. Isso nos permite conectar estas mulheres com as mais celebradas “Lésbicas” da escola de mulheres ao redor de Safo do sétimo século A.C., com as irmandades e redes econômicas presentes entre mulheres Africanas, e com irmandades Chinesas de resistência ao casamento comunidades de mulheres que recusaram o matrimônio ou que, se casadas, frequentemente se recusavam a consumar o casamento e logo abandonavam seus maridos as únicas mulheres na China que não tiveram seus pés amarrados e que, segundo Agnes Smedley, festejavam os nascimentos de meninas e organizavam greves bem-sucedidas de mulheres nas fábricas de seda. Isso nos permite conectar e comparar exemplos individuais díspares de resistência ao casamento: por exemplo, o tipo de autonomia reivindicado por Emily Dickinson, uma mulher branca genial do século XIX, com as estratégias disponíveis a Zora Neale Hurston, uma mulher negra genial do século XX. Dickinson nunca se casou, teve amizades intelectuais bem tênues com homens, viveu autoenclausurada na casa distinta de seu pai e passou toda a sua vida escrevendo cartas apaixonadas a sua amiga Kate Scott Anthon. Hurston casou duas vezes, mas logo abandonou seus dois maridos, enfrentou um longo caminho da Flórida para Harlem e para a Universidade de Columbia, daí para o Haiti, e finalmente de volta à Flórida, movendo-se para dentro e para fora do patronado branco e da pobreza, do sucesso profissional e do fracasso. Suas relações de sobrevivência foram todas com mulheres, começando com sua mãe. Essas duas mulheres, em suas circunstâncias imensamente diferentes, resistiram ao casamento, comprometidas com seu próprio trabalho e com sua pessoalidade, mas depois foram caracterizadas como “apolíticas”, arrastadas para homens com qualidades intelectuais. Para ambas, as mulheres forneceram a fascinação e o apoio constantes em vida.

Se pensarmos na heterossexualidade como a inclinação emocional e sexual natural para as mulheres, vidas como essas seriam consideradas desviantes, patológicas ou destituídas emocionalmente e sensualmente. Ou, em jargão mais atual e permissivo, elas são banalizadas como “estilos de vida”. E o trabalho dessas mulheres – mesmo se meramente o trabalho cotidiano de sobrevivência ou resistência individual e coletiva, ou o trabalho da escritora, da ativista, da reformadora, da antropóloga ou da artista – o trabalho de autocriação – é depreciado e visto como o fruto amargo da “inveja do pênis”, ou a sublimação de erotismo reprimido ou a diatribe sem sentido de uma “odiadora de homens”. Mas quando mudamos o ângulo de visão e consideramos o grau e os métodos pelos quais a “preferência” heterossexual tem sido realmente imposta às mulheres, poderemos não apenas entender de maneira diferente o significado do trabalho e de vidas individuais, mas começamos a reconhecer um fato central da história das mulheres: que elas sempre resistiram à tirania masculina. Um feminismo de ação, frequentemente, embora nem sempre, sem teoria, tem reemergido constantemente em toda cultura e em todos os tempos. Podemos, então, começar a estudar a luta das mulheres contra a falta de poder, a rebelião radical das mulheres, não apenas em “situações revolucionárias concretas” definidas em termos masculinos , mas em todas as situações em que ideologias masculinas não as tenham visto como revolucionárias – por exemplo, a recusa de algumas mulheres de gerar filhos, ajudadas, sob grande risco, por outras mulheres ; a recusa de contribuir com um padrão mais elevado de vida e de lazer para os homens (ambas são parte da contribuição econômica das mulheres, que não é plenamente reconhecida, nem paga, nem garantida por meios sindicais); a sexualidade feminina antifálica que, conforme notada por Andrea Dworkin, tem sido “legendária”, que, definida como “frigidez” e “puritanismo”, tem sido verdadeiramente uma forma de subversão do poder masculino. Não podemos ter paciência com a visão de Dorothy Dinnerstein de que as mulheres têm simplesmente colaborado com os homens nos “arranjos sexuais” da história. Começamos a observar tanto na história como nas biografias individuais, o comportamento que tem sido até o momento invisibilizado e inominado, comportamento que, frequentemente, dados os limites da contraforça exercidos em determinado tempo e lugar, constitui rebelião radical. E nós podemos conectar tais rebeliões e sua necessidade com a paixão física de mulher para mulher que é central para a existência lésbica: a sensualidade erótica que tem sido, precisamente, o fato mais violentamente apagado da experiência feminina.

lesbians

Em sua crítica à obrigatoriedade da heterossexualidade, Rich reposiciona as mulheres em seu potencial emancipatório através dos grupos de mulheres, das associações entre mulheres. A militância, as organizações, a união das mulheres formam um complexo de resistências à escravidão, à violência, ao estupro, às várias formas de dominação masculina. Assim como Monique Wittig, ela compreende que a heterossexualidade é um regime político que se funda na apropriação da classe de mulheres, coletiva e socialmente pela classe de homens. Apresentada na categoria da lésbica em contraposição à categoria mulher nos textos de Monique Wittig, ou no conceito de Adrienne Rich da existência lésbica associada ao conceito de continuum lésbico como práticas entre mulheres em contraposição às representações correntes do que as mulheres são – estabelecidas pelos vínculos com homens e com instituições masculinas –podemos encontrar nos escritos das duas autoras a crítica radical à instituição do heterossexualismo, que vem mantendo o domínio masculino regulamentando o acesso dos homens às mulheres e trabalhando para invisibilizar e eliminar da história a realidade da existência lésbica, por não conseguir enquadrá-la em seus parâmetros.

A existência lesbiana compreende tanto a ruptura de um tabu como o rechaço de um modo de vida obrigatório. Também é um ataque direto e indireto ao direito masculino de acesso às mulheres… Podemos dizer que há um conteúdo político nascente no ato de eleger a uma amante ou a uma companheira de vida mulher frente à heterossexualidade institucionalizada. Mas para que a existência lesbiana complete este conteúdo político em uma forma liberadora até as últimas consequências, a decisão erótica deve aprofundar-se e expandir-se em uma identificação feminina consciente: em um feminismo lésbico.” Adrienne Rich (Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence)

Desconstrua Isto!

20 fev

Por Alix Dobkin

Do Chicago OUTLINES 21 de Outubro, 1998

“Homofobia” e “Lesbofobia” são dois termos tão diferentes um do outro como os homens são das mulheres. E como homens e mulheres, não são permutáveis. “Homofobia” significa medo de SER homossexual. “Lesbofobia” significa medo de LÉSBICAS, significando mulheres sem homens.

Você vê como mulheres são facilmente feitas a desaparecerem. Uma manchete para uma história de off our backs a respeito da Conferência Nacional de Estudos de Mulheres de 1998 fala por si própria. “As Políticas das Comunidades Lésbica, Gay, Bissexual e Transgênero”, apontam diretamente para onde os Estudos Nacionais de Mulheres estão focalizando agora a atenção: NÃO em mulheres e mais definitivamente NÃO nessa antiga e esgotada coisa de papel sexual, dominação/subordinação, poder/controle, que nos inflamou nos anos 70 e ainda está muito no lugar.

Certo, então O QUE o pósmodernismo tem a dizer sobre a escravidão sexual feminina, classe feminina, tetos de vidro? Movendo-se adiante, “Gênero” é “líquido” e “a Polícia de Limites” é “autoritária”, notou uma oradora da Conferência Nacional de Estudos de Mulheres que também declarou que, “… a demanda por limites claros fere mais do que nos ajuda…”. Mas não importa como as marés de gênero fluam e as areias de gênero se desloquem, você pode ter certeza que homens governarão esta praia.

Sim, eu sei que a vida é incerta e que não há nenhuma garantia. Eu estudei a “Dialética” Marxista que diz que “mudança” é a única constante. Eu fui educada nela e compreendo mudança. Mas desde quando “identidade”, “rótulos” e “limites” se tornaram repentinamente suspeitos? Quando Lésbicas os obtiveram, isso foi quando. Pois tão logo nós descobrimos e começamos a celebrar nossos eus femininos nós fomos acusadas de “Políticas de Identidade” e banidas para o borrão da ambiguidade onde todo mundo é “socialmente construído”, “líquido”, “performativo”, “desempenha códigos de gênero” e ninguém, particularmente Lésbicas, podem realmente saber quem são. Jogos de fumaça e espelho são perpetrados por aqueles que pretendem estar no controle quando a fumaça se retirar, e contrariamente à linha partidária atual, eu amo a “identidade” e “limites” dos quais dependem minha política para ter posição e direção.

“O pessoal é político” é sobre agir responsavelmente e permanecer responsável. Feminismo é a política mais ética, coerente, compreensiva, prática, espiritual e divertida que eu já encontrei, e eu já encontrei bastante, acredite em mim! Feminismo é esperto e muito perigoso, que é o que os homens gostam de pensar sobre eles mesmos.

Os Estudos de Mulheres lutaram duramente para ser reconhecidos, e mesmo então têm recebido menos suporte e devem lutar mais duramente por financiamento do que outros programas da Universidade preocupados com disciplinas “mais importantes” (leia, “masculinas”). Todavia os Estudos de Mulheres têm se tornado muito mais bem sucedidos do que os homens gostariam e consequentemente muito menos suportáveis. O Feminismo navegou por cima das cabeças dos homens e fora da estimativa deles, deixando-os atordoados na poeira do seu pensamento antiquado. “Ei”, eles gritaram, “aquelas garotas estão ganhando toda a atenção e nós estamos sendo deixados de fora!” Eles se perguntaram, “Como nós podemos tornar o que está ALÉM DE NÓS, A RESPEITO DE NÓS?” E mais rápido do que você pode dizer “construcionismo social pósmoderno” eles foram para a França e voltaram com teoria de “Gênero/Queer” para substituir “Estudos de Mulheres”, como “trabalhador de reposição” estava substituindo “fura-greve”, “de segunda mão” substituindo “usado”, e “limpeza étnica” substituindo “genocídio”.

Após vinte séculos de somente-homens focalizando somente em homens, eles agora foram forçados a encarar mulheres, a quem disseram então, “Certo, o bastante sobre nós. O que VOCÊS pensam sobre nós?” Algumas mulheres sentiram que a vida era muito curta e não poderiam ser incomodadas.

Algumas mulheres acreditaram que os homens poderiam usar “Gênero” e “Queer” para mudar seu mau comportamento, de maneira que elas fizeram um esforço para ajudar. E algumas mulheres viram como poderiam usar “Gênero” e “Queer” para fazerem carreiras e elas ajudaram a si mesmas. Entra em cena Camille Paglia, Katie Roiphe, Judith Butler e enxames de restauracionistas que, capitalizando em cima do terror dos homens, aceleraram o resgate, colocando os homens agradecidos em conforto, e os cérebros de uma geração para dormir.

Ao ponto onde hoje em dia as feministas radicais lutam para manter “mulheres” no currículo e elas mesmas na faculdade. Entrementes, jovens que pretendem ser feministas lutam para permanecer acordadas por causa de soníferas palavras de efeito do jargão obscuro, ameaçador, como “polícia de limites”, “autoritária” e “políticas de identidade”.

Nós temos ouvido sobre a “brecha entre gerações” na Comunidade Lésbica, e como “mulheres jovens atualmente apenas ‘não entendem’ o feminismo.” Mas eu estou aqui para lhes dizer que eu tenho falado com e ouvido de um grupo inteiro de Lésbicas em sua adolescência e vinte anos que estão muito ligadas e muito furiosas com o backlash patriarcal, anti-feministas conspiratórios de papo furado que as têm roubado de sua história e herança. Para esses colaboradores nós dizemos, que vergonha!

O Verbo de Gênero & Outras Notas de Três Dólares*

Por Alix Dobkin

Do Chicago OUTLINES 11 de Novembro, 1998

Ghandi é admitido ter dito, “Primeiro eles nos ignoram, em seguida nos ridicularizam, depois nos atacam, então nós vencemos.” Se Ghandi tivesse vivido tempo suficiente ele poderia ter adicionado “então eles nos confundem” à sua lista de métodos táticos opressivos.

Tiranos conhecem e temem o poder de falar a verdade, e Ghandi poderia ter notado que logo depois que o Feminismo começou a falar a Verdade sobre o Poder Patriarcal, “Verdade” se tornou ininteligível, e “Poder” se tornou irreconhecível. Pois como “Gênero” incapacita “Mulheres” na Academia, assim também “Queer” realmente apaga “Lésbica” nas ruas. Juntos eles têm confundido, desviado e enchido de lama seu caminho até o pior inimigo do Patriarcado, o Feminismo Lésbico.

O que realmente me irrita é esse círculo de acadêmicas estáveis de mais-de-cinquenta anos que conduzem a marcha forçada em direção oposta à análise feminista que elas descartam com jargão ameaçador tal como “feminismo cultural” e “políticas de identidade”. Estas pessoas pensam realmente que “gênero” é um verbo. Elas “desempenham” gênero, “performam” gênero, e fazem mingau da genuína mudança da vida, o feminismo radical de anos passados, que é como algumas de nós ainda reconhecemos papéis sexuais e sistemas de superioridade de poder do domínio masculino.

Em vez de eliminar mulheres, o estudo de gênero apropriado revelaria como os homens fazem o que, e a quem, confrontaria o mau comportamento institucional dos homens e os ajudaria a se tornarem menos auto-referentes, odiosos e destrutivos.

A boa notícia é que alguns homens estão começando realmente a perceber e rejeitar “masculinidade” tóxica para se tornarem humanos. A má notícia é que pateticamente pouco disto ocorre na Academia.

Além de expor o domínio masculino, estudantes educados a respeito de gênero revelariam que a exibição decorativa representada como “feminina” é, de fato, ruidosamente “masculina”. Para evidência nós temos simplesmente que referir ao “reino” animal ou das aves, onde os machos são normalmente apresentados muito mais belamente do que as fêmeas. Restringir “embelezamento” às fêmeas contradiz a mãe natureza. Quem, afinal, inventou e administra isto? Eu tenho observado frequentemente que qualquer drag queen de segunda-classe pode facilmente sobrevestir Elizabeth Taylor. (Teriam um tempo mais difícil ultrapassando Dolly Parton, a quem a aparência drag é um disfarce e um tíquete refeição mais do que um imperativo interno.)

“Então, por que”, você pode perguntar, “são atribuídas exclusivamente às mulheres as funções e imagem tão naturalmente adequadas aos homens?”

Aha!

Agora nós estamos adentrando no DOMÍNIO e SUBMISSÃO, o coração e a alma do Patriarcado, onde a “masculinidade” denota domínio e a “feminilidade” sinaliza submissão. É tão simples quanto isso. E tão complicado. Pois em um mundo conduzido por intimidadores, naturezas humanas individuais verdadeiras devem ser deturpadas em papéis distorcidos que exigem aparências, comportamentos, expectativas, etc, falsificadas à exaustão.

Porque os homens são afastados da criação da vida no apavorante mundo real, eles constroem um mundo falsificado onde os homens DEVEM dominar, e as mulheres DEVEM se submeter. Mas já que isto é tão NÃO NATURAL, os desvios aparecem subitamente como espinhas em um adolescente. Consequentemente, o Patriarcado precisa monitorar a maneira que adolescentes necessitam de creme para espinha.

A exibição masculina no mundo natural serve para atrair a fêmea indiferente da espécie. No mundo não natural do Patriarcado, os homens vestem-se principalmente para situarem melhor a si mesmos em hierarquias que são facilmente lidas, conformadas e reforçadas. Desta maneira os homens distinguem quem dirigem e quem os dirige. Hierarquias sociais confiáveis, familiares, como as forças armadas, os ajudam a se sentirem confortavelmente seguros e repelir o medo. E quando se trata de vestir papéis-sexuais codificados, homens são prováveis a se tornarem extremamente melindrosos. Afinal, eles assassinaram Joana D’Arc não por ouvir vozes, mas por usar roupas de homens.

Além disso, embora ativamente heterossexual, a maioria dos cross dressers, como J. Edgar Hoover, devem se vestir em segredo de modo a não serem espancados por homens muito medrosos para usarem vestidos eles mesmos. Muitas mulheres parecem gostar do travestismo masculino também, mas no Patriarcado é impossível saber o que é autêntico. As mulheres escolheriam usar os vestidos dos homens, seu batom, seu salto alto e seu decote fora do Patriarcado? Ou elas estão meramente tentando evitar a desaprovação? Ninguém que vive em um mundo não natural pode saber com certeza.

A popularidade recente dos eventos de “Drag King” para mulheres diz mais a respeito de esforços superficiais para resolver desequilíbrios de poder do que sobre exibição feminina. Ela também demonstra com quem as jovens Lésbicas têm andado, a sensibilidade de quem elas têm absorvido, e a quem têm procurado sua identidade. O que nos traz de volta ao “Queer,” onde uma geração de jovens Lésbicas tem sido educada, onde as ideias e paixões de Feministas Lésbicas frequentemente parecem estrangeiras, a quem a experiência de espaços somente de mulheres parece estranha, e para quem a consciência Lésbica desvaneceu em homens de todos os “gêneros” e “Queers” de todas as nações.

* N.T: Uma nota de três dólares significa algo falso, que não deveria existir.

A Causa Raiz

23 set

[Pronunciada no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Cambridge, 26 de Setembro, 1975.]

E as coisas a melhor saber são antes de tudo princípios e causas. Por através delas e a partir delas todas as outras coisas podem ser sabidas…
–Aristóteles, Metafísica, Livro I

Eu quero falar-lhes hoje à noite sobre algumas realidades e algumas possibilidades. As realidades são brutais e selvagens; as possibilidades podem parecer-lhes, muito francamente, impossíveis. Eu quero lembrar-lhes que havia uma época em que todo o mundo acreditava que a terra era plana. Toda a navegação era baseada nesta crença. Todos os mapas eram delineados às especificações desta crença. Eu chamo-a de uma crença, mas naquele tempo ela era uma realidade, a única realidade imaginável. Era uma realidade porque todo o mundo acreditava que era verdade. Todo o mundo acreditava que era verdade porque parecia ser verdade. A terra parecia plana; não havia nenhuma circunstância em que ela não tinha extremidades distantes nas quais alguém poderia cair; as pessoas admitiam que, em algum lugar, havia a extremidade final além da qual não havia nada. A imaginação era limitada, como ela é na maioria das vezes, por sentidos físicos inerentemente limitados e culturalmente condicionados, e esses sentidos determinaram que a terra fosse plana. Este princípio da realidade não era somente teórico; ele tinha efeitos. Os navios nunca navegavam muito longe em qualquer direção porque ninguém queria navegar fora da extremidade da terra; ninguém queria morrer a terrível morte que resultaria de um ato tão descuidado, estúpido. Nas sociedades em que a navegação era uma atividade principal, o medo de tal destino era vívido e apavorante.

Agora, conforme consta, de algum modo um homem chamado Cristóvão Colombo imaginou que a terra era redonda. Ele imaginou que alguém poderia chegar ao Extremo Oriente navegando para o ocidente. Como ele concebeu esta idéia, nós não sabemos; mas ele a imaginou, e uma vez que a tinha imaginado, ele não poderia esquecê-la. Por muito tempo, até que ele encontrou a Rainha Isabella, ninguém o escutaria ou consideraria sua idéia porque, claramente, ele era um lunático. Se algo era certo, era que a terra era plana. Agora nós olhamos retratos da terra tirados do espaço, e nós não lembramos que uma vez havia uma crença universal que a terra era plana.

Esta história foi repetida muitas vezes. Marie Curie teve a idéia peculiar que havia um elemento não descoberto que fosse ativo, sempre variável, vivo. Todo o pensamento científico era baseado na noção que todos os elementos eram inativos, inertes, estáveis. Ridicularizada, negada um laboratório apropriado pelo estabelecimento científico, condenada à pobreza e à obscuridade, Marie Curie, com seu marido, Pierre, trabalhou implacavelmente para isolar o rádio que era, em primeira instância, uma invenção de sua imaginação. A descoberta do radio destruiu inteiramente a premissa básica em que a física e a química foram construídas. O que tinha sido real até sua descoberta já não era mais real.

Os conhecidos princípios provados-e-verdadeiros da realidade, então, acreditados universalmente e aderidos com ímpeto, são frequentemente formados a partir de profunda ignorância. Nós não sabemos o que ou quanto nós não sabemos. Ignorando nossa ignorância, mesmo que ela tenha sido revelada para nós repetidas vezes, nós acreditamos que a realidade é tudo o que nós sabemos.

Tamara de Lempicka-Adam and Eve, 1932Um princípio básico da realidade, acreditado universalmente e aderido com ímpeto, é que há dois sexos, homem e mulher, e que estes sexos não são somente distintos um do outro, mas são opostos. O modelo usado frequentemente para descrever a natureza destes dois sexos é aquele de pólos magnéticos. O sexo masculino é vinculado ao pólo positivo, e o sexo feminino é vinculado ao pólo negativo. Postos em proximidade um com o outro, os campos magnéticos destes dois sexos são admitidos a interagir, trancando os dois pólos juntos em um todo perfeito. Desnecessário dizer, dois pólos semelhantes postos em proximidade são admitidos a repelirem-se.

O sexo masculino, de acordo com sua designação positiva, tem qualidades positivas; e o sexo feminino, de acordo com sua designação negativa, não possui qualquer das qualidades atribuídas ao sexo masculino. Por exemplo, de acordo com este modelo, os homens são ativos, fortes e corajosos; e as mulheres são passivas, fracas, e medrosas. Ou seja, o que os homens são, as mulheres não são; o que os homens podem fazer as mulheres não podem; todas as capacidades que os homens têm as mulheres não têm. O homem é o positivo e a mulher é seu negativo.

SexismoApologistas deste modelo reivindicam que ele é moral porque é inerentemente igualitário. Cada pólo é admitido ter a dignidade de sua própria identidade separada; cada pólo é necessário para um todo harmonioso. Esta noção, naturalmente, é enraizada na convicção que as reivindicações feitas a respeito das características de cada sexo são verdadeiras, que a essência de cada sexo está corretamente descrita. Em outras palavras, dizer que o homem é o positivo e a mulher é o negativo é como dizer que a areia é seca e a água é molhada – a característica que mais descreve a própria coisa é nomeada de uma maneira verdadeira e nenhum julgamento no valor destas características de diferenciação é subentendido. Simone de Beauvoir expõe a falácia desta doutrina de “separado, mas igual” no prefácio de O SEGUNDO SEXO:

Na realidade a relação dos dois sexos não é . . . como aquela de dois pólos elétricos, porque o homem representa o positivo e o neutro, como é indicado pelo uso comum de homem para designar seres humanos em geral; enquanto que a mulher representa somente o negativo, definida por critérios restritivos, sem reciprocidade…. “A fêmea é uma fêmea em virtude de certa falta de qualidades,” disse Aristóteles; “nós devemos considerar a natureza feminina como afligida por uma falha natural.” E São Tomás pelo que lhe diz respeito pronunciou que a mulher é “um homem imperfeito,” um ser todo “incidental” . . .

Assim, a humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mesma, mas relativa a ele; ela não é considerada um ser autônomo.

Esta visão doente da mulher como o negativo do homem, “fêmea em virtude de certa falta de qualidades,” contamina toda a cultura. É o câncer no intestino de cada sistema político e econômico, de cada instituição social. É a podridão que estraga todos os relacionamentos humanos, infesta toda a realidade psicológica humana, e destrói a verdadeira fibra da identidade humana.

Esta visão patológica da negatividade feminina tem sido forçada em nossa carne por milhares de anos. A mutilação selvagem do corpo feminino, empreendida para distinguir-nos absolutamente dos homens, tem ocorrido em uma escala maciça. Por exemplo, na China, por mil anos, os pés das mulheres foram reduzidos a tocos através do enfaixamento de pés. Quando uma garota tinha sete ou oito anos, seus pés eram lavados em alume, uma substância química que causa encolhimento. Então, todos os dedos dos pés exceto os dedões eram dobrados nas solas de seus pés e enfaixados tão firmemente quanto possível. Este procedimento era repetido várias vezes por aproximadamente três anos. A menina, em agonia, era forçada a andar com os próprios pés. Calos duros se formavam; as unhas dos dedos dos pés cresciam dentro da pele; os pés se enchiam de pus e sangravam; a circulação era parada realmente; frequentemente os dedões caiam. O pé ideal era três polegadas de carne fedorenta, apodrecida. Os homens eram positivos e as mulheres eram negativas porque os homens podiam andar e as mulheres não podiam. Os homens eram fortes e as mulheres eram fracas porque os homens podiam andar e as mulheres não podiam. Os homens eram independentes e as mulheres eram dependentes porque os homens podiam andar e as mulheres não podiam. Os homens eram viris porque as mulheres foram aleijadas.foot binding

Esta atrocidade cometida contra as mulheres Chinesas é somente um exemplo do sadismo sistemático expresso nos corpos das mulheres para tornar-nos opostas aos, e os negativos dos, homens. Nós fomos, e somos, chicoteadas, açoitadas, e agredidas; nós fomos, e somos, encaixadas em roupas projetadas para distorcer nossos corpos, para tornar os movimentos e a respiração dolorosos e difíceis; nós fomos, e somos, transformadas em ornamentos, tão privadas de presença física que nós não podemos correr ou saltar ou escalar ou mesmo andar com uma postura natural; nós fomos, e somos, veladas, nossos rostos cobertos por camadas de panos sufocantes ou por camadas de maquiagem, de modo que até a posse de nossos próprios rostos nos é negada; nós fomos, e somos, forçadas a remover os pêlos de nossas axilas, pernas, sobrancelhas, e frequentemente mesmo das nossas regiões pubianas, de modo que os homens possam afirmar, sem contradição, a positividade de sua própria virilidade peluda. Nós fomos, e somos, esterilizadas contra nossa vontade; nossos ventres são removidos por nenhuma razão médica; nossos clitóris são cortados; nossos peitos e toda a musculatura de nossos tórax são removidos com abandono entusiástico. Este último procedimento, mastectomia radical, tem oitenta anos de idade. Eu peço que você considere o desenvolvimento de armamentos nos últimos oitenta anos, bombas nucleares, gases venenosos, raios laser, bombas de ruídos, e semelhantes, e questione o desenvolvimento da tecnologia em relação às mulheres. Por que as mulheres ainda são mutiladas tão promiscuamente na cirurgia de mama; porque esta selvagem forma de mutilação, mastectomia radical, tem prosperado se não para intensificar a negatividade das mulheres em relação aos homens? Estas formas de mutilação física são as marcas que nos designam como fêmeas negando nossos verdadeiros corpos, destruindo-os.social foot binding

No mundo grotesco feito por homens, o emblema físico primário da negatividade feminina é gravidez. As mulheres têm a capacidade de parir; os homens não têm. Mas desde que os homens são positivos e as mulheres são negativas, a incapacidade de parir é designada como uma característica positiva, e a capacidade de parir é designada como uma característica negativa. Já que as mulheres são mais facilmente distinguidas dos homens em virtude desta capacidade única, e já que a negatividade das mulheres é sempre estabelecida em oposição à positividade dos homens, a capacidade reprodutiva da fêmea é primeiro usada para fixar, em seguida para confirmar, seu status negativo ou inferior. A gravidez se torna uma marca física, um sinal que designa a grávida como autenticamente fêmea. A gravidez, peculiarmente, torna-se a forma e a substância da negatividade do sexo feminino.

Novamente, considere a tecnologia em relação às mulheres. Enquanto os homens andam na lua e um satélite artificial aproxima-se de Marte para uma aterrissagem, a tecnologia de contracepção permanece criminosamente inadequada. Os dois meios mais eficazes de contracepção são a pílula e o D.I.U. A pílula é venenosa e o D.I.U. é sádico. Se uma mulher quiser impedir a concepção, ela deve ou consequentemente falhar porque usa um método ineficiente de contracepção, neste caso ela se arrisca a morte com a gravidez; ou ela deve se arriscar a uma doença terrível com a pílula, ou sofrer a agonia da dor com o D.I.U. – e, naturalmente, com qualquer um destes métodos, o risco de morte é muito real também. Agora que as técnicas de aborto foram desenvolvidas que são seguras e fáceis, as mulheres são negadas resolutamente o acesso livre a elas. Os homens exigem que as mulheres continuem a ficar grávidas para personificarem a negatividade feminina, confirmando assim a positividade masculina.Sisif

Enquanto as agressões físicas contra a vida feminina são inacreditáveis, os ultrajes cometidos contra nossas faculdades intelectuais e criativas não têm sido menos sádicos. Consignadas a uma vida intelectual e criativa negativa, para afirmar estas capacidades nos homens, as mulheres são consideradas estúpidas; feminilidade é aproximadamente sinônimo de estupidez. Nós somos femininas à medida que nossas faculdades mentais são aniquiladas ou repudiadas. Para reforçar esta dimensão da negatividade feminina, nós somos negadas sistematicamente o acesso ao ensino convencional, e cada afirmação de inteligência natural é punida até que nós não ousemos confiar em nossas percepções, até que nós não ousemos honrar nossos impulsos criativos, até que nós não ousemos exercitar nossas faculdades críticas, até que nós não ousemos cultivar nossas imaginações, até que nós não ousemos respeitar nossa própria acuidade mental ou moral. Qualquer trabalho criativo ou intelectual pelo qual nós somos responsáveis é trivializado, ignorado, ou ridicularizado, de modo que mesmo aquelas poucas cujas mentes não poderiam ser degradadas são levadas ao suicídio ou à insanidade, ou de novo ao casamento e à gravidez. Há muito poucas exceções a esta regra inexorável.

A manifestação literária mais vívida desta patologia da negação feminina é encontrada na pornografia. A literatura é sempre a expressão mais eloquente de valores culturais; e a pornografia articula a destilação mais pura desses valores. Na pornografia literária, onde o sangue feminino pode fluir sem a limitação real da resistência biológica, o etos desta cultura assassina masculino-positiva é revelado em sua forma básica: o sadismo masculino se alimenta no masoquismo feminino; o domínio masculino é nutrido pela submissão feminina.

Na pornografia, o sadismo é o meio pelo qual homens estabelecem seu domínio. O sadismo é o exercício autêntico de poder que confirma a masculinidade; e a primeira característica da masculinidade é que sua existência é baseada na negação da fêmea – a masculinidade pode ser certificada somente pela abjeta degradação feminina, uma degradação nunca abjeta o bastante até que o corpo e a vontade da vítima tenham sido destruídos.Pornografia é violência contra as mulheres

Na pornografia literária, o coração das trevas pulsante no centro do sistema masculino-positivo é exposto em toda sua nudez horripilante. Esse coração das trevas é este – que o sadismo sexual efetiva a identidade masculina. As mulheres são torturadas, chicoteadas, e acorrentadas; as mulheres são amarradas e amordaçadas, marcadas e queimadas, cortadas com facas e fios; as mulheres são urinadas e defecadas; agulhas em brasa são cravadas nos peitos, ossos são quebrados, retos são rasgados, bocas são devastadas, bocetas são brutalmente caceteadas por pênis após pênis, vibrador após vibrador – e tudo isto para estabelecer no macho um sentido viável de seu próprio valor.

Tipicamente na pornografia, algumas destas crueldades horríveis ocorrem em um contexto público. Um homem não dominou completamente uma mulher – ele não é completamente um homem – até que a degradação dela seja publicamente testemunhada e apreciada. Ou seja, como um homem estabelece o domínio ele deve também estabelecer publicamente a posse. A posse é provada quando um homem pode humilhar uma mulher na frente de, e para o prazer de, seus companheiros, e ela ainda permanece leal a ele. A posse é estabelecida mais adiante quando um homem pode emprestar uma mulher como um objeto carnal, ou entregá-la como um presente para um outro homem ou para outros homens. Estas transações fazem a posse dele uma matéria de registro público e aumentam sua estima aos olhos de outros homens. Estas transações provam que ele reivindicou não somente a autoridade absoluta sobre o corpo dela, mas que ele dominou inteiramente a vontade dela. O que pode ter começado para a mulher como submissão a um homem particular por “amor” a ele – e o que estava, nesse sentido, congruente com sua própria integridade tal como ela poderia reconhecê-la – deve terminar na aniquilação dessa mesma reivindicação à individualidade. A individualidade da posse – “Eu sou a pessoa que possui” – é reivindicada pelo homem; mas nada deve ser deixado para a mulher ou na mulher no que ela poderia basear qualquer reivindicação à dignidade pessoal, mesmo a dignidade miserável de crer, “Eu sou a propriedade exclusiva do homem que me degrada.” Da mesma maneira, e pelas mesmas razões, ela é forçada a assistir ao homem que a possui exercendo o sadismo sexual dele contra outras mulheres. Isto a rouba desse grão interno de dignidade que vem da crença, “Eu sou a única,” ou “Eu sou percebida e minha identidade singular é verificada quando ele me degrada,” ou “Eu sou distinta de outras mulheres porque este homem me escolheu.”

A pornografia do sadismo masculino contém quase sempre uma visão idealizada, ou irreal, do companheirismo masculino. O conceito masculino utópico que é a premissa da pornografia é este – já que a masculinidade é estabelecida e confirmada contra os corpos brutalizados das mulheres, os homens não precisam agredir uns aos outros; em outras palavras, as mulheres absorvem a agressão masculina de modo que os homens fiquem a salvo disto. Cada homem, conhecendo seu próprio impulso profundamente enraizado a selvageria, pressupõe este mesmo impulso em outros homens e procura proteger-se dele. Os rituais de sadismo masculino contra os corpos das mulheres são os meios pelos quais a agressão masculina é socializada de modo que um homem possa associar-se com outros homens sem o perigo iminente de agressão masculina contra sua própria pessoa. O projeto erótico comum de destruir mulheres torna possível aos homens se unirem em uma irmandade; este projeto é a única base firme e confiável para cooperação entre machos e todo laço masculino é baseado nisto.Patriarcado

Esta visão idealizada do companheirismo masculino expõe o caráter essencialmente homossexual da sociedade masculina. Os homens usam os corpos das mulheres para formar alianças ou ligações uns com os outros. Os homens usam os corpos das mulheres para alcançar o poder reconhecível que certificará a identidade masculina aos olhos de outros homens. Os homens usam os corpos das mulheres para permiti-los se engajarem em transações sociais civis e pacíficas uns com os outros. Nós pensamos que nós vivemos em uma sociedade heterossexual porque a maioria dos homens está fixada nas mulheres como objetos sexuais; mas, de fato, nós vivemos em uma sociedade homossexual porque todas as transações críveis de poder, autoridade, e autenticidade ocorrem entre homens; todas as transações baseadas em equidade e individualidade ocorrem entre homens. Os homens são reais; portanto, todo relacionamento real acontece entre homens; toda comunicação real acontece entre homens; toda reciprocidade real acontece entre homens; toda mutualidade real acontece entre homens. A heterossexualidade, que pode ser definida como o domínio sexual dos homens sobre mulheres, é como o fruto do carvalho – dele cresce o poderoso carvalho da sociedade homossexual masculina, uma sociedade de homens, por homens, e para homens, uma sociedade na qual a positividade da comunidade masculina é realizada através da negação da fêmea, através da aniquilação da carne e da vontade das mulheres.

Na pornografia literária, que é uma destilação da vida como nós a conhecemos, as mulheres são buracos escancarados, fendas fogosas, tubos de foda, e semelhantes. O corpo feminino é considerado a constituir-se de três buracos vazios, todos os quais foram expressamente projetados a serem preenchidos com positividade masculina ereta.

A própria força-vital feminina é caracterizada como negativa: nós somos definidas como inerentemente masoquistas; isto é, nós somos impulsionadas para a dor e o abuso, para a autodestruição, para a aniquilação – e este impulso para nossa própria negação é precisamente o que nos identifica como mulheres. Em outras palavras, nós nascemos para que nós possamos ser destruídas. O masoquismo sexual efetiva a negatividade feminina, exatamente como o sadismo sexual efetiva a positividade masculina. A feminilidade erótica de uma mulher é medida pelo grau a que ela precisa ser ferida, precisa ser possuída, precisa ser abusada, precisa se submeter, precisa ser açoitada, precisa ser humilhada, precisa ser degradada. Qualquer mulher que resistir a expressar estas assim-chamadas necessidades, ou qualquer mulher que se rebela contra os valores inerentes nestas necessidades, ou qualquer mulher que se recusa a aprovar ou participar em sua própria destruição é caracterizada como uma desviante, uma que nega sua feminilidade, uma megera, uma cadela, etc. Tipicamente, tais desviantes são trazidas de volta para o rebanho feminino pelo estupro, estupro em grupo, ou alguma forma de sujeição. A teoria é que uma vez que tais mulheres tenham provado a doçura intoxicante da submissão elas irão, como lemingues, correr para sua própria destruição.

Cano de esgoto

O amor romântico, tanto na pornografia como na vida, é a celebração mítica da negação feminina. Para uma mulher, o amor é definido como sua boa vontade para submeter-se a sua própria aniquilação. Como diz o ditado, as mulheres são feitas para o amor – isto é, submissão. O amor, ou a submissão, deve ser a substância e o propósito da vida de uma mulher. Para a fêmea, a capacidade de amar é exatamente sinônima à capacidade de suportar o abuso e o apetite por ele. Para a mulher, a prova de amor é que ela está disposta a ser destruída por aquele que ela ama, por causa dele. Para a mulher, o amor é sempre auto-sacrifício, o sacrifício de sua identidade, vontade, e integridade corporal, a fim de satisfazer e redimir a masculinidade de seu amado.

Na pornografia, nós vemos o amor feminino cru, seu esqueleto erótico exposto; nós quase podemos tocar nos ossos de nosso cadáver. O amor é o impulso erótico masoquista; o amor é a paixão frenética que compele uma mulher a se submeter a uma vida degradante de escravidão; o amor é o devorador impulso sexual em direção à degradação e ao abuso. A mulher a si mesma literalmente ao homem; ele literalmente a toma e a possui.

A transação principal que expressa esta submissão feminina e esta possessão masculina, na pornografia assim como na vida, é o ato de foder. Foder é a expressão física básica da positividade masculina e da negatividade feminina. O relacionamento do sadista ao masoquista não se origina no ato de foder; mais propriamente, é expresso e renovado nele.

Para o macho, foder é um ato compulsivo, na pornografia e na vida real. Mas na vida, e não na pornografia, é um ato perigoso, cheio de temor. Aquele orgão santificado da positividade masculina, o falo, penetra no vácuo feminino. Durante a penetração, todo o ser do macho é o seu pênis – ele e sua vontade de dominação são inteiramente um; o pênis ereto é a sua identidade; toda sensação está localizada no pênis e de fato o resto de seu corpo é insensível, morto. Durante a penetração, o verdadeiro ser do macho é uma vez arriscado e afirmado. O vácuo da fêmea o engolirá, o consumirá, tragará e destruirá seu pênis, seu eu inteiro? O vácuo da fêmea poluirá sua positividade viril com sua negatividade nociva? O vácuo da fêmea contaminará sua tênue masculinidade com a toxicidade esmagadora de sua feminilidade? Ou ele emergirá do vazio apavorante do buraco escancarado anatômico da fêmea intacto – sua positividade reificada porque, mesmo quando dentro dela, ele conseguiu manter a polaridade do macho e da fêmea mantendo a distinção e a integridade de sua vara dura como aço; sua masculinidade se afirmou porque ele não se fundiu de fato com ela e deste modo não perdendo a si mesmo, ele não se dissolveu nela, ele não se tornou ela nem se tornou como ela, ele não foi englobado por ela.Salomé

Esta viagem perigosa no vácuo feminino deve ser empreendida muitas vezes, compulsivamente, porque a masculinidade não é nada por si mesma; por si mesma ela não existe; ela tem realidade somente sobre e contra, ou em contraste, à negatividade feminina. A masculinidade somente pode ser experimentada, alcançada, reconhecida, e personificada em oposição à feminilidade. Quando os homens colocam sexo, violência, e morte como verdades eróticas elementares, eles pretendem isto – que sexo, ou foder, é o ato que os possibilita experimentar sua própria realidade, ou identidade, ou masculinidade o mais concretamente; que violência, ou sadismo, é o meio pelo qual eles efetivam essa realidade, ou identidade, ou masculinidade; e que a morte, ou a negação, ou o nada, ou a contaminação pela fêmea é o que eles arriscam cada vez que penetram no que eles imaginam ser o vazio do buraco da fêmea.

O que então está atrás da reivindicação que foder é agradável para o macho? Como pode um ato tão saturado com o temor da perda de si mesmo, da perda do pênis, ser agradável? Como pode um ato tão obsessivo, tão repleto de ansiedade, ser caracterizado como agradável?

Primeiramente, é necessário compreender que esta é precisamente a dimensão da fantasia da pornografia. Nos arredores rarefeitos da pornografia, o temor masculino é extirpado do ato de foder, censurado, editado. O sadismo sexual dos machos reproduzido tão vividamente na pornografia é real; as mulheres experimentam-no diariamente. A dominação masculina contra a carne feminina é real; as mulheres experimentam-na diariamente. As práticas brutais as quais os corpos das mulheres são forçados na pornografia são reais; as mulheres sofrem estes abusos em uma escala global, dia após dia, ano após ano, geração após geração. O que não é real, o que é fantasia, é a reivindicação masculina no coração da pornografia que foder é para eles uma experiência extática, o prazer final, uma benção pura, um ato natural e fácil em que não há nenhum terror, nenhum temor, nenhum medo. Nada na realidade documenta esta reivindicação. Se nós examinarmos a chacina das nove milhões de bruxas na Europa que foi abastecida pelo temor masculino da carnalidade feminina, ou examinarmos o fenômeno da violação que expõe a foda como um ato de hostilidade evidente contra a inimiga fêmea, ou investigarmos a impotência que é a incapacidade involuntária de entrar no vácuo feminino, ou rastrearmos o mito da vagina dentata (a vagina cheia de dentes) que é derivado de um medo paralisante da genitália feminina, ou isolarmos os tabus menstruais como uma expressão do terror masculino, nós descobrimos que na vida real o macho está obcecado por seu medo da fêmea, e que este medo é mais vívido a ele no ato de foder.

Em segundo, é necessário compreender que a pornografia é um tipo de propaganda projetada para convencer o macho que ele não precisa estar receoso, que ele não está com medo; para sustentá-lo em pé de modo que ele possa foder; para convencê-lo que foder é uma alegria pura; para obscurecer para ele a realidade de seu próprio terror fornecendo uma fantasia pornográfica de prazer que ele pode aprender como um credo e do qual ele pode conduzir-se para dominar mulheres como um homem real deve. Nós podemos dizer que na pornografia os chicotes, as correntes, e a outra parafernália de brutalidade são cobertores de segurança que dão a mentira à reivindicação pornográfica que foder emerge da masculinidade como a luz do sol. Mas na vida, mesmo o abuso sistematizado e a subjugação global das mulheres aos homens não são suficientes para enfrentar o terror inerente para o macho no ato de foder.

Em terceiro lugar, é necessário compreender que o que é experimentado pelo macho como prazer autêntico é a afirmação de sua própria identidade como um macho. Cada vez que ele sobrevive ao perigo de entrar no vácuo feminino, sua masculinidade é reificada. Ele provou que ele não é ela e que ele é como outros eles. Nenhum prazer na terra iguala-se ao prazer de ter-se provado real, positivo e não negativo, um homem e não uma mulher, um membro idôneo do grupo que possui o domínio sobre todas as outras coisas vivas.

Em quarto, é necessário compreender que sob o sistema sexual da positividade masculina e da negatividade feminina, não há literalmente nada no ato de foder, exceto fricção clitoral acidental, que reconhece ou efetiva o erotismo real da fêmea, mesmo tal como ele tem sobrevivido sob condições escravas. Dentro dos limites do sistema masculino-positivo, este erotismo não existe. Afinal, uma negativa é uma negativa. Foder é inteiramente um ato masculino projetado para afirmar a realidade e o poder do falo, da masculinidade. Para mulheres, o prazer de ser fodida é o prazer masoquista de experimentar a auto-negação. Sob o sistema masculino-positivo, o prazer masoquista da auto-negação é mitificado e mistificado a fim de compelir mulheres a acreditarmos que nós experimentamos realização na abnegação, prazer na dor, validação no auto-sacrifício, feminilidade na submissão à masculinidade. Treinadas desde o nascimento para conformar-nos às exigências desta visão mundial peculiar, punidas severamente quando nós não aprendemos a submissão masoquista suficientemente, encapsuladas inteiramente dentro dos limites do sistema masculino-positivo, poucas mulheres experimentam alguma vez a si mesmas como reais por si mesmas. Em vez disso, as mulheres são reais a si mesmas ao grau que elas identificam-se com e unem elas mesmas à positividade dos machos. Em ser fodida, uma mulher une-se a alguém que é real para si mesmo e experimenta de modo vicário a realidade, tal como ela é, através dele; em ser fodida, uma mulher experimenta o prazer masoquista de sua própria negação que é articulada perversamente como a realização de sua feminilidade.

Agora, eu quero fazer uma distinção crucial – a distinção entre a verdade e a realidade. Para seres humanos, a realidade é social; a realidade é o que quer que as pessoas em um dado momento acreditam que ela seja. Em dizer isso, eu não pretendo sugerir que a realidade seja caprichosa ou acidental. Em minha visão, a realidade é sempre uma função da política em geral e especialmente da política sexual – isto é, ela serve ao poderoso fortificando e justificando seu direito à dominação sobre o sem poder. A realidade é tudo o que as premissas sociais e as instituições culturais são construídas sobre. A realidade é também a violação, o açoite, a foda, a histerectomia, a clitoridectomia, a mastectomia, o enfaixamento de pés, o sapato de salto alto, o espartilho, a maquiagem, o véu, o ataque e a agressão, a degradação e a mutilação em suas manifestações concretas. A realidade é forçada por aqueles a quem ela serve de modo que ela parece ser auto-evidente. A realidade é auto-perpetuada, visto que as instituições culturais e sociais construídas em suas premissas também personificam e reforçam essas premissas. Literatura, religião, psicologia, educação, medicina, a ciência da biologia como compreendida atualmente, as ciências sociais, a família nuclear, o Estado-nação, a polícia, os exércitos, e o direito civil – todos personificam a realidade dada e a reforçam em nós. A realidade dada é, naturalmente, que há dois sexos, macho e fêmea; que estes dois sexos são opostos um ao outro, polares; que o macho é inerentemente positivo e a fêmea é inerentemente negativa; e que os pólos positivo e negativo da existência humana se unem naturalmente em um todo harmonioso.

A verdade, por outro lado, não é de perto tão acessível como a realidade. Em minha visão, a verdade é absoluta uma vez que ela existe e pode ser encontrada. O rádio, por exemplo, sempre existiu; sempre foi verdade que o radio existia; mas o rádio não figurou na noção humana de realidade até que Marie e Pierre Curie o isolaram. Quando o fizeram, a noção humana de realidade teve que mudar de maneiras fundamentais para acomodar a verdade do rádio. Similarmente, a terra sempre foi uma esfera; isto sempre foi verdade; mas até Colombo navegar ao oeste para encontrar o Leste, isto não era real. Nós podemos dizer que a verdade existe, e que é o projeto humano encontrá-la de modo que a realidade possa ser baseada nela.

Eu fiz esta distinção entre a verdade e a realidade a fim de permitir-me dizer algo muito simples: que embora o sistema de polaridade de gênero seja real, ele não é verdadeiro. Não é verdade que há dois sexos que são distintos e opostos, que são polares, que se unem naturalmente e auto-evidentemente em um todo harmonioso. Não é verdade que o macho personifica qualidades e potencialidades humanas positivas e neutras em contraste à fêmea que é fêmea, de acordo com Aristóteles e toda a cultura masculina, “em virtude de certa falta de qualidades.” E uma vez que nós não aceitamos a noção que os homens são positivos e as mulheres são negativas, nós estamos rejeitamos essencialmente a noção que há homens e mulheres sob qualquer condição. Em outras palavras, o sistema baseado neste modelo polar da existência é absolutamente real; mas o modelo ele próprio não é verdadeiro. Nós estamos vivendo em cárcere dentro de uma ilusão perniciosa, uma ilusão na qual toda a realidade como nós a conhecemos é predicada.Patriarcado: cárcere da mulher

Em minha visão, aquelas de nós que somos mulheres dentro deste sistema de realidade nunca estaremos livres até que a ilusão da polaridade sexual esteja destruída e até que o sistema de realidade baseado nela esteja erradicado inteiramente da sociedade humana e da memória humana. Esta é a noção da transformação cultural no coração do feminismo. Esta é a possibilidade revolucionária inerente na luta feminista.

Assim como eu vejo, nossa tarefa revolucionária é destruir a identidade fálica nos homens e a não identidade masoquista nas mulheres – isto é, destruir as realidades polares de homens e mulheres como nós as conhecemos agora de modo que esta divisão da carne humana em dois campos – um campo armado e o outro um campo de concentração – já não seja possível. A identidade fálica é real e deve ser destruída. O masoquismo feminino é real e deve ser destruído. As instituições culturais que personificam e reforçam essas aberrações entrelaçadas – por exemplo, a lei, a arte, a religião, os estados-nações, a família, a tribo, ou comuna baseada no direito do pai – estas instituições são reais e elas devem ser destruídas. Se elas não forem, nós estaremos consignadas como mulheres à inferioridade e subjugação perpétuas.

Eu acredito que a liberdade para as mulheres deve começar no repúdio ao nosso próprio masoquismo. Eu acredito que nós devemos destruir em nós mesmas o impulso ao masoquismo em suas raízes sexuais. Eu acredito que nós devemos estabelecer nossa própria autenticidade, individualmente e entre nós mesmas – experimentá-la, criar a partir dela, e também privar os homens de ocasiões por reificarem a mentira da masculinidade contra nós. Eu acredito que nos livrar do nosso próprio masoquismo profundamente entranhado, que toma tantas formas torturadas, é a prioridade fundamental; é o primeiro golpe mortal que nós podemos desferir contra o domínio masculino sistematizado. De fato, quando nós conseguimos extirpar o masoquismo de nossas próprias personalidades e constituições, nós estaremos cortando a linha de vida masculina ao poder sobre e contra nós, ao valor masculino em contraste à degradação feminina, à identidade masculina colocada sobre a negatividade feminina brutalmente forçada – nós estaremos cortando a linha de vida masculina para a própria masculinidade. Somente quando a masculinidade estiver morta – e ela perecerá quando a feminilidade devastada não mais sustentá-la – somente então nós saberemos o que é liberdade.

por Andrea Dworkin (Our Blood: Prophecies And Discourses On Sexual Politics, 1975, 1976.)

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[Pronunciada no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Cambridge, 26 de Setembro, 1975.]

E as coisas a melhor saber são antes de tudo princípios e causas. Por através delas e a partir delas todas as outras coisas podem ser sabidas…
–Aristóteles, Metafísica, Livro I

Eu quero falar-lhes hoje à noite sobre algumas realidades e algumas possibilidades. As realidades são brutais e selvagens; as possibilidades podem parecer-lhes, muito francamente, impossíveis. Eu quero lembrar-lhes que havia uma época em que todo o mundo acreditava que a terra era plana. Toda a navegação era baseada nesta crença. Todos os mapas eram delineados às especificações desta crença. Eu chamo-a de uma crença, mas naquele tempo ela era uma realidade, a única realidade imaginável. Era uma realidade porque todo o mundo acreditava que era verdade. Todo o mundo acreditava que era verdade porque parecia ser verdade. A terra parecia plana; não havia nenhuma circunstância em que ela não tinha extremidades distantes nas quais alguém poderia cair; as pessoas admitiam que, em algum lugar, havia a extremidade final além da qual não havia nada. A imaginação era limitada, como ela é na maioria das vezes, por sentidos físicos inerentemente limitados e culturalmente condicionados, e esses sentidos determinaram que a terra fosse plana. Este princípio da realidade não era somente teórico; ele tinha efeitos. Os navios nunca navegavam muito longe em qualquer direção porque ninguém queria navegar fora da extremidade da terra; ninguém queria morrer a terrível morte que resultaria de um ato tão descuidado, estúpido. Nas sociedades em que a navegação era uma atividade principal, o medo de tal destino era vívido e apavorante.

Agora, conforme consta, de algum modo um homem chamado Cristóvão Colombo imaginou que a terra era redonda. Ele imaginou que alguém poderia chegar ao Extremo Oriente navegando para o ocidente. Como ele concebeu esta idéia, nós não sabemos; mas ele a imaginou, e uma vez que a tinha imaginado, ele não poderia esquecê-la. Por muito tempo, até que ele encontrou a Rainha Isabella, ninguém o escutaria ou consideraria sua idéia porque, claramente, ele era um lunático. Se algo era certo, era que a terra era plana. Agora nós olhamos retratos da terra tirados do espaço, e nós não lembramos que uma vez havia uma crença universal que a terra era plana.

Esta história foi repetida muitas vezes. Marie Curie teve a idéia peculiar que havia um elemento não descoberto que fosse ativo, sempre variável, vivo. Todo o pensamento científico era baseado na noção que todos os elementos eram inativos, inertes, estáveis. Ridicularizada, negada um laboratório apropriado pelo estabelecimento científico, condenada à pobreza e à obscuridade, Marie Curie, com seu marido, Pierre, trabalhou implacavelmente para isolar o rádio que era, em primeira instância, uma invenção de sua imaginação. A descoberta do radio destruiu inteiramente a premissa básica em que a física e a química foram construídas. O que tinha sido real até sua descoberta já não era mais real.

Os conhecidos princípios provados-e-verdadeiros da realidade, então, acreditados universalmente e aderidos com ímpeto, são frequentemente formados a partir de profunda ignorância. Nós não sabemos o que ou quanto nós não sabemos. Ignorando nossa ignorância, mesmo que ela tenha sido revelada para nós repetidas vezes, nós acreditamos que a realidade é tudo o que nós sabemos.

Um princípio básico da realidade, acreditado universalmente e aderido com ímpeto, é que há dois sexos, homem e mulher, e que estes sexos não são somente distintos um do outro, mas são opostos. O modelo usado frequentemente para descrever a natureza destes dois sexos é aquele de pólos magnéticos. O sexo masculino é vinculado ao pólo positivo, e o sexo feminino é vinculado ao pólo negativo. Postos em proximidade um com o outro, os campos magnéticos destes dois sexos são admitidos a interagir, trancando os dois pólos juntos em um todo perfeito. Desnecessário dizer, dois pólos semelhantes postos em proximidade são admitidos a repelirem-se.

O sexo masculino, de acordo com sua designação positiva, tem qualidades positivas; e o sexo feminino, de acordo com sua designação negativa, não possui qualquer das qualidades atribuídas ao sexo masculino. Por exemplo, de acordo com este modelo, os homens são ativos, fortes e corajosos; e as mulheres são passivas, fracas, e medrosas. Ou seja, o que os homens são, as mulheres não são; o que os homens podem fazer as mulheres não podem; todas as capacidades que os homens têm as mulheres não têm. O homem é o positivo e a mulher é seu negativo.

Apologistas deste modelo reivindicam que ele é moral porque é inerentemente igualitário. Cada pólo é admitido ter a dignidade de sua própria identidade separada; cada pólo é necessário para um todo harmonioso. Esta noção, naturalmente, é enraizada na convicção que as reivindicações feitas a respeito das características de cada sexo são verdadeiras, que a essência de cada sexo está corretamente descrita. Em outras palavras, dizer que o homem é o positivo e a mulher é o negativo é como dizer que a areia é seca e a água é molhada – a característica que mais descreve a própria coisa é nomeada de uma maneira verdadeira e nenhum julgamento no valor destas características de diferenciação é subentendido. Simone de Beauvoir expõe a falácia desta doutrina de “separado, mas igual” no prefácio de O SEGUNDO SEXO:

Na realidade a relação dos dois sexos não é . . . como aquela de dois pólos elétricos, porque o homem representa o positivo e o neutro, como é indicado pelo uso comum de homem para designar seres humanos em geral; enquanto que a mulher representa somente o negativo, definida por critérios restritivos, sem reciprocidade…. “A fêmea é uma fêmea em virtude de certa falta de qualidades,” disse Aristóteles; “nós devemos considerar a natureza feminina como afligida por uma falha natural.” E São Tomás pelo que lhe diz respeito pronunciou que a mulher é “um homem imperfeito,” um ser todo “incidental” . . .

Assim, a humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mesma, mas relativa a ele; ela não é considerada um ser autônomo.

Esta visão doente da mulher como o negativo do homem, “fêmea em virtude de certa falta de qualidades,” contamina toda a cultura. É o câncer no intestino de cada sistema político e econômico, de cada instituição social. É a podridão que estraga todos os relacionamentos humanos, infesta toda a realidade psicológica humana, e destrói a verdadeira fibra da identidade humana.

Esta visão patológica da negatividade feminina tem sido forçada em nossa carne por milhares de anos. A mutilação selvagem do corpo feminino, empreendida para distinguir-nos absolutamente dos homens, tem ocorrido em uma escala maciça. Por exemplo, na China, por mil anos, os pés das mulheres foram reduzidos a tocos através da amarração de pés. Quando uma garota tinha sete ou oito anos, seus pés eram lavados em alume, uma substância química que causa encolhimento. Então, todos os dedos dos pés exceto os dedões eram dobrados nas solas de seus pés e enfaixados tão firmemente quanto possível. Este procedimento era repetido várias vezes por aproximadamente três anos. A menina, em agonia, era forçada a andar com os próprios pés. Calos duros se formavam; as unhas dos dedos dos pés cresciam dentro da pele; os pés se enchiam de pus e sangravam; a circulação era parada virtualmente; frequentemente os dedões caiam. O pé ideal era três polegadas de carne fedorenta, apodrecida. Os homens eram positivos e as mulheres eram negativas porque os homens podiam andar e as mulheres não podiam. Os homens eram fortes e as mulheres eram fracas porque os homens podiam andar e as mulheres não podiam. Os homens eram independentes e as mulheres eram dependentes porque os homens podiam andar e as mulheres não podiam. Os homens eram viris porque as mulheres foram aleijadas.

Esta atrocidade cometida contra as mulheres Chinesas é somente um exemplo do sadismo sistemático expresso nos corpos das mulheres para tornar-nos opostas aos, e os negativos dos, homens. Nós fomos, e somos, chicoteadas, açoitadas, e agredidas; nós fomos, e somos, encaixadas em roupas projetadas para distorcer nossos corpos, para fazer os movimentos e a respiração dolorosos e difíceis; nós fomos, e somos, transformadas em ornamentos, tão privadas de presença física que nós não podemos correr ou saltar ou escalar ou mesmo andar com uma postura natural; nós fomos, e somos, veladas, nossos rostos cobertos por camadas de panos sufocantes ou por camadas de maquiagem, de modo que até a posse de nossos próprios rostos nos é negada; nós fomos, e somos, forçadas a remover os pêlos de nossas axilas, pernas, sobrancelhas, e frequentemente mesmo das nossas regiões pubianas, de modo que os homens possam afirmar, sem contradição, a positividade de sua própria virilidade peluda. Nós fomos, e somos, esterilizadas contra nossa vontade; nossos ventres são removidos por nenhuma razão médica; nossos clitóris são cortados; nossos peitos e toda a musculatura de nossos tórax são removidos com abandono entusiástico. Este último procedimento, mastectomia radical, tem oitenta anos de idade. Eu peço que você considere o desenvolvimento de armamentos nos últimos oitenta anos, bombas nucleares, gases venenosos, raios laser, bombas de ruídos, e semelhantes, e questione o desenvolvimento da tecnologia em relação às mulheres. Por que as mulheres ainda são mutiladas tão promiscuamente na cirurgia de mama; porque esta selvagem forma de mutilação, mastectomia radical, tem prosperado se não para intensificar a negatividade das mulheres em relação aos homens? Estas formas de mutilação física são as marcas que nos designam como fêmeas negando nossos verdadeiros corpos, destruindo-os.

No mundo grotesco feito por homens, o emblema físico primário da negatividade feminina é gravidez. As mulheres têm a capacidade de parir; os homens não têm. Mas desde que os homens são positivos e as mulheres são negativas, a incapacidade de parir é designada como uma característica positiva, e a capacidade de parir é designada como uma característica negativa. Já que as mulheres são mais facilmente distinguidas dos homens em virtude desta capacidade única, e já que a negatividade das mulheres é sempre estabelecida em oposição à positividade dos homens, a capacidade reprodutiva da fêmea é primeiro usada para fixar, em seguida para confirmar, seu status negativo ou inferior. A gravidez se torna uma marca física, um sinal que designa a grávida como autenticamente fêmea. A gravidez, peculiarmente, torna-se a forma e a substância da negatividade do sexo feminino.

Novamente, considere a tecnologia em relação às mulheres. Enquanto os homens andam na lua e um satélite artificial aproxima-se de Marte para uma aterrissagem, a tecnologia de contracepção permanece criminosamente inadequada. Os dois meios mais eficazes de contracepção são a pílula e o D.I.U. A pílula é venenosa e o D.I.U. é sádico. Se uma mulher quiser impedir a concepção, ela deve ou falhar consequentemente porque usa um método ineficiente de contracepção, neste caso ela se arrisca a morte com a gravidez; ou ela deve se arriscar a uma doença terrível com a pílula, ou sofrer a agonia da dor com o D.I.U. – e, naturalmente, com qualquer um destes métodos, o risco de morte é muito real também. Agora que as técnicas de aborto foram desenvolvidas que são seguras e fáceis, as mulheres são negadas resolutamente o acesso livre a elas. Os homens exigem que as mulheres continuem a ficar grávidas para personificarem a negatividade feminina, confirmando assim a positividade masculina.

Enquanto as agressões físicas contra a vida feminina são inacreditáveis, os ultrajes cometidos contra nossas faculdades intelectuais e criativas não têm sido menos sádicos. Consignadas a uma vida intelectual e criativa negativa, para afirmar estas capacidades nos homens, as mulheres são consideradas estúpidas; feminilidade é aproximadamente sinônimo de estupidez. Nós somos femininas à medida que nossas faculdades mentais são aniquiladas ou repudiadas. Para reforçar esta dimensão da negatividade feminina, nós somos negadas sistematicamente o acesso ao ensino convencional, e cada afirmação de inteligência natural é punida até que nós não ousemos confiar em nossas percepções, até que nós não ousemos honrar nossos impulsos criativos, até que nós não ousemos exercitar nossas faculdades críticas, até que nós não ousemos cultivar nossas imaginações, até que nós não ousemos respeitar nossa própria acuidade mental ou moral. Qualquer trabalho criativo ou intelectual pelo qual nós somos responsáveis é trivializado, ignorado, ou ridicularizado, de modo que mesmo aquelas poucas cujas mentes não poderiam ser degradadas são levadas ao suicídio ou à insanidade, ou de novo ao casamento e à gravidez. Há muito poucas exceções a esta regra inexorável.

A manifestação literária mais vívida desta patologia da negação feminina é encontrada na pornografia. A literatura é sempre a expressão mais eloquente de valores culturais; e a pornografia articula a destilação mais pura desses valores. Na pornografia literária, onde o sangue feminino pode fluir sem a limitação real da resistência biológica, o etos desta cultura assassina masculino-positiva é revelado em sua forma básica: o sadismo masculino se alimenta no masoquismo feminino; o domínio masculino é nutrido pela submissão feminina.

Na pornografia, o sadismo é o meio pelo qual homens estabelecem seu domínio. O sadismo é o exercício autêntico de poder que confirma a masculinidade; e a primeira característica da masculinidade é que sua existência é baseada na negação da fêmea – a masculinidade pode ser certificada somente pela abjeta degradação feminina, uma degradação nunca abjeta o bastante até que o corpo e a vontade da vítima tenham sido destruídos.

Na pornografia literária, o coração das trevas pulsante no centro do sistema masculino-positivo é exposto em toda sua nudez horripilante. Esse coração das trevas é este – que o sadismo sexual efetiva a identidade masculina. As mulheres são torturadas, chicoteadas, e acorrentadas; as mulheres são amarradas e amordaçadas, marcadas e queimadas, cortadas com facas e fios; as mulheres são urinadas e defecadas; agulhas em brasa são cravadas nos peitos, ossos são quebrados, retos são rasgados, bocas são devastadas, bocetas são brutalmente caceteadas por pênis após pênis, vibrador após vibrador – e tudo isto para estabelecer no macho um sentido viável de seu próprio valor.

Tipicamente na pornografia, algumas destas crueldades horríveis ocorrem em um contexto público. Um homem não dominou completamente uma mulher – ele não é completamente um homem – até que a degradação dela seja publicamente testemunhada e apreciada. Ou seja, como um homem estabelece o domínio ele deve também estabelecer publicamente a posse. A posse é provada quando um homem pode humilhar uma mulher na frente de, e para o prazer de, seus companheiros, e ela ainda permanece leal a ele. A posse é estabelecida mais adiante quando um homem pode emprestar uma mulher como um objeto carnal, ou entregá-la como um presente para um outro homem ou para outros homens. Estas transações fazem a posse dele uma matéria de registro público e aumentam sua estima aos olhos de outros homens. Estas transações provam que ele reivindicou não somente a autoridade absoluta sobre o corpo dela, mas que ele dominou inteiramente a vontade dela. O que pode ter começado para a mulher como submissão a um homem particular por “amor” a ele – e o que estava nesse sentido congruente com sua própria integridade tal como ela poderia reconhecê-la – deve terminar na aniquilação dessa mesma reivindicação à individualidade. A individualidade da posse – “Eu sou a pessoa que possui” – é reivindicada pelo homem; mas nada deve ser deixado para a mulher ou na mulher em que ela poderia basear qualquer reivindicação à dignidade pessoal, mesmo a dignidade miserável de crer, “Eu sou a propriedade exclusiva do homem que me degrada.” Da mesma maneira, e pelas mesmas razões, ela é forçada a assistir ao homem que a possui exercendo o sadismo sexual dele contra outras mulheres. Isto a rouba desse grão interno de dignidade que vem da crença, “Eu sou a única,” ou “Eu sou percebida e minha identidade singular é verificada quando ele me degrada,” ou “Eu sou distinta de outras mulheres porque este homem me escolheu.”

A pornografia do sadismo masculino contém quase sempre uma visão idealizada, ou irreal, do companheirismo masculino. O conceito masculino utópico que é a premissa da pornografia é este – já que a masculinidade é estabelecida e confirmada contra os corpos brutalizados das mulheres, os homens não precisam agredir uns aos outros; em outras palavras, as mulheres absorvem a agressão masculina de modo que os homens fiquem a salvo disto. Cada homem, conhecendo seu próprio impulso enraizado a selvageria, pressupõe este mesmo impulso em outros homens e procura proteger-se dele. Os rituais de sadismo masculino contra os corpos das mulheres são os meios pelo qual a agressão masculina é socializada de modo que um homem possa associar-se com outros homens sem o perigo iminente de agressão masculina contra sua própria pessoa. O projeto erótico comum de destruir mulheres torna possível aos homens se unirem em uma irmandade; este projeto é a única base firme e confiável para cooperação entre machos e todo laço masculino é baseado nisto.

Esta visão idealizada do companheirismo masculino expõe o caráter essencialmente homossexual da sociedade masculina. Os homens usam os corpos das mulheres para formar alianças ou ligações uns com os outros. Os homens usam os corpos das mulheres para alcançar o poder reconhecível que certificará a identidade masculina aos olhos de outros homens. Os homens usam os corpos das mulheres para permiti-los se engajarem em transações civis e pacíficas uns com os outros. Nós pensamos que nós vivemos em uma sociedade heterossexual porque a maioria dos homens está fixada nas mulheres como objetos sexuais; mas, de fato, nós vivemos em uma sociedade homossexual porque todas as transações críveis de poder, autoridade, e autenticidade ocorrem entre homens; todas as transações baseadas em igualdade e individualidade ocorrem entre homens. Os homens são reais; portanto, todo relacionamento real acontece entre homens; toda comunicação real acontece entre homens; toda reciprocidade real acontece entre homens; toda mutualidade real acontece entre homens. A heterossexualidade, que pode ser definida como o domínio sexual dos homens sobre mulheres, é como o fruto do carvalho – dele cresce o poderoso carvalho da sociedade homossexual masculina, uma sociedade de homens, por homens, e para homens, uma sociedade na qual a positividade da comunidade masculina é realizada através da negação da fêmea, através da aniquilação da carne e da vontade das mulheres.

Na pornografia literária, que é uma destilação da vida como nós a conhecemos, as mulheres são buracos abertos, fendas fogosas, tubos de foda, e semelhantes. O corpo feminino é considerado a constituir-se de três buracos vazios, todos os quais foram expressamente projetados a serem preenchidos com positividade masculina ereta.

A própria força-vital feminina é caracterizada como negativa: nós somos definidas como inerentemente masoquistas; isto é, nós somos impulsionadas para a dor e o abuso, para a autodestruição, para a aniquilação – e este impulso para nossa própria negação é precisamente o que nos identifica como mulheres. Em outras palavras, nós nascemos para que nós possamos ser destruídas. O masoquismo sexual efetiva a negatividade feminina, exatamente como o sadismo sexual efetiva a positividade masculina. A feminilidade erótica de uma mulher é medida pelo grau a que ela precisa ser ferida, precisa ser possuída, precisa ser abusada, precisa se submeter, precisa ser açoitada, precisa ser humilhada, precisa ser degradada. Qualquer mulher que resistir a expressar estas assim-chamadas necessidades, ou qualquer mulher que se rebela contra os valores inerentes nestas necessidades, ou qualquer mulher que se recusa a aprovar ou participar em sua própria destruição é caracterizada como uma diferente, uma que nega sua feminilidade, uma bruxa, uma cadela, etc. Tipicamente, tais diferentes são trazidas de volta para o rebanho feminino pelo estupro, estupro em grupo, ou alguma forma de sujeição. A teoria é que uma vez que tais mulheres tenham provado a doçura intoxicante da submissão elas irão, como lemingues, correr para sua própria destruição.

O amor romântico, tanto na pornografia como na vida, é a celebração mítica da negação feminina. Para uma mulher, o amor é definido como sua boa vontade para submeter-se a sua própria aniquilação. Como diz o ditado, as mulheres são feitas para o amor – isto é, submissão. O amor, ou a submissão, deve ser a substância e o propósito da vida de uma mulher. Para a fêmea, a capacidade de amar é exatamente sinônima à capacidade de suportar o abuso e o apetite por ele. Para a mulher, a prova de amor é que ela está disposta a ser destruída por aquele que ela ama, por causa dele. Para a mulher, o amor é sempre o auto-sacrifício, o sacrifício de sua identidade, vontade, e integridade corporal, a fim de satisfazer e redimir a masculinidade de seu amado.

Na pornografia, nós vemos o amor feminino cru, seu esqueleto erótico exposto; nós quase podemos tocar nos ossos de nosso cadáver. O amor é o impulso erótico masoquista; o amor é a paixão frenética que compele uma mulher a se submeter a uma vida degradante de escravidão; o amor é o devorador impulso sexual para a degradação e o abuso. A mulher a si mesma literalmente ao homem; ele literalmente a toma e a possui.

A transação principal que expressa esta submissão feminina e esta possessão masculina, na pornografia assim como na vida, é o ato de foder. Foder é a expressão física básica da positividade masculina e da negatividade feminina. O relacionamento do sadista ao masoquista não se origina no ato de foder; mais propriamente, é expresso e renovado nele.

Para o macho, foder é um ato compulsório, na pornografia e na vida real. Mas na vida, e não na pornografia, é um ato perigoso, cheio de temor. Aquele orgão santificado da positividade masculina, o falo, penetra no vácuo feminino. Durante a penetração, todo o ser do macho é o seu pênis – ele e sua vontade de dominação são inteiramente um; o pênis ereto é a sua identidade; toda sensação está localizada no pênis e de fato o resto de seu corpo é insensível, morto. Durante a penetração, o verdadeiro ser do macho é uma vez arriscado e afirmado. O vácuo da fêmea o engolirá, o consumirá, tragará e destruirá seu pênis, seu eu inteiro? O vácuo da fêmea poluirá sua positividade viril com sua negatividade nociva? O vácuo da fêmea contaminará sua tênue masculinidade com a toxicidade opressiva de sua feminilidade? Ou ele emergirá do vazio apavorante do buraco aberto anatômico da fêmea intacto – sua positividade reificada porque, mesmo quando dentro dela, ele controlou para manter a polaridade do macho e da fêmea mantendo a distinção e a integridade de sua vara dura como aço; sua masculinidade se afirmou porque ele não se fundiu de fato com ela e deste modo fazendo perder a si mesmo, ele não se dissolveu nela, ele não se tornou ela nem se tornou como ela, ele não foi incluído por ela.

Esta viagem perigosa no vácuo feminino deve ser empreendida muitas vezes, compulsoriamente, porque a masculinidade não é nada por si mesma; por si mesma ela não existe; ela tem realidade somente contra, ou em contraste, à negatividade feminina. A masculinidade somente pode ser experimentada, alcançada, reconhecida, e personificada em oposição à feminilidade. Quando os homens colocam sexo, violência, e morte como verdades eróticas elementares, eles pretendem isto – que sexo, ou foder, é o ato que os possibilita experimentar sua própria realidade, ou identidade, ou masculinidade o mais concretamente; que violência, ou sadismo, é o meio pelo qual ele efetiva essa realidade, ou identidade, ou masculinidade; e que a morte, ou a negação, ou o nada, ou a contaminação pela fêmea é o que eles arriscam cada vez que penetram no que eles imaginam ser o vazio do buraco da fêmea.

O que então está atrás da reivindicação que foder é agradável para o macho? Como pode um ato tão saturado com o temor da perda de si mesmo, da perda do pênis, ser agradável? Como pode um ato tão obsessivo, tão repleto de ansiedade, ser caracterizado como agradável?

Primeiramente, é necessário compreender que esta é precisamente a dimensão da fantasia da pornografia. Nos arredores rarefeitos da pornografia, o temor masculino é extirpado do ato de foder, censurado, editado. O sadismo sexual dos machos reproduzido tão vivamente na pornografia é real; as mulheres experimentam-no diariamente. A dominação masculina contra a carne feminina é real; as mulheres experimentam-na diariamente. As práticas brutais as quais os corpos das mulheres são forçados na pornografia são reais; as mulheres sofrem estes abusos em uma escala global, dia após dia, ano após ano, geração após geração. O que não é real, o que é fantasia, é a reivindicação masculina no coração da pornografia que foder é para eles uma experiência extática, o prazer final, uma benção pura, um ato natural e fácil em que não há nenhum terror, nenhum temor, nenhum medo. Nada na realidade documenta esta reivindicação. Se nós examinarmos a chacina das nove milhões de bruxas na Europa que foi abastecida pelo temor masculino da carnalidade feminina, ou examinarmos o fenômeno da violação que expõe a foda como um ato de hostilidade evidente contra a inimiga fêmea, ou investigarmos a impotência que é a inabilidade involuntária de entrar no vácuo feminino, ou seguirmos o mito da vagina dentata (a vagina cheia de dentes) que é derivado de um medo paralisante da genitália feminina, ou isolarmos os tabus menstruais como uma expressão do terror masculino, nós descobrimos que o macho está obcecado por seu medo da fêmea, e que este medo é mais vívido a ele no ato de foder.

Em segundo, é necessário compreender que a pornografia é um tipo de propaganda projetada para convencer o macho que ele não precisa estar receoso, que ele não está com medo; para segurá-lo em pé de modo que ele possa foder; para convencê-lo que foder é uma alegria genuína; para obscurecer para ele a realidade de seu próprio terror fornecendo uma fantasia pornográfica de prazer que ele pode aprender como um credo e do qual ele pode conduzir-se para dominar mulheres como um homem real deve. Nós podemos dizer que na pornografia os chicotes, as correntes, e a outra parafernália de brutalidade são cobertores de segurança que dão a mentira à reivindicação pornográfica que foder emerge da masculinidade como luz do sol. Mas na vida, mesmo o abuso sistematizado e a subjugação global das mulheres aos homens não são suficientes para enfrentar o terror inerente para o macho no ato de foder.

Em terceiro lugar, é necessário compreender que o que é experimentado pelo macho como prazer autêntico é a afirmação de sua própria identidade como um macho. Cada vez que ele sobrevive ao perigo de entrar no vácuo feminino, sua masculinidade é reificada. Ele provou que ele não é ela e que ele é como outros eles. Nenhum prazer na terra iguala-se ao prazer de ter-se provado real, positivo e não negativo, um homem e não uma mulher, um membro genuíno do grupo que possui o domínio sobre todas as outras coisas vivas.

Em quarto, é necessário compreender que sob o sistema sexual da positividade masculina e negatividade feminina, não há literalmente nada no ato de foder, exceto fricção clitoral acidental, que reconhece ou efetiva o erotismo real da fêmea, mesmo tal como ele tem sobrevivido sob condições escravas. Dentro dos limites do sistema masculino-positivo, este erotismo não existe. Afinal, uma negativa é uma negativa. Foder é inteiramente um ato masculino projetado para afirmar a realidade e o poder do falo, da masculinidade. Para mulheres, o prazer de ser fodida é o prazer masoquista de experimentar a auto-negação. Sob o sistema masculino-positivo, o prazer masoquista da auto-negação é mitificado e mistificado a fim de compelir mulheres a acreditarmos que nós experimentamos realização na abnegação, prazer na dor, validação no auto-sacrifício, feminilidade na submissão à masculinidade. Treinadas desde o nascimento para conformar-nos às exigências desta visão mundial peculiar, punidas severamente quando nós não aprendemos a submissão masoquista satisfatoriamente, encapsuladas inteiramente dentro dos limites do sistema masculino-positivo, poucas mulheres experimentam alguma vez a si mesmas como reais por si mesmas. Em vez disso, as mulheres são reais a si mesmas ao grau que elas identificam-se com e unem elas mesmas à positividade dos machos. Em ser fodida, uma mulher une-se a alguém que é real em si mesmo e experimenta de modo vicário a realidade, tal como ela é, através dele; em ser fodida, uma mulher experimenta o prazer masoquista de sua própria negação que é articulada perversamente como a realização de sua feminilidade.

Agora, eu quero fazer uma distinção crucial – a distinção entre a verdade e a realidade. Para seres humanos, a realidade é social; a realidade é o que quer que as pessoas em um dado momento acreditam que ela seja. Em dizer isso, eu não pretendo sugerir que a realidade seja caprichosa ou acidental. Em minha visão, a realidade é sempre uma função da política em geral e especialmente da política sexual – isto é, ela serve ao poderoso fortificando e justificando seu direito à dominação sobre o impotente. A realidade é tudo o que as premissas sociais e as instituições culturais são construídas sobre. A realidade é também a violação, o açoite, a foda, a histerectomia, a clitoridectomia, a mastectomia, a amarração de pés, o sapato de salto alto, o espartilho, a maquiagem, o véu, a agressão, a degradação e mutilação em suas manifestações concretas. A realidade é forçada por aqueles a quem ela serve de modo que ela parece ser auto-evidente. A realidade é auto-perpetuada, visto que as instituições culturais e sociais construídas em suas premissas também personificam e reforçam essas premissas. Literatura, religião, psicologia, educação, medicina, a ciência da biologia como compreendida atualmente, as ciências sociais, a família nuclear, o Estado-nação, a polícia, exércitos, e o direito civil – todos personificam a realidade dada e a reforçam em nós. A realidade dada é, naturalmente, que há dois sexos, macho e fêmea; que estes dois sexos são opostos um ao outro, polares; que o macho é inerentemente positivo e a fêmea é inerentemente negativa; e que os pólos positivo e negativo da existência humana se unem naturalmente em um todo harmonioso.

A verdade, por outro lado, não é de perto tão acessível como a realidade. Em minha visão, a verdade é absoluta já que ela existe e pode ser descoberta. O rádio, por exemplo, sempre existiu; sempre foi verdade que o radio existia; mas o rádio não figurou na noção humana da realidade até que Marie e Pierre Curie o isolaram. Quando o fizeram, a noção humana da realidade teve que mudar de maneiras fundamentais para acomodar a verdade do rádio. Similarmente, a terra sempre foi uma esfera; isto sempre foi verdade; mas até Colombo navegar ao oeste para encontrar o Leste, isto não era real. Nós podemos dizer que a verdade existe, e que é o projeto humano encontrá-la de modo que a realidade possa ser baseada nela.

Eu fiz esta distinção entre a verdade e a realidade a fim de permitir-me dizer algo muito simples: que embora o sistema de polaridade de gênero seja real, ele não é verdadeiro. Não é verdade que há dois sexos que são distintos e opostos, que são polares, que se unem naturalmente e auto-evidentemente em um todo harmonioso. Não é verdade que o macho personifica qualidades e potencialidades humanas positivas e neutras em contraste à fêmea que é fêmea, de acordo com Aristóteles e toda a cultura masculina, “em virtude de certa falta de qualidades.” E uma vez que nós não aceitamos a noção que os homens são positivos e as mulheres são negativas, nós estamos rejeitamos essencialmente a noção que há homens e mulheres sob qualquer condição. Em outras palavras, o sistema baseado neste modelo polar da existência é absolutamente real; mas o modelo ele próprio não é verdadeiro. Nós estamos vivendo em cárcere dentro de uma ilusão perniciosa, uma ilusão na qual toda a realidade como nós a conhecemos é predicada.

Em minha visão, aquelas de nós que somos mulheres dentro deste sistema de realidade nunca estaremos livres até que a ilusão da polaridade sexual esteja destruída e até que o sistema de realidade baseado nela esteja erradicado inteiramente da sociedade humana e da memória humana. Esta é a noção da transformação cultural no coração do feminismo. Esta é a possibilidade revolucionária inerente no trabalho feminista.

Assim como eu vejo, nossa tarefa revolucionária é destruir a identidade fálica nos homens e a não identidade masoquista nas mulheres – isto é, destruir as realidades polares de homens e mulheres como nós as conhecemos agora de modo que esta divisão da carne humana em dois campos – um campo armado e o outro um campo de concentração – já não seja possível. A identidade fálica é real e deve ser destruída. O masoquismo feminino é real e deve ser destruído. As instituições culturais que personificam e reforçam essas aberrações entrelaçadas – por exemplo, a lei, arte, religião, estados-nações, a família, tribo, ou comuna baseada no direito do pai – estas instituições são reais e elas devem ser destruídas. Se elas não são, nós estaremos consignadas como mulheres à inferioridade e subjugação perpétuas.

Eu acredito que a liberdade para as mulheres deve começar no repúdio de nosso próprio masoquismo. Eu acredito que nós devemos destruir em nós mesmas o impulso ao masoquismo em suas raízes sexuais. Eu acredito que nós devemos estabelecer nossa própria autenticidade, individualmente e entre nós mesmas – experimentá-la, criar a partir dela, e também privar os homens de ocasiões por reificarem a mentira da masculinidade contra nós. Eu acredito que nos livrar do nosso próprio masoquismo profundamente entranhado, que toma tantas formas torturadas, é a prioridade fundamental; é o primeiro golpe mortal que nós podemos desferir contra o domínio masculino sistematizado. De fato, quando nós sucedemos em extirpar o masoquismo de nossas próprias personalidades e constituições, nós estaremos cortando a linha de vida ao poder contra nós, ao valor masculino em contraste à degradação feminina, à identidade masculina colocada sobre a negatividade feminina brutalmente forçada – nós estaremos cortando a linha de vida masculina para a própria masculinidade. Somente quando a masculinidade estiver morta – e ela perecerá quando a feminilidade destruída não mais sustentá-la – somente então nós saberemos o que é liberdade.

por Andrea Dworkin (Our Blood: Prophecies And Discourses On Sexual Politics, 1975, 1976.)

Adeus a Tudo Isso

6 ago

No fim dos 1960 e no início dos 1970, Rato, era um dos principais jornais da contracultura / Nova Esquerda na Cidade de Nova York. Em Janeiro de 1970, um grupo de mulheres que trabalhou para Rato, se enfastiou com o sexismo agressivo crescente do conteúdo do jornal e hierarquias internas, tomou posse do jornal e, com a ajuda de mulheres dos grupos de Libertação das Mulheres em Nova York, converteram-no em um jornal feminista. Na primeira edição, Robin Morgan (naquele tempo integrante da W.I.T.C.H.) contribuiu com Adeus a Tudo Isso. Desde então o artigo tem sido amplamente reimpresso em antologias de escritos de feminismo radical; esta cópia é baseada na reimpressão que aparece em Queridas Irmãs: Expedições do Movimento de Libertação das Mulheres. Uma versão levemente diferente está presente, junto com uma longa introdução e notas de rodapé explicativas, no A Palavra de uma Mulher: Expedições Feministas 1968–1992 de Morgan.

Adeus a Tudo Isso

Então, Rato foi liberado, por esta semana, pelo menos. Próxima semana? Se os homens voltarem a restabelecer as fotos pornográficas, as histórias em quadrinhos sexistas, as capas com garotas nuas (juntamente com a retórica paternalista deles sobre serem a favor da liberação das mulheres) – se isto acontecer, nossas alternativas estão evidentes. Rato deve ser tomado permanentemente pelas mulheres – ou Rato deve ser destruído.

Por que Rato? Por que não EVO ou até as novas revistas pornográficas óbvias (distribuídas pela máfia ao lado da pornografia humana da prostituição)? Antes de tudo, elas receberão o delas – mas isto não será por meio de uma tomada, que é reservada a alguma coisa que pelo menos vale a pena ser tomada. Nem elas deviam ser censuradas. Elas deviam exatamente ser ajudadas a não existirem – de qualquer maneira necessária. Mas Rato, que tem continuamente tentado ser um jornal de estilo realmente radical cumulativo, essa é uma outra questão. Isto é, as máscaras liberais cooptativas na cara do medo e do ódio sexista, usadas por rapazes realmente bondosos que todas nós conhecemos e gostamos, certo? Nós encontramos o inimigo e ele é nosso amigo. E perigoso. Que droga, deixe as garotas fazerem uma edição; talvez isto as satisfaça por um tempo, é uma boa controvérsia, e talvez venda jornais – corre uma conversa não ouvida que estou certa que aconteceu em algum momento na semana passada.

E é sobre isso que eu quero escrever – os amigos, irmãos, amantes na falsa Esquerda masculino-dominada. Os bons rapazes que pensam que sabem tudo o que é a Liberação das Mulheres, como eles a chamam tão intimamente – que então continuam a degradar e destruir mulheres através de quase tudo o que eles dizem e fazem: A capa na última edição do Rato (frente e verso). Os emblemáticos artigos poder da boceta ou militância do clitóris. As descrições falsas de mulheres integrantes no topo do mastro. As piadinhas, os anúncios pessoais, o sorriso, o rosnado. Não mais, irmãos. Não mais ignorância bem intencionada, não mais cooptação, não mais pretensão que essa coisa pela qual nós estamos lutando é a mesma; uma revolução dominada pelo homem, com liberdade e justiça para todos. Não mais.

Permita-nos derrubar isso. Homens brancos são os maiores responsáveis pela destruição da vida humana e do ambiente no planeta hoje. No entanto quem está controlando a suposta revolução para mudar tudo isso? Homens brancos (sim, sim, mesmo com os dedos pálidos deles apoiados em tortas negras e marrons mais uma vez). Isto poderia perfeitamente deixar alguém um bocado inconfortável. Parece óbvio que uma revolução legítima deve ser conduzida, feita por aquelas que têm sido as maiores oprimidas: mulheres negras, marrons, amarelas, vermelhas, e brancas – com homens se relacionando a isso o melhor que eles podem. Uma Esquerda genuína não considera o sofrimento de alguém irrelevante ou excitante; nem funciona como um microcosmo da economia capitalista, com homens competindo por poder e status na parte superior, e mulheres fazendo todo o trabalho na parte inferior (e funcionando como prêmios objetivados ou moedas também). Adeus a tudo isso.

Derrube isso inteiramente.

Adeus ao movimento da paz masculino-dominado, onde o velho Tio Dave pode dizer com impunidade para as mulheres na equipe da revista Libertação, “O problema com você é que você é uma mulher agressiva.”

Adeus à Esquerda heterossexual masculino-dominada: ao PL, que admitirá que alguns trabalhadores são mulheres, mas não verá todas as mulheres (digo, donas de casa) como trabalhadoras (cegos como o próprio Sistema); a todos os velhos partidos de Esquerda restantes que oferecem suas convenções de Libertação das Mulheres para nós como se isso não fosse uma contradição de termos; aos líderes individuais anti-liderança, que selecionam determinadas mulheres para serem líderes e então se relacionam somente com elas, seja na Esquerda masculina ou na Libertação das Mulheres — trazendo os problemas deles sobre manipulação e domínio de poder para tudo que eles tocam.

Adeus ao Tempo Vão, com a imagem de Stanley Kowalski e a teoria da sexualidade livre, mas a prática do sexo à demanda masculina. Esquerda fora! — não Direita acima! — às Irmãs do Tempo que (e elas sabem melhor — elas sabem) rejeitam seu próprio feminismo radical por aquele ultimo agarramento desesperado da aprovação masculina que todas nós conhecemos tão bem, por reivindicar que o estilo do machismo e da violência gratuita é seu próprio estilo pela livre escolha, e por acreditar que esta é a maneira de uma mulher fazer sua revolução… todo o tempo, ó minha irmã, não encontrando meus olhos porque os homens do Tempo escolheram Charles Manson como o herói deles — e seu. (Honesto, ao menos, já que Manson é somente o extremo lógico da fantasia Americana masculina normal, quer ele seja Dick Nixon ou Mark Rudd: mestre de um harém – mulheres a fazerem todo o trabalho de merda, de criar bebês e cozinhar e excitar a matar pessoas no comando.) Adeus a toda essa merda que separa mulheres das mulheres; merda que cobre a cara de qualquer Mulher do Tempo, que é a cara de qualquer Escrava do Manson, que é a cara de Sharon Tate, que é a cara de Mary Jo Kopechne, que é a cara de Beulah Saunders, que é a minha cara, que é a cara de Pat Nixon, que é a cara de Pat Swinton. Na escuridão nós todas somos a mesma – e é melhor você acreditar nisto: nós estamos na escuridão, bebê. (Lembra a velha piada: Sabe o que chamam um homem negro com um Ph.D.? Um preto. Variações: Sabe o que chamam uma Mulher do Tempo? Uma boceta pesada. Sabe o que chamam uma mulher revolucionária hip? Uma boceta moderna. Sabe o que eles chamam uma militante feminista radical? Uma boceta louca. Amerika é a terra da livre escolha – faça a sua seleção de títulos.) Esquerda Fora, minha irmã — você não vê? Adeus à ilusão de força quando você funciona em conjunto com seus opressores; adeus ao sonho de que você estando na liderança coletiva obterá qualquer coisa senão gonorréia.

Adeus ao MJR II, também, e todos os outros MJRs — não que as irmãs não realizaram neles um excelente número apreendendo controle, mas porque elas permitiram os homens voltarem ao comando após somente um dia mais ou menos de autocrítica no chauvinismo masculino. (E adeus ao uso geral impreciso desta expressão, no que diz respeito ao assunto: chauvinismo masculino é uma atitude — supremacia masculina é a realidade objetiva, o fato.) Adeus ao Conspiração, que, ao almoçar com os desgraçados companheiros sexistas Norman Mailer e Terry Southern em um clube tipo-Coelho em Chicago encontraram o Juíz Hoffman na mesa vizinha — nenhuma surpresa: na luz eles todos são o mesmo.

Adeus à cultura Hip e a assim-chamada Revolução Sexual, que tem funcionado para a liberdade das mulheres como a Reconstrução funcionou para os antigos escravos — reinstituindo a opressão com um outro nome. Adeus à suposição que Hugh Romney está seguro na revolução cultural dele, seguro o bastante para se referir as nossas mulheres, que fazem todas as nossas roupas sem alguém não perdoar isso. Adeus à arrogância do poder que certamente deixa o Czar Stan Freeman do Circo Elétrico dormir sem medo à noite, ou permite Tomi Ungerer andar destemido na rua após executar os desenhos para a campanha publicitária do Circo contra mulheres. Adeus à idéia que Hugh Hefner é legal porque ele deixa Conspiradores irem às festas na Mansão da Playboy — adeus ao sonho de Hefner de uma idade avançada madura. Adeus ao Tuli e os Fugs e todos os garotos na parte dianteira do lugar — que sempre souberam que eles odiavam as mulheres que amaram. Adeus à noção que o velho bom Abbie é diferente de qualquer outra empreendedora estrela de cinema que se livra da primeira esposa e crianças, boas o bastante para os dias antigos, mas ineptas uma vez que você está Fazendo Isso. Adeus ao padrão duplo hipócrita dele que fede através do charme maltrapilho. Adeus ao adorável pró-Liberacionista das Mulheres Paul Krassner, com toda sua raiva surpreendida que as mulheres perderam seu senso de humor nesta edição e não riem mais das gracinhas que as machucam e degradam: adeus à lembrança de seu pôster aerossol Boceta Imediata – pode, à coluna dele para a revista masculina de ódio à mulher Cavalier, ao sonho dele de uma Violação-ao-Poder contra as esposas dos legisladores, ao Bodes Expiatórios e Freiras Realistas e anedotas simpáticas sobre a filhinha que ele vê tão frequentemente quanto qualquer outro pai de meia-idade em Scarsdale convenientemente divorciado; adeus para sempre à noção que um homem é meu irmão que, como Paul, compra uma prostituta para a noite como o presente de aniversário para um amigo, ou que, como Paul, desenrola a lista de nomes em ordem alfabética das pessoas no movimento das mulheres que ele fodeu, desenrola a lista de nomes na melhor tradição de vestiário – como prova que ele não é um opressor sexista.

Deixe tudo isso ser exposto. Deixe que pareça perversa, rancorosa, sapatão, Solanasesca, frustrada, louca, tola, frígida, ridícula, amarga, desagradável, odiadora de homens, difamatória, pura, injusta, invejosa, intuitiva, baixa, estúpida, mesquinha, liberadora. Nós somos as mulheres que os homens nos advertiram sobre.

We are the women that men have warned us about

E deixe que uma mentira descanse para sempre: a mentira que os homens são oprimidos, também, pelo sexismo — a mentira que pode existir tal coisa como grupos de libertação dos homens. Opressão é algo que um grupo de pessoas comete contra um outro grupo especificamente por causa de uma característica ameaçadora compartilhada pelo último grupo — cor da pele ou sexo ou idade, etc. Os opressores são de fato fodidos sendo mestres (racismo fere pessoas brancas, estereótipos sexuais são prejudiciais aos homens), mas esses mestres não são oprimidos. Qualquer mestre tem a alternativa de se despojar do sexismo ou racismo; as oprimidas e os oprimidos não têm alternativa — por elas e eles não terem poder — senão lutar. Em longo prazo, a Libertação das Mulheres naturalmente libertará homens — mas em curto prazo ela está custando aos homens muito privilégio, que ninguém abandona de modo disposto ou facilmente. Sexismo não é falha das mulheres — mate seus pais, não suas mães.

Derrube isso. Adeus a um belo movimento novo de ecologia que poderia lutar para salvar a todos e todas nós se parasse de confundir mulheres com tipos de mãe terra ou garotas da fronteira, se cedessem agora mesmo liderança àquelas que não tem poluído o planeta porque essa ação envolve poder e mulheres não tiveram qualquer poder por aproximadamente 5,000 anos, ceder liderança àquelas cujos cérebros são tão resistentes e desobstruídos quanto o de todo homem, mas cujos corpos estão também inevitavelmente cientes do relacionamento trancado entre seres humanos e sua biosfera — a terra, as marés, a atmosfera, a lua. Ecologia não é uma grande vara se você é uma mulher — sempre esteve aí.

Adeus à cumplicidade inerente nos Membros da Tribo de Berkeley que são editores das Histórias em Quadrinhos do Trashman; adeus, no que se refere ao assunto, ao raciocínio que acha o devasso Trashman um modelo apropriado, por mais que a história em quadrinho seja interessante, para um homem revolucionário — de algum modo relacionado ao mesmo raciocínio Super-macho que permite que a primeira declaração sobre a Libertação das Mulheres e o chauvinismo masculino que saiu do Partido das Panteras Negras a ser feito por um homem, falando um monte sobre como as irmãs deveriam falar por si mesmas. Tal ignorância e arrogância doentia – convém a um revolucionário.

Nós sabemos como o racismo é trabalhado profundamente no inconsciente pelo Sistema – a mesma maneira que o sexismo é, como aparece no próprio nome Os Jovens Senhores. O que você é se você é uma “mulher viril” — uma Senhor? Ou, deus não permita, uma Jovem Dama? Mude o, mude o para Jovem Gente se precisar, ou nunca pretenda que o próprio nome é inocente da dor, da opressão.

Teoria e prática — e os anos-luz entre elas. “Faça!” diz Jerry Rubin na última edição do Rato — mas ele não faz ou cada leitor do Rato conheceria a cara situada próxima ao artigo dele assim como conhecem a tão-fotografada cara dele: era Nancy Kurshan, sua esposa, o poder atrás do palhaço.

Adeus à Nova Nação e ao Parque de Pessoas da Terra pelo que diz respeito a isso, concebido por homens, anunciado por homens, conduzido por homens — condenado antes do nascimento pelas sementes podres da supremacia masculina transplantadas no solo fresco. Era meu irmão que listou seres humanos entre os objetos que estariam facilmente disponíveis após a Revolução: Grama livre, comida livre, mulheres livres, ácido livre, roupas livres, etc.? Era meu irmão que escreveu “Foda suas mulheres até elas não poderem levantar” e disse que tietes eram garotas liberadas porque elas preferiam um aperto de mama em vez de um aperto de mão? O epítome do exclusionismo masculino — “homens farão a Revolução e suas garotas”. Não meu irmão. Não. Não minha revolução. Nenhum suspiro do meu apoio ao Cristo forjado — John Sinclair. Apenas um a menos para preocupar-se a respeito por dez anos. Eu não escolho meu inimigo por meu irmão.

Adeus, adeus. Para o inferno com a noção simplista que a libertação automática para a mulher – ou pessoas não-brancas – acontecerá zap! com o advento da revolução socialista. Papo furado. Dois males pré-datam o capitalismo e claramente puderam sobreviver e pós-datar o socialismo: sexismo e racismo. As mulheres eram a primeira propriedade quando a Contradição Principal ocorreu: quando uma metade da espécie humana decidiu subjugar a outra metade, porque ela era diferente, estrangeira, a Outra. Dali foi um passo bastante fácil estender o conceito de Outro para alguém de cor de pele diferente, altura ou peso diferentes ou linguagem — ou força para resistir. Adeus a estes simplórios sonhos otimistas de igualdade socialista que todos os nossos bons irmãos socialistas querem que nós acreditemos. Quão meramente uma política liberal ela é! Quão mais além nós temos de ir para criar essas mudanças profundas que gerariam uma sociedade sem gênero. Profunda, Irmã. Além do que é masculino ou feminino. Além dos padrões que nós aderimos agora sem ousar examiná-los como macho-criados, macho-dominados, macho-fodidos, e em interesse do próprio macho. Além de todos os padrões conhecidos, especialmente aqueles revolucionários que nós invocamos retoricamente. Além — para uma espécie com um novo nome, que não ousará definir a ela mesma como Homem.

Eu disse uma vez, “Eu sou uma revolucionária, não apenas uma mulher”, e sabia minha própria mentira mesmo enquanto eu disse as palavras. A piedade da ânsia dessa declaração para ser aceitável àqueles cujo zelo revolucionário ninguém questionaria, isto é, qualquer supremacista masculino na contra-esquerda. Mas para se tornar um verdadeiro revolucionário alguém precisa primeiro se tornar um dos oprimidos (não organizar ou educar ou manipulá-los, mas se tornar um deles) – ou perceber que você já é um. Nenhuma mulher quer isso. Porque essa compreensão é humilhante, fere. Dói compreender que em Woodstock ou Altamont uma mulher poderia ser declarada nervosa ou uma má perdedora se ela não quisesse ser estuprada. Dói aprender que as irmãs ainda no cativeiro masculino da Esquerda estão rebaixandoas feministas loucas para fazerem elas mesmas parecerem não ameaçadoras para nossos opressores mútuos. Dói ser peões nesses jogos. Dói tentar mudar cada dia da sua vida agora mesmo — não na conversa, não “na sua cabeça”, e não apenas convenientemente “lá fora” no Terceiro Mundo (do qual metade são mulheres) ou nas comunidades negra ou morena (da qual metade são mulheres), mas na sua própria casa, cozinha, cama. Não há como escapar, não importa como mais você é oprimida, da opressão primária de ser fêmea em um mundo patriarcal. Dói ouvir que as irmãs na Frente de Libertação Gay, também, têm de lutar continuamente contra o chauvinismo masculino de seus irmãos gays. Dói que Jane Alpert foi aclamada quando bateu sobre o imperialismo, o racismo, o Terceiro Mundo, e Todos Aqueles Tópicos Seguros, mas vaiada e assobiada por uma multidão de homens do movimento que não queriam nada disso quando ela começou a falar sobre a Libertação das Mulheres. A reação está sobre nós.

Eles nos dizem que a alternativa é permanecer ali e “lutar”, confrontar a dominação masculina na contra-esquerda, lutar ao lado ou atrás ou abaixo dos nossos irmãos – para mostrá-los que nós somos tão resistentes, tão revolucionárias, exatamente como qualquer-imagem-do-que-eles-querem-agora-de-nós-como-uma-vez-eles-quiserem-que-fôssemos-femininas-e-ficássemos-em-casa-esquentando-o-fogão. Eles colocarão liderança titular sobre nossos ombros agradecidos, quer seja uma mulher simbólica no Movimento de Oradores do Departamento do Conselho, ou uma fã da Conspiração ou uma das “respeitáveis” agitadoras do Motor da Cidade Nove. Irmãs todas, com apenas uma alternativa real: apreender nosso próprio poder em nossas próprias mãos, todas as mulheres, separadas e juntas, e fazer a Revolução da maneira que ela deve ser feita — nenhuma prioridade desta vez, nenhum grupo sofrendo dito para esperar até depois.

É trabalho das feministas revolucionárias construir um Movimento de Libertação das Mulheres independente sempre mais forte, de modo que as irmãs no cativeiro da contra-esquerda tenham algum lugar para voltar-se, para usar seu poder e raiva e beleza e frieza em seu próprio interesse pela primeira vez, nos seus próprios termos, nos seus próprios assuntos, em seu próprio estilo — quaisquer que eles sejam. Não é para nós na Libertação das Mulheres discutirmos com elas e confrontá-las da maneira que os homens delas fazem, nem culpá-las — ou nós mesmas — pelo que qualquer uma de nós é: um povo oprimido, mas um povo elevando nossa consciência para algo que é o outro lado da raiva, alguma coisa brilhante e suave e fria, como a ação diferente de qualquer coisa até o momento contemplada ou executada. É para nós sobrevivermos (algo que os homens brancos radicais têm o luxo de nunca terem realmente se preocupado a respeito, com todas as opções deles), conversarmos, planejarmos, sermos pacientes, darmos as boas-vindas às novas fugitivas da Esquerda forjada sem arrogância, mas somente humildade e prazer, impulsionar — atacar.

Há algo que toda mulher usa ao redor do seu pescoço em uma fina corrente de medo — um amuleto de loucura. Para cada uma de nós, existe em algum lugar um momento de insulto tão intenso que ela agarrará e arrancará o amuleto fora, mesmo se a corrente rasgar a carne do pescoço dela. E a última proteção de ver a verdade terá ido. Você pensa que, puxando furtivamente todo dia a corrente e avançando agradavelmente insana como eu estou, eu poderia estar preocupada com as disputas pueris da Esquerda forjada que ri da minha dor? Você pensa que tal preocupação é notável quando colocada lado a lado com o sofrimento de mais da metade da espécie humana pelos últimos 5,000 anos — devido aos caprichos da outra metade? Não, não, não, adeus a tudo isso.

Womankind is awakening

Mulheres são Algo Mais. Desta vez, nós vamos chutar todos os emperramentos, e os garotos terão justamente de se apressarem para prosseguirem, ou então saírem e se juntarem abertamente à estrutura de poder da qual eles já são os filhos ilegítimos. Qualquer homem que reivindique ser sério sobre querer despojar a si mesmo do privilégio do pênis devia desengatar isto: toda a liderança masculina fora da Esquerda é a única maneira; e isso vai acontecer, por meio dos homens abdicarem ou por meio das mulheres se apoderarem do leme. Compete aos “irmãos” — afinal, sexismo é interesse deles, não nosso; nós estamos muito ocupadas nos reunindo para lidar com o fanatismo deles. Assim eles terão de decidirem se eles querem ser despojados do privilégio do pênis ou — que merda, por que não dizer isto, diga! — serem despojados dos pênis. Quão profundo o medo desta perda deve ser, que ela pode ser suprimida somente pela edificação de impérios e o empreendimento de guerras genocidas!

Adeus, adeus para sempre, Esquerda forjada, contra-esquerda, reflexo masculino-dominado do espelho de vidro-rachado do Pesadelo Amerikano. Mulheres são a verdadeira Esquerda. Nós estamos nos levantando, poderosas em nossos corpos imundos; brilhante loucura incandescente em nossos cérebros inferiores; cabelos selvagens esvoaçantes, olhos selvagens fitantes, vozes selvagens penetrantes; destemidas pelo sangue que nós derramamos a cada vinte e oito dias; rindo da nossa própria beleza, nós que perdemos nosso senso de humor; lamentando por tudo que cada uma tão preciosa de nós poderia ter sido neste lugar e tempo de vida se ela não tivesse nascido uma mulher; enchendo nossas bocas de dedos para parar os gritos de dor e ódio e piedade pelos homens que nós temos amado e amamos ainda; lágrimas em nossos olhos e amargura em nossas bocas pelas crianças que não poderíamos ter, ou não poderíamos não ter, ou não queríamos, ou não queríamos ainda, ou queríamos e tivemos neste lugar e neste tempo de horror. Nós estamos nos levantando com uma fúria mais antiga e potencialmente maior do que qualquer força na história, e desta vez nós seremos livres ou ninguém sobreviverá. Poder para todos os povos ou para nenhum. Inteiramente abaixo, desta vez.

Kathleen Cleaver livre!

Anita Hoffman livre!

Bernardine Dohrn livre!

Donna Malone livre!

Ruth Ann Miller livre!

Leni Sinclar livre!

Jane Alpert livre!

Gumbo livre!

Cohen livre!

Judy Lampe livre!

Kim Agnew livre!

Holly Krassner livre!

Lois Hart livre!

Alice Embree livre!

Nancy Kurshan livre!

Lynn Phyillips livre!

Dinky Forman livre!

Sharon Krebs livre!

Iris Luciano livre!

Robin Morgan livre!

Valerie Solanas livre!

NOSSAS IRMÃS LIVRES!   NÓS MESMAS LIVRES!

– Robin Morgan (Janeiro de 1970)

Arte e Feminismo

12 jun

Houve um tempo em que tu não eras escrava… lembra-te disso. Um tempo em que caminhavas sozinha, cheia de riso, em que te banhavas nua no mar… Podes ter perdido a lembrança desse tempo, mas procura lembrar-te… Podes dizer que não há palavras que descrevam esse tempo, podes dizer que ele não existe. Mas recorda. Faz um esforço para o relembrares, ou, se não conseguires, inventa-o! (“Les Guerrilleres” de Monique Wittig)

Por todo o tempo em que escritores têm escrito, até hoje, essa tem sido uma arte masculinista – arte que serve aos homens em um mundo feito por homens. Essa arte tem degradado as mulheres. Ela tem, praticamente sem exceção, nos caracterizado como seres mutilados, sensibilidades empobrecidas, pessoas triviais com preocupações triviais. Ela tem sido, praticamente sem exceção, saturada com uma misoginia tão profunda, uma misoginia que era de fato sua visão de mundo, que quase todas nós, até hoje, tinhamos pensado que é isso o que o mundo é, que é isso o que as mulheres são.

Eu me perguntei, o que eu aprendi com todos estes livros que eu li a medida que eu crescia? Eu aprendi algo real ou verdadeiro sobre as mulheres? Eu aprendi algo real ou verdadeiro sobre séculos de mulheres e o que elas viveram? Estes livros iluminaram minha vida, ou a vida ela mesma, de alguma maneira proveitosa, ou profunda, ou generosa, ou rica, ou real? Eu penso que não. Eu penso que essa arte, esses livros, teriam me roubado de minha vida assim como o mundo que eles servem roubou minha mãe da dela.

Theodore Roethke, nos é dito um grande poeta, um poeta da condição masculina eu insistiria, escreveu:

Duas das cargas mais apontadas contra a poesia de mulheres são falta de extensão – em matéria de assunto e em tom emocional – e falta de um senso de humor. E alguém poderia, em instâncias individuais entre escritores de talento verdadeiro, adicionar outras falhas estéticas e de moral: o prolongamento; o adorno de temas triviais; o interesse pelas meras superfícies da vida – aquela divisão especial do talento feminino na prosa – se escondendo das verdadeiras agonias do espírito; a recusa de encarar o que a existência é; a postura lírica ou religiosa; correr entre o vestiário feminino e o altar, batendo um pé minúsculo contra Deus; ou o deslizamento em um laconismo que significa que a autora reinventou a integridade; a preocupação excessiva a respeito do Destino, do tempo; a lamentação da sina da mulher… e assim por diante.

O que caracteriza arte masculinista, e os homens que a fazem, é misoginia. Eles, os masculinistas, nos disseram que eles escrevem sobre condição humana, que seus temas são grandes temas – amor, morte, heroísmo, sofrimento, história ela mesma. Eles nos disseram que nossos temas – amor, morte, heroísmo, sofrimento, história ela mesma – são triviais porque nós somos, pela nossa própria natureza, triviais.

Eu renuncio a arte masculinista. Ela não é a arte que ilumina a condição humana – ela ilumina apenas, e para a vergonha final e perpétua dos homens, o mundo masculinista – e quando nós olhamos ao nosso redor, esse mundo não é algum para se orgulhar. Arte masculinista, a arte de séculos de homens, não é universal, nem a explicação final do que é existir no mundo. Ela é, no fim, descritiva apenas de um mundo em que as mulheres são subjugadas, submissas, escravizadas, privadas de formação plena, distintas apenas pela carnalidade, rebaixadas. Eu digo, minha vida não é trivial; minha sensibilidade não é trivial; minha luta não é trivial. Nem a da minha mãe, ou da mãe dela. Eu renuncio aqueles que odeiam as mulheres, que têm desprezo pelas mulheres, que ridicularizam e rebaixam mulheres, e quando o faço, eu renuncio a maior parte da arte, arte masculinista, já feita.

Como feministas, nós habitamos o mundo de uma maneira diferente. Nós vemos o mundo de uma nova maneira. Nós ameaçamos virá-lo de cabeça para baixo e às avessas. Nós pretendemos mudá-lo tão completamente que algum dia os textos dos escritores masculinistas serão curiosidades antropológicas. Do que estava falando aquele Mailer, nossa descendência perguntará, ela deverá encontrar o trabalho dele em algum arquivo oculto. E ela se surpreenderá – confusa, triste – com a glorificação masculinista da guerra; as mistificações masculinistas a cerca de matança, mutilação, violência, e dor; as máscaras torturadas do heroísmo fálico; a arrogância fútil da supremacia fálica; as representações empobrecidas de mães e filhas, e desta forma, da vida ela mesma. Ela perguntará, essas pessoas realmente acreditaram nesses deuses?

Arte feminista não é um córrego minúsculo escoando do grande rio da arte verdadeira. Ela não é uma rachadura em uma pedra por outro lado perfeita. Ela é, completamente espetacularmente eu acho, a arte que não é fundamentada na subjugação de metade da espécie. Ela é a arte que tomará os grandes temas humanos – amor, morte, heroísmo, sofrimento, história ela mesma – e os tornará completamente humanos. Ela também pode, ainda que nossas imaginações estejam tão mutiladas agora que nós somos incapazes até mesmo da ambição, introduzir um novo tema, um tão grande e tão rico como aqueles outros – devemos chamá-lo de “alegria”?

Nós não podemos imaginar um mundo em que mulheres não são experimentadas como triviais e desprezíveis, em que mulheres não são rebaixadas, abusadas, exploradas, estupradas, diminuídas antes mesmo de nascermos – e por isso nós não podemos saber que tipo de arte será feita nesse novo mundo. Nosso trabalho, que honra completamente a estes séculos de irmãs que vieram antes de nós, é para a parteira desse novo mundo por vir. Ele será deixado para nossas crianças e para as crianças delas viverem nele.

(Andrea Dworkin em “Feminism, Art and my Mother Sylvia”)

A Guerra Contra as Mulheres na Arte

Ainda não se fez nenhum estudo exaustivo das atitudes em relação às mulheres na arte do século 20. Mas John Berger, no seu importante livro, Ways of Seeing (Maneiras de Ver), relaciona a apresentação da mulher, na pintura e publicidade ocidentais, com a obsessão consumista do capitalismo. O deus do capitalismo (que Berger considera quase uma religião) é o dinheiro. Só o dinheiro e nada mais do que o dinheiro pode dar ao homem status, amor e felicidade (definida como a inveja dos outros). Argumentando que no século 20 a tradição da pintura ocidental foi apropriada pela publicidade, Berger demonstra que os temas da arte do Ocidente são utilidades projetadas para atrair o consumidor masculino. Por suposição, ele é sempre homem, mesmo quando o anúncio se dirige às mulheres. Elas são estimuladas a comprar coisas que as transformem em utilidades mais atraentes para os homens. Elas próprias são as mercadorias mais importantes que o mundo é capaz de oferecer aos compradores masculinos. Sua sexualidade, maternidade, beleza e trabalho são expostos na pintura e publicidade ocidentais como qualidades à disposição dos homens que tenham dinheiro suficiente. Mas o brilhante e fascinante argumento de Berger não toca nem de leve no ódio dos homens por essas mesmas utilidades.

As feministas apontam o ódio às mulheres nas obras de pintores como Willem de Kooning, Picasso e nos retratos de Balthus, de meninas surpreendentemente lascivas. Porém, a análise feminista da arte é impedida por estarmos obrigadas, em nossas almas, à liberdade de expressão. Os artistas se apropriam do corpo feminino, junto com a natureza e os objetos, como seu tema, sua posse. Pintando com ódio as mulheres ou as idealizando e grosseiramente sentimentalizando (como Renoir, por exemplo) ou tomando posse delas com fria superioridade (como Degas), eles implicitamente violentam a realidade e autonomia femininas. Mas não se pode negar aos artistas o direito à sua própria visão. Embora, na realidade, as mulheres raramente ataquem os homens, Jerome Robbins criou um balé, A Gaiola, em que dois homens são eviscerados por mulheres em forma de insetos. Representações de ameaça às mulheres são comuns em todas as artes e, supostamente, exprimem um verdadeiro terror masculino a elas. Não é de admirar! Tendo subjugado as mulheres em todos os aspectos da vida, eles naturalmente temem a retaliação.

A escultura moderna freqüentemente representa as mulheres com pequenas cabeças vazias e orgãos sexuais proeminentes ou grandemente aumentados. Visitando galerias de escultura nos museus modernos (especialmente o Centro Pompidou, em Paris), senti-me agredida pela arte supostamente abstrata do século 20, que representa partes exageradamente ampliadas do corpo feminino, principalmente os seios. Parece que se pretendeu ridicularizar e desmembrar esculturas pré-históricas de mulheres.

Não é a imagem erótica do corpo feminino que perturba, mas o fato que ela é assim feita para ser apropriada por um sexo que assume posição superior, comprador de utilidades. Muitas mulheres se magoam ao ver seus corpos assim apropriados e transformados em utilidades, na moda e na publicidade. A maioria engole seu desgosto. Várias, ensinadas a “verem” dessa maneira, deformam-se para se adaptarem ao modelo, como as meias-irmãs de Cinderela, forçando os pés para caber no sapato de cristal do Príncipe. As desanimadas acham difícil, talvez impossível, fazer mais do que tentar ver claramente e procurar dizer o que nós vemos. A visão clara nos conduz, não às mulheres, mas aos homens e à canibalística psique masculina. Mas as mulheres que descrevem e analisam essa psique masculina são acusadas de “injuriar os homens”. A sociedade, complacente com a representação feminina negativa nas artes, torna-se absurdamente censora quando as mulheres atacam, na sua arte, os valores masculinos, seus comportamentos e imagens.

A depreciação das mulheres nas imagens publicitárias encontra eco nas representações cinematográficas. As mulheres são tratadas tão indecorosamente nos filmes que Janet Maslin, não particularmente feminista, foi levada a protestar contra a ridicularização de mulheres, como Madonna em Dick Tracy, Jennifer Jason Leigh em Noites Violentas no Brooklin e Anjo Assassino, Victoria Abril em Ata-me, de Pedro Almodóvar, e Goldie Hawn em Alta Tensão. Neste último, Hawn é uma advogada debilóide que passa a maior parte do tempo de camisola. O filme mais popular de 1990, Uma Linda Mulher, é um conto de Cinderela com uma prostituta. Os anúncios cinematográficos mostram a protagonista feminina quase nua, mesmo que não apareça assim no filme. Ou homens carregando mulheres como presas, a exemplo de Gerard Depardieu com a risonha Andie McDowell pendurada em seus ombros em Passaporte do Amor. Estupros e quase-estupros tornaram-se tão obrigatórios no cinema violento dos Estados Unidos como são, há tempos, na Índia. Acrescente-se a isso a tendência do cinema e dos livros de apresentarem as mulheres com carreiras como mesquinhas e egoístas (Sigourney Weaver em Uma Secretária de Futuro) ou imensamente más (Atração Fatal e Acima de Qualquer Suspeita que, como romance encabeçou a lista dos mais vendidos por dois anos) e a depreciação e ódio às mulheres nos divertimentos populares e tem-se uma anatomia dos sentimentos dos homens a respeito das mulheres na nossa época, sem nem se falar da pornografia.

(Marilyn French em “The War Against Women”, 1992)

 

A “Grande Arte” e a “Cultura”

por Valerie Solanas

O “artista” macho procura compensar sua incapacidade de viver e sua frustração de não ser uma fêmea construindo um mundo completamente artificial onde ele é o herói, ou seja, um mundo em que ele pode exibir traços femininos e em que a mulher é reduzida a papéis subordinados, insípidos e extremamente limitados, ou seja, ser macho.

Dado que seu objetivo “artístico” não é comunicar-se (como não tem nada dentro dele, ele não tem nada a dizer), mas disfarçar seu animalismo, ele recorre ao simbolismo e à ambigüidade (“materiais profundos”). A grande maioria das pessoas, particularmente as “educadas”, carentes de fé em seus próprios julgamentos, humildes e respeitosas da autoridade (“Papai sabe mais” é traduzido para a linguagem adulta como “O crítico sabe mais”, “O escritor sabe mais”, “O Ph.D sabe mais”), são facilmente levadas a acreditar que a incerteza, a evasão, a incompreensibilidade, o indireto, a ambigüidade e o aborrecimento são marcas de profundidade e brilho.

A “Grande Arte” prova que os homens são superiores às mulheres, que os homens são mulheres, já que quase toda a chamada “Grande Arte”, como os antifeministas adoram nos lembrar, foi criada pelos homens. Nós sabemos que a “Grande Arte” é grande porque as autoridades masculinas nos disseram isso e não podemos afirmar o contrário, pois somente quem tem uma sensibilidade extraordinária, muito superior à nossa, podem perceber e apreciar tal grandeza, sendo o fato deles apreciarem essa merda a prova de sua sensibilidade superior. Apreciar é a única diversão dos “cultos”; passivos e incompetentes, sem imaginação nem perspicácia, eles precisam se contentar com isso; incapazes de criar suas próprias diversões, de criar um mundinho seu, de afetar da menor maneira seu ambiente, eles têm de aceitar o que lhes é dado; incapazes de criar ou de se relacionar, eles contemplam. Absorver “cultura” é uma tentativa desesperada, frenética, de se divertir em um mundo sem diversão, de escapar do horror de uma existência estéril e estúpida. A “cultura” fornece um suborno para o ego dos incompetentes, um meio de racionalizar a observação passiva; eles podem se orgulhar de sua capacidade de apreciar as coisas “mais finas”, de ver uma jóia onde há apenas uma merda (querem ser admirados por admirar). Não acreditando em sua capacidade de mudar o que quer que seja, resignados com o estado atual, eles têm de ver beleza na merda porque, até onde vai a sua visão de mundo, a única coisa que terão mesmo é a merda.

A veneração pela “Arte” e pela “Cultura” – além de levar muitas mulheres para atividades enfadonhas, passivas, que as desviam de atividades mais importantes e gratificantes e do cultivo de suas capacidades ativas, leva à constante intromissão em nossa sensibilidade de pomposas dissertações sobre a profunda beleza dessa e daquela merda. Isso permite que o “artista” seja estabelecido como alguém dotado de sentimentos, percepções, compreensões e julgamentos superiores, e por meio disso minando a fé das mulheres inseguras do valor e da validez dos seus próprios sentimentos, percepções, compreensões e julgamentos.

O macho, tendo uma extensão muito limitada de sentimentos e, conseqüentemente, percepções, compreensões e julgamentos muito limitados, precisa do “artista” para guiá-lo, para que o diga o que é a vida. Mas o “artista” macho, sendo totalmente sexual, incapaz de se relacionar com qualquer coisa a não ser com suas próprias sensações físicas e não tendo nada para expressar além da compreensão de que para o macho a vida é sem sentido e absurda, não pode ser artista. Como pode ele, que não é capaz de vida, nos dizer no que consiste a vida? Um “artista macho” é uma contradição de termos. Um degenerado só pode produzir “arte” degenerada. A verdadeira artista é toda fêmea autoconfiante, saudável, e em uma sociedade feminina, a única Arte, a única Cultura, serão as fêmeas orgulhosas, excêntricas e autênticas se divertindo umas com as outras e com tudo mais no universo.

(do “SCUM Manifesto” de 1967)

O medo do feminismo entre as mulheres

28 abr

“…mulheres jovens têm sido profundamente afetadas hoje pela demonização do feminismo…”

 

“Mulheres mais velhas podem ver o backlash (reação) como temporário e mutável; mulheres mais jovens podem vê-lo tanto como as coisas são. A situação econômica para estudantes universitárias piorou durante esses 12 anos do mesmo jeito, com menos ajuda estudantil disponível, dessa maneira jovens mulheres podem experimentar sua situação como extremamente precária – Precária demais para se arriscar com feminismo.”

 

“Minhas estudantes mulheres jovens frequentemente interpretam críticas ao casamento – um material principal da análise feminista – por séculos – como evidências das famílias disfuncionais de suas autoras. Isto demonstra mais uma realidade com a qual elas cresceram: a tendência crescente de patologizar todo tipo de política relativa à oposição.”

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“Para entender o que as mulheres temem quando elas temem feminismo – e o que elas não temem – é útil traçar uma distinção entre consciência de gênero e consciência feminista.”

 

“Consciência de gênero toma duas formas: consciência da vulnerabilidade das mulheres e celebração da diferença das mulheres… Consciência de gênero é uma condição prévia para consciência feminista, mas elas não são a mesma. A diferença encontra-se na conexão entre gênero e política. Feminismo politiza consciência de gênero, a insere em uma análise sistemática de histórias e estruturas de dominação e privilégio. Feminismo faz perguntas – perguntas difíceis e complexas, frequentemente com respostas contraditórias e confusas – sobre como consciência de gênero pode ser usada tanto em prol e contra as mulheres, como vulnerabilidade e diferença ajudam e impedem a autodeterminação e liberdade das mulheres. Medo do feminismo, então, não é um medo de gênero, mas é certamente um medo de política. Medo de política pode ser entendido como um medo de viver consequências, um medo de represálias.”

 

“O medo de represálias políticas é muito realista. Existem interesses poderosos opostos ao feminismo – vamos esclarecer a respeito disso. Não é dos interesses da supremacia branca que mulheres brancas insistam nos direitos de aborto, que mulheres de cor insistam sobre um fim para a esterilização involuntária, que, todas as mulheres insistam na autodeterminação reprodutiva. Não é do interesse do capitalismo que as mulheres demandem direitos econômicos ou valor comparável. Não é dos interesses de muitos indivíduos homens ou muitas instituições que as mulheres demandem uma autonomia sexual não exploradora. O que nossa cultura de massa pareceria se ela não vendesse corpos de mulheres – até mesmo à parte da pornografia. Não é dos interesses do patriarcado heterossexista que as mulheres desafiem as nossas compreensões de eventos intituladas HOMEM MATOU A FAMÍLIA PORQUE ELE AMAVA ELA, que mulheres desafiem a noção de violência dos homens contra mulheres e crianças como derivada do “amor” mais propriamente do que poder. Não é dos interesses de qualquer dos sistemas de dominação que nos emaranham que nós vejamos como estes sistemas trabalham – que nós compreendamos a violência masculina, dominação masculina, supremacia de raça e classe, como sistemas de permissão para o exercício de poder tanto individual como institucional, mais propriamente do que meramente patologias individuais. Não é dos interesses do patriarcado branco supremacista capitalista que as mulheres aliem-se através das diferenças. Aliar-se através das diferenças é um trabalho difícil, e é frequentemente impedida pela homofobia.”

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“A insistência feminista que o pessoal é político pode dar a impressão de ameaçar antes de empoderar o eu frágil, emergente de uma garota conforme ela se desenvolve em um ser sexual e relacional. Mulheres jovens podem acreditar que uma identidade feminista as coloca para fora do reservatório para muitos homens, limita as opções de quem elas podem vir a ser com um parceiro…”

 

“Minhas estudantes mulheres, feministas e não feministas igualmente, estão perfeitamente cientes dos riscos de irem desacompanhadas para a biblioteca a noite. Ao mesmo tempo, elas estão assustadas por eu sugerir que tais restrições baseadas em gênero (?) ao seu acesso às instalações da universidade negam a elas uma educação igual. Não é que a violência dos homens não é real para elas, mas que elas estão relutantes em traçar suas consequências e compreender suas complexidades.”

 

“Mulheres de todas as idades temem a situação existencial do feminismo, o que nós aprendemos de Simone de Beauvoir, o que nós aprendemos das feministas radicais nos anos 1970, o que nós aprendemos das mulheres feministas de cor nos anos 1980: feminismo tem consequências.”

 

“Mulheres temem tomar uma posição pública, entrar no discurso público, demandar e talvez ganhar atenção. E para quê? Para ser chamada de uma “feminazi”? Para serem denunciadas como traidoras da “natureza essencial” das mulheres?”

 

“O desafio à divisão público-privado que o feminismo representa é profundamente ameaçadora para mulheres jovens que somente desejam serem deixadas em paz, para todas as mulheres que acreditam que elas podem se esconder de assuntos feministas por não serem feministas.”

 

“…mulheres que temem o feminismo temem viver as consequências. Pensar mais severamente, agir mais cuidadosamente; feminismo requer que você entre em um mundo supersaturado com significado, com implicações. E para as mulheres privilegiadas em particular, a noção que o privilégio de alguém vem às custas de outro alguém – que o meu privilégio é a sua opressão – é profundamente ameaçadora.”

 

“Medo do feminismo é também medo da complexidade, medo de pensar, medo das idéias – nós vivemos, afinal, em uma cultura profundamente anti-intelectual. Feminismo é um dos poucos movimentos que produz intelectuais não acadêmicas – leitoras, escritoras, pensadoras, e teoristas fora da academia, que combinam e refinam seu conhecimento com sua prática. Que outro movimento se aloja tão substancialmente nas livrarias?”

 

“Feminismo é trabalho – tão certamente trabalho intelectual como ele é trabalho ativista – e pode ser muito fácil para mulheres que têm sido feministas por um longo tempo esquecerem o quanto seus discernimentos são de difícil obtenção, quantas leituras e conversas e reflexões e trabalho os produziram.”

 

“Feminismo requer uma expansão do eu – uma expansão de empatia, interesse, inteligência, e responsabilidade através das diferenças, histórias, culturas, etnicidades, identidades sexuais, othernesses (diversidades).”

 

“Mulheres têm razões reais para temer o feminismo, e nós não fazemos nenhum serviço às mulheres jovens se nós sugerirmos para elas que o feminismo propriamente dito é seguro. Ele não é. Posicionar-se em oposição à sua cultura, ser crítica as instituições, comportamentos, discursos – quando tão claramente NÃO É do seu interesse imediato fazer de tal modo – requer muito de uma pessoa jovem, de qualquer pessoa.” 

Passagens extraídas de Fear of Feminism – Why young women get the willies, de Lisa Maria Hogeland @ Vancouver Rape Relief

 

http://www.rapereliefshelter.bc.ca/volunteer/fearoffem.html

Prostituição e Supremacia Masculina

10 mar

por Andrea Dworkin

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 [Andrea Dworkin pronunciou este discurso em um simpósio intitulado “Prostituição: Da Academia ao Ativismo,” patrocinado pelo Michican Journal of Gender and Law na Universidade de Michigan Law School, 31 de Outubro, 1992.]


Eu sou muito honrada de estar aqui com minhas amigas e minhas iguais, minhas irmãs deste movimento.

Eu também sinto uma quantidade terrível de conflito relativo a estar aqui, porque é muito duro pensar a respeito de falar sobre prostituição em um ambiente acadêmico. É realmente difícil.

As suposições da academia mal podem começar a imaginar a realidade da vida para mulheres na prostituição. A vida acadêmica é estabelecida na noção preexistente que há um amanhã e o próximo dia e um dia seguinte; ou que alguém pode vir para dentro, longe do frio, para estudar; ou que há algum tipo de discussão de idéias e um ano de liberdade no qual você pode ter discordâncias que não lhe custarão sua vida. Estas são premissas que aqueles que são estudantes ou que lecionam aqui influenciam diariamente. Elas são antitéticas para as vidas de mulheres que estão ou que estiveram na prostituição.

Se você esteve na prostituição, você não tem amanhã em sua mente, porque amanhã é um tempo muito distante. Você não pode supor que viverá de um minuto a outro. Você não pode e você não faz. Se você faz, então você é tola, e ser tola no mundo da prostituição é ser danificada, é ser morta. Nenhuma mulher que é prostituída pode se permitir ser tão tola, de modo que ela verdadeiramente acreditaria que o amanhã virá.

Eu não posso reconciliar estas diferentes premissas. Eu apenas posso dizer que as premissas da mulher prostituída são minhas premissas. Minhas ações são provenientes delas. São nelas que meu trabalho esteve baseado todos estes anos. Eu não posso aceitar – porque eu não posso acreditar – as premissas do feminismo que sai da academia: o feminismo que diz que nós ouviremos todos estes lados ano após ano, e então, algum dia, no futuro, por meio de algum processo que nós ainda não descobrimos, nós decidiremos o que é certo e o que é verdade. Isso não faz sentido para mim. Eu compreendo que para muitos de vocês isso faz sentido. Eu estou falando através do maior divisor cultural em minha própria vida. Eu tenho tentado falar através dele por vinte anos com o que eu consideraria sucesso marginal.

Eu quero trazer-nos de volta aos fundamentos. Prostituição: o que é ela? É o uso do corpo de uma mulher para sexo por um homem, ele paga dinheiro, ele faz o que quer. O minuto que você se move para fora do que ela realmente é, você se move para longe da prostituição no mundo das idéias. Você se sentirá melhor; você terá um tempo melhor; é mais divertido; há o bastante para se discutir, mas você estará discutindo idéias, não prostituição. Prostituição não é uma idéia. É a boca, a vagina, o reto, penetrado geralmente por um pênis, às vezes por mãos, às vezes por objetos, por um homem e então outro e então outro e então outro e então outro. É isso o que ela é.

Eu peço que vocês pensem sobre seus próprios corpos – se vocês podem fazer de tal modo fora do mundo que os pornógrafos criaram em suas mentes, as bocas e vaginas e ânus flutuantes, lisos e mortos, de mulheres. Eu peço que vocês pensem concretamente sobre seus próprios corpos usados dessa maneira. Quão sexy é isto? É divertido? As pessoas que defendem prostituição e pornografia querem que vocês sintam uma pequena excitação excêntrica toda vez que vocês pensarem em algo enfiado em uma mulher. Eu quero que vocês sintam os delicados tecidos em seu corpo que estão sendo abusados. Eu quero que você sinta qual é a sensação quando isso acontece novamente e novamente e novamente e novamente e novamente e novamente e mais uma vez: porque é isso que a prostituição é.

Por esse motivo que – da perspectiva de uma mulher na prostituição ou de uma mulher que esteve na prostituição – as distinções que outras pessoas fazem entre se o evento aconteceu no Hotel Plaza ou em algum lugar mais deselegante não são as distinções que importam. Estas são percepções irreconciliáveis, com premissas irreconciliáveis. Naturalmente as circunstâncias devem importar, vocês dizem. Não, elas não importam, porque nós estamos falando sobre o uso da boca, da vagina, e do reto. As circunstâncias não abrandam ou modificam o que a prostituição é.

E assim, muitas de nós estamos dizendo que a prostituição é intrinsicamente abusiva. Deixe-me ser clara. Eu estou lhes falando sobre a prostituição por si mesma, sem mais violência, sem violência extra, sem uma mulher ser golpeada, sem uma mulher ser empurrada. Prostituição em si mesma é um abuso do corpo de uma mulher. Aquelas de nós que dizem isto são acusadas de serem simplórias. Mas prostituição é muito simples. E se você não é simplória, você nunca a compreenderá. Quanto mais complexa você conduz a ser, mais distante da realidade você estará – estará mais prudente, estará mais feliz, mais diversão você terá discutindo o problema da prostituição. Na prostituição, nenhuma mulher permanece inteira. É impossível usar um corpo humano do modo que os corpos das mulheres são usados em prostituição e ter um ser humano inteiro no fim dela, ou no meio dela, ou perto do começo dela. É impossível. E nenhuma mulher fica inteira de novo mais tarde, depois. Mulheres que foram abusadas na prostituição têm algumas escolhas a fazer. Vocês viram aqui mulheres muito corajosas fazerem algumas escolhas muito importantes: usar o que elas sabem; tentar comunicar-lhes o que elas sabem. Mas ninguém fica inteira, porque muito é levado embora quando a invasão é dentro de você, quando a brutalidade é dentro da sua pele. Nós tentamos tão duramente comunicar, cada uma de nós, a dor. Nós pleiteamos, nós fazemos analogias. A única analogia que eu posso pensar a respeito da prostituição é que ela é mais como violação múltipla do que ela é como qualquer outra coisa.

Oh, você diz, a violação múltipla é completamente diferente. Uma mulher inocente está andando pela rua e ela é tomada de surpresa. Toda mulher é a mesma mulher inocente. Toda mulher é tomada de surpresa. Na vida de uma prostituta, ela é tomada de surpresa novamente e novamente e novamente e novamente e mais uma vez. A violação múltipla é interrompida por uma troca de dinheiro. Isso é tudo. Essa é a única diferença. Mas o dinheiro tem uma qualidade mágica, não é? Você dá a uma mulher dinheiro e tudo o que você lhe fez ela quis, ela mereceu. Agora, nós compreendemos a respeito do trabalho masculino. Nós compreendemos que os homens fazem coisas que não gostam de fazer a fim de ganhar um salário. Quando homens fazem trabalho alienado em uma fábrica nós não dizemos que o dinheiro transforma a experiência para eles de tal maneira que eles a amaram, tiveram um bom divertimento, e de fato, aspiraram a mais nada. Nós olhamos para o enfado, a ausência de saída; nós dizemos, certamente a qualidade de vida de um homem deveria ser melhor que essa.

A função mágica do dinheiro é engendrada; o que é dizer, mulheres não são pretensas a terem dinheiro, porque quando mulheres têm dinheiro, presumivelmente mulheres podem fazer escolhas, e uma das escolhas que mulheres podem fazer é não estar com homens. E se mulheres escolhem não estar com homens, os homens então serão privados do sexo que homens sentem que têm um direito. E se é necessário que uma classe inteira de pessoas seja tratada com crueldade e indignidade e humilhação, colocada em uma condição de servidão, de modo que os homens possam ter o sexo que eles pensam que têm direito, então é o que acontecerá. Essa é a essência e o significado da dominação masculina. Dominação masculina é um sistema político.

É sempre extraordinário, quando olhando para esta troca de dinheiro, entender que nas mentes da maioria das pessoas o dinheiro vale mais do que a mulher é. Os dez dólares, os trinta dólares, os cinqüenta dólares, valem mais do que toda a sua vida. O dinheiro é real, mais real do que ela é. Com o dinheiro ele pode comprar uma vida humana e apagar sua importância de cada aspecto da consciência civil e social e consciência e sociedade, das proteções da lei, de todo direito de cidadania, de qualquer conceito de dignidade humana e soberania humana. Por malditos cinqüenta dólares qualquer homem pode fazer isso. Se você fosse pensar em uma maneira de punir mulheres por serem mulheres, pobreza seria o bastante. Pobreza é dura. Fere. As cadelas estariam arrependidas de serem mulheres. É duro estar com fome. É duro não ter um lugar agradável para viver. Você se sente realmente desesperada. Pobreza é muito punitiva. Mas pobreza não é o bastante, porque a pobreza sozinha não abastece o reservatório de mulheres para homens foderem em demanda. Pobreza é insuficiente para criar esse reservatório de mulheres, não importa quão famintas as mulheres fiquem. Assim, em diferentes culturas, as sociedades são organizadas diferentemente para alcançar o mesmo resultado: não somente as mulheres são pobres, mas a única coisa de valor que uma mulher tem é sua assim-chamada sexualidade, que, junto com o seu corpo, tem sido transformada em um produto vendável. Sua assim-chamada sexualidade torna-se a única coisa que importa; seu corpo se torna a única coisa que qualquer um quer comprar. Então uma suposição pode ser feita: se ela é pobre e precisa de dinheiro, ela estará vendendo sexo. A suposição pode estar errada. A suposição não cria o reservatório de mulheres que são prostituídas. Ele toma mais que isso. Em nossa sociedade, por exemplo, na população de mulheres que são prostituídas agora, nós temos mulheres que são pobres, que tem vindo de famílias pobres; elas também são vítimas de abuso sexual infantil, especialmente incesto; e elas tornaram-se desabrigadas.

Incesto é o campo de treinamento. O incesto é onde você envia a garota para aprender como fazer. Assim você, obviamente, não tem de enviá-la para lugar nenhum, ela já está lá e ela não tem nenhum outro lugar para ir. Ela é treinada. E o treino é específico e é importante: não ter limites reais ao seu próprio corpo; saber que ela é valiosa somente para o sexo; aprender sobre homens o que o ofensor, o ofensor sexual, lhe está ensinando. Mas mesmo isso não é o bastante, porque depois ela foge e ela está fora nas ruas e desabrigada. Para a maioria das mulheres, alguma versão de todos estes tipos de destituição precisa ocorrer.

Eu tenho pensado muito nos últimos dois anos sobre o significado da falta de lar para mulheres. Eu penso que é, em um sentido literal, uma condição prévia, junto com o incesto e a pobreza nos Estados Unidos, para criar a população de mulheres que podem ser prostituídas. Mas isso tem um significado mais extenso, também. Pense sobre onde alguma mulher realmente tem um lar. Nenhuma criança está segura em uma sociedade na qual uma de cada três garotas será abusada sexualmente antes de ter dezoito anos. Nenhuma esposa está segura em uma sociedade em que figuras aparecem para dizer que uma de duas mulheres casadas foi ou é espancada. Nós somos as donas de casa; nós fazemos estes lares, mas não temos direitos a eles. Eu penso que nós estávamos erradas ao dizer que prostituição é a metáfora para o que acontece a todas as mulheres. Eu penso que a falta de um lar é realmente essa metáfora. Eu penso que as mulheres estão expropriadas de um lugar para viver que seja seguro, que pertença à própria mulher, um lugar em que ela tenha não apenas a soberania sobre seu corpo, mas a soberania sobre a sua vida social real, quer ela seja a vida em uma família ou entre amigos. Na prostituição, uma mulher permanence desabrigada.

Mas há algo muito específico sobre a condição de prostituição que eu gostaria de tentar falar a respeito com vocês.

Eu quero enfatizar que nestas conversas, estas discussões sobre a prostituição, nós estamos todas procurando por uma linguagem. Nós todas estamos tentando encontrar maneiras de dizer o que nós sabemos e também descobrir o que nós não sabemos. Há uma presunção da classe media que a mesma sabe tudo o que vale a pena saber. É uma presunção da maioria das mulheres prostituídas que ela sabe nada que vale a pena saber. De fato, nenhuma das duas coisas é verdadeira. O que importa aqui é tentar aprender o que a mulher prostituída sabe, porque é de imenso valor. É verdadeiro e tem sido escondido. Tem sido escondido por uma razão política: sabê-lo é chegar mais perto de saber como desfazer o sistema de dominação masculina que está assentado sobre todas nós.

Eu penso que as prostitutas experimentam uma inferioridade específica. Mulheres em geral são consideradas sujas. A maioria de nós experimenta isto como uma metáfora, e, sim, quando as coisas ficam muito ruins, quando coisas terríveis acontecem, quando uma mulher é estuprada, quando uma mulher é golpeada, sim, então você reconhece que embaixo da sua vida de classe média existem suposições que porque você é uma mulher você é suja. Mas uma prostituta vive a realidade literal de ser a mulher suja. Não há metáfora. Ela é a mulher coberta de sujeira, o que é dizer que cada homem que esteve alguma vez sobre ela deixou uma parte de si mesmo para trás; e ela é também a mulher que tem uma função puramente sexual sob o domínio masculino de modo que à extensão que as pessoas acreditam que sexo é sujo, as pessoas acreditam que mulheres prostituídas são sujas.

A mulher prostituída não é, entretanto, estática nesta sujeira. Ela é contagiosa. Ela é contagiosa porque um homem após o outro avança sobre ela e então ele parte. Por exemplo, em discussões sobre AIDS, a mulher prostituída é vista como a fonte da infecção. Esse é um exemplo específico. Geralmente, a mulher prostituída é vista como a fonte geradora de tudo que é ruim e errado e podre relacionado a sexo, com o homem, com mulheres. Ela é vista como alguém que é merecedora de punição, não apenas por causa do que ela “faz” – e eu ponho faz entre aspas, visto que na maioria das vezes isso lhe é feito – mas por causa do que ela é.

la prostitucion no es trabajo

Ela é, naturalmente, a mulher anônima perfeita. Os homens amam isso. Enquanto ela estiver em seu vigésimo quarto nome falso – boneca, bebê, gracinha, torta de cereja, o que quer que os pornógrafos estejam preparando esta semana como uma invenção mercadológica – seu anonimato diz ao homem, ela não é ninguém real, eu não tenho que ocupar-me com ela, ela não tem um último nome de qualquer modo, eu não tenho de lembrar quem ela é, ela não é alguém específica para mim, ela é uma incorporação genérica da mulher. Ela é percebida como, tratada como – e eu quero que você lembre disto, isto é real – muco vaginal. Ela é suja; muitos homens estiveram lá. Muito sêmen, muito lubrificante vaginal. Isto é visceral, isto é real, isto é o que acontece. Seu ânus é frequentemente rasgado por causa do intercurso anal, ele sangra. Sua boca é um receptáculo para sêmen, deste modo que ela é percebida e tratada. Todas as mulheres são consideradas sujas por causa do sangue menstrual, mas ela sangra outras vezes, em outros lugares. Ela sangra porque ela foi ferida, ela sangra e tem ferimentos.

Quando homens usam mulheres na prostituição, eles estão expressando um ódio puro ao corpo feminino. É tão puro como qualquer coisa nesta terra jamais foi ou é. É um desprezo tão profundo, tão profundo, que uma vida humana inteira é reduzida a alguns orifícios sexuais, e ele pode fazer qualquer coisa que ele quiser. Outras mulheres nesta conferência disseram-lhes isso. Eu quero compreender, acreditar nelas. É verdade. Ele pode fazer qualquer coisa que quiser. Ela não tem nenhum lugar para ir. Não há nenhum policial para se queixar; o policial pode bem ser o indivíduo que está fazendo isso. O advogado que ela encontra vai querer pagamento na mesma moeda. Quando ela precisa de ajuda médica, verifica-se que ele é apenas um outro freguês. Você compreende? Ela não é literalmente nada. Agora, muitas de nós temos experiências nas quais nos sentimos como nada, ou nós sabemos que alguém nos considera como nada ou menos que nada, sem valor, mas para uma mulher na prostituição, esta é a experiência de vida diária, dia a dia.

Ele, entretanto, o campeão aqui, o herói, o homem, ele está ocupado ligando-se com outros homens através do uso do corpo dela. Uma das razões que ele está lá é porque algum homem esteve lá antes e algum homem estará lá depois dele. Isto não é teoria. Quando você vive isso, você vê é verdade. Homens usam os corpos de mulheres em prostituição e em violação múltipla para comunicarem-se uns com os outros, para expressar o que eles têm em comum. E o que eles têm em comum é que eles não são ela. Assim ela torna-se o veículo de sua masculinidade e seu homoerotismo, e ele usa as palavras para dizer-lhe isso. Ele compartilha a sexualidade das palavras, assim como dos atos, dirigidos a ela, com outros homens. Todas esses palavrões são apenas as palavras que ele usa para dizer-lhe o que ela é. (E do ponto de vista de qualquer mulher que foi prostituída – se fosse pra ela expressar esse ponto de vista, o que é provável que ela não expresse – a luta que artistas masculinos travam pelo direito de usar palavrões é uma das chacotas mais doentias e desprezíveis na face desta terra, porque não há nenhuma lei, nenhuma regra, nenhuma etiqueta, nenhuma cortesia que interrompa qualquer homem de usar cada uma daquelas palavras em qualquer mulher prostituída; e as palavras têm o ferrão que é pretendido terem porque de fato, a estão descrevendo.) Ela é consumível. Engraçado, ela não tem nome. Ela é uma boca, uma vagina, e um ânus, quem precisa dela em particular quando existem tantas outras? Quando ela morre, quem sente sua falta? Quem lamenta por ela? Ela está ausente, alguém vai procurá-la? Eu quero dizer, quem é ela? Ela não é ninguém. Não metaforicamente ninguém. Literalmente, ninguém.

Agora, na história do genocídio, por exemplo, os Nazistas se referiram aos Judeus como piolhos e eles disseram, nós vamos exterminá-los. Na história do massacre dos povos indígenas das Américas, aqueles que fizeram a política disseram, eles são piolhos, mate-os. Catharine MacKinnon falou mais cedo sobre a limpeza de gênero: assassinando prostitutas. Ela está certa. Mulheres prostituídas são as mulheres que estão aí, disponíveis para a matança ginocida. E as mulheres prostituídas estão sendo assassinadas a cada dia, e nós não pensamos que estamos encarando qualquer coisa semelhante a uma emergência. Por que nós deveríamos? Elas não são ninguém. Quando um homem mata uma prostituta, ele se sente íntegro. É uma matança justa. Ele apenas se livrou de um pedaço de sujeira, e a sociedade lhe diz que ele está certo.

Há também um tipo específico de desumanização experimentado por mulheres que são prostituídas. Sim, todas as mulheres experimentam serem objetos, serem tratadas como objetos. Mas as mulheres prostituídas são tratadas como um determinado tipo de objeto, que é dizer, um alvo. Um alvo não é qualquer objeto velho. Você pode cuidar consideravelmente bem de alguns objetos que você tem em torno da casa. Mas você vai atrás de um alvo. Você põe o dardo no buraco. Para isso que a prostituta existe. O que isso deveria lhe dizer é quanta agressão entra no que um homem faz quando ele procura, encontra, e usa uma mulher prostituída.

Um dos conflitos que eu sinto a respeito de falar aqui, estar aqui, é que eu estou receosa que qualquer coisa que eu diga que é mesmo levemente abstrata afastará imediatamente a mente de todo mundo do problema fundamental. E o problema fundamental é o que é feito às mulheres que estão na prostituição, o que exatamente a prostituição é. Mas eu tenho que correr esse risco porque eu quero lhes dizer que vocês não podem pensar sobre a prostituição a menos que você se disponha a pensar sobre o homem que precisa foder a prostituta. Quem é ele? O que ele está fazendo? O que ele quer? Do que ele precisa?

Ele é todos. Eu quero que você tome uma hora, na Segunda-feira. Eu quero que você ande pela sua escola, e eu quero que você olhe para cada homem. Eu quero que você retire as roupas dele com seus olhos. Eu quero que você o veja com um pau duro. Eu quero que na sua mente você o coloque em cima de uma mulher com dinheiro sobre a mesa próxima a eles. Todos. O reitor desta escola de direito, os professores, os estudantes masculinos, todos. Se você está indo à sala de emergência, eu quero que você faça isso. Se você tem um ataque cardíaco, eu quero que você faça isso com o médico que está cuidando de você. Porque este é o mundo em que as mulheres prostituídas vivem. É um mundo em que não importa o que lhe acontece, há um outro homem que queira uma parte de você. E se você precisa de algo dele, você tem que dar-lhe essa parte.

Os homens que usam prostitutas pensam que são realmente grandes e realmente corajosos. Eles estão muito orgulhosos de si mesmos – eles vangloriam-se muito. Eles escrevem romances, escrevem canções, escrevem leis – povo produtivo – e têm uma percepção que eles são muito aventureiros e heróicos, e por que eles pensam isso? Porque eles são predadores que saem e perturbam as mulheres – eles se esfregam contra uma mulher que seja suja e vivem para contar sobre isso. Maldição. Eles vivem para contar sobre isso. Infelizmente. Virtualmente todo o tempo, não importa o que fizeram, não importa que dano eles tenham feito a ela – eles vivem para contar sobre isso, cantar a respeito disso, escrever sobre isso, fazer programas televisivos sobre isso, fazer filmes sobre isso. Eu gostaria de lhes dizer que estes homens são covardes, que estes homens são brutos, que estes homens são tolos, que estes homens são capazes de fazer o que eles fazem porque eles têm o poder dos homens como uma classe atrás deles, que eles alcançam porque os homens usam força contra as mulheres. Se você quer uma definição do que é um covarde, é necessitar empurrar uma classe inteira de pessoas para baixo de modo que você possa andar sobre elas. As sociedade são organizadas de modo que os homens tenham o poder que precisem, para usar as mulheres da maneira que quiserem. As sociedades podem ser organizadas de maneiras diferentes e ainda criar uma população de mulheres que são prostituídas. Por exemplo, nos Estados Unidos as mulheres são pobres, as mulheres são a maioria das vezes vítimas de incesto, as mulheres são desabrigadas. Em partes da Ásia, elas são vendidas para a escravidão na idade de seis meses porque elas são fêmeas. Isso é como o fazem lá. Não tem que ser feito da mesma maneira em cada lugar para ser a mesma coisa.

Dominação masculina significa que a sociedade cria um reservatório de prostitutas por todos os meios necessários de modo que os homens tenham o que eles precisem para permanecer no topo, se sentirem grandes, literalmente, metaforicamente, em cada maneira; no entanto os homens são nosso padrão para seres humanos. Nós dizemos que queremos ser humanas. Nós dizemos que queremos que eles nos tratem como seres humanos. Numa sociedade de domínio masculino, homens são os seres humanos. Eu quero apontar-lhes que nós usamos a palavra humano metaforicamente. Nós não estamos falando sobre como os homens agem. Nós estamos falando sobre uma idéia, um sonho, uma visão que nós tenhamos, do que é um ser humano. Nós estamos dizendo que nós não os queremos pisando sobre nós; nós também estamos dizendo implicitamente que eles não são um bom padrão para o que é ser humano, porque olha o que nos estão fazendo. Nós não podemos querer ser como eles, porque ser como eles significa usar pessoas da maneira que eles usam pessoas – para o estabelecimento de sua importância ou de sua identidade. Eu estou dizendo que homens são em parte figuras mitológicas para nós quando falamos sobre eles como seres humanos. Nós não estamos falando sobre como os homens realmente se comportam. Nós estamos falando sobre a mitologia dos homens como os árbitros da civilização. Este movimento político envolve compreender que as qualidades humanas que nós queremos na vida um com o outro não são qualidades que caracterizam a maneira como os homens se comportam realmente.

 las feministas exigimos ni una mujer mas víctima de las redes de prostitución

O que a prostituição faz numa sociedade de dominação masculina é que ela estabelece a parte social abaixo de que não há nenhuma parte inferior. É o fundo. Mulheres prostituídas estão todas na parte mais baixa. E todos os homens estão acima dela. Eles podem não estar muito acima, mas até os homens que são prostituídos estão acima da parte inferior que é formada por mulheres e meninas que são prostituídas. Cada homem nesta sociedade tira proveito do fato de que as mulheres são prostituídas quer cada homem use uma mulher na prostituição ou não. Isto não deveria ter que ser dito, mas isso tem de ser dito: a prostituição vem do domínio masculino, não da natureza feminina. É uma realidade política que existe porque um grupo de pessoas tem e mantém poder sobre um outro grupo de pessoas. Eu sublinho isso porque eu quero lhes dizer que a dominação masculina é cruel. Eu quero lhes dizer que a dominação masculina deve ser destruída. A dominação masculina precisa ser terminada, não simplesmente reformada, não feita um pouco mais agradável, e não feita um pouco mais agradável para algumas mulheres. Nós precisamos olhar para o papel dos homens –olhar realmente para ele, estudá-lo, compreendê-lo – em manter mulheres pobres, em manter mulheres sem abrigo, em manter meninas prostituídas, o que é dizer, em criar prostitutas, uma população de mulheres que serão usadas na prostituição. Nós precisamos olhar para o papel dos homens em romantizar prostituição, em fazer seus custos a mulheres culturalmente invisíveis, em usar o poder desta sociedade, o poder econômico, o poder cultural, o poder social, para criar o silêncio, criar o silêncio entre aquelas que foram feridas, o silêncio das mulheres que foram usadas.

Nós precisamos olhar para o papel dos homens em criar um ódio às mulheres, em criar discriminação contra as mulheres, em usar a cultura para sustentar, promover, advogar, celebrar agressão contra as mulheres. Nós precisamos olhar para o papel dos homens em criar uma idéia política de liberdade que somente eles podem realmente ter. Isso não é engraçado? O que é liberdade? Dois mil anos de discurso e de algum modo ele conduz a nos deixar de fora. É um monólogo surpreendentemente servido que eles tenham vindo aqui. Nós precisamos olhar para o papel dos homens em criar sistemas políticos que subordinam mulheres; e isso significa que nós temos de olhar para o papel dos homens em criar a prostituição, em proteger a prostituição – como a aplicação da lei faz isso, como o jornalismo faz isso, como os advogados fazem isso. Nós precisamos saber as maneiras em que todos esses homens usam prostitutas e em fazê-lo eles destroem a dignidade humana das mulheres.

A cura para este problema é política. Isso significa tomar o poder para longe dos homens. Isto é material real; é material sério. Eles têm muito disto. Eles não o usam direito. Eles são brigões. Eles não têm um direito ao que eles têm; e isso significa que tem que ser tomado deles. Nós temos que tomar o poder que eles têm de nos usar para longe deles. Nós temos que tomar o poder que eles têm de nos ferir para longe deles. Nós temos que tomar o dinheiro deles. Eles têm demasiado dele. Qualquer homem que tenha bastante dinheiro para gastar degradando a vida de uma mulher na prostituição tem demasiado dinheiro. Ele não precisa do que ele tem em seu bolso. Mas há uma mulher que precisa.

Nós precisamos levar embora seu domínio social – sobre nós. Nós vivemos em uma tirania de mentirosos e hipócritas e sádicos.

Agora, isso lhes custará lutar contra eles. Eles têm que ser descolados das mulheres, você me compreende? Eles precisam ser suspendidos para cima e para fora. O que é intratável sobre prostituição é domínio masculino. E é o domínio masculino que tem de ser terminado de modo que as mulheres não serão prostituídas.

Você, você – você tem que enfraquecer e destruir cada instituição que é parte de como os homens governam as mulheres. E não pergunte se você deveria. A pergunta é como, não se. Como? Faça uma coisa, ao invés de gastar suas vidas debatendo se vocês deveriam fazer isso ou se deveriam fazer aquilo e eles realmente merecem isso e é realmente justo? Justo? Isso é realmente justo? Queridas, nós poderíamos tomar as metralhadoras hoje à noite. Justo? Nós quebramos nossos próprios corações com estas perguntas. Isso é justo? Não respeite as leis deles. Não. Não respeite as leis deles. Mulheres precisam fazer leis. Eu espero que Catharine MacKinnon e eu tenhamos dado um exemplo. Nós tentamos. Não há nenhuma razão para nenhuma mulher, nenhuma mulher no mundo, realizar basicamente felação no sistema legal corrente. Mas na maior parte é o que alguém na escola de direito aprende a fazer.

O que eu espero que vocês levem daqui é isto: que todo e qualquer vestígio de hierarquia sexual significará que algumas mulheres em algum lugar estão sendo prostituídas. Se vocês olharem em torno de si e verem a supremacia masculina, vocês sabem que em algum lugar onde vocês não podem ver, uma mulher está sendo prostituída, porque toda hierarquia precisa de uma parte mais baixa e a prostituição é a parte mais baixa do domínio masculino. Assim, quando você se acomoda, quando concilia, quando se recusa propositadamente a saber, você está colaborando. Sim, eu sei que sua vida também está em cheque, mas sim, você está colaborando, as duas coisas são verdadeiras, na destruição da vida de uma outra mulher.

Eu estou pedindo que vocês façam a si mesmas inimigas do domínio masculino, porque ele tem que ser destruído para o crime da prostituição acabar – o crime contra a mulher, o crime da prostituição dos direitos-humanos: e tudo mais é além do ponto, uma mentira, uma desculpa, uma apologia, uma justificação, e todas as palavras abstratas são mentiras, justiça, liberdade, igualdade, elas são mentiras. Contanto que as mulheres estejam sendo prostituídas elas são mentiras. Vocês podem dizer a mentira e nesta instituição você será ensinada como contar a mentira; ou vocês podem usar suas vidas para desmantelar o sistema que cria e então protege este abuso. Você, uma pessoa bem treinada, pode estar com o abusador ou com a rebelde, a que resiste, a revolucionária. Você pode estar com a irmã a quem ele está fazendo isto; e se você é muito corajosa você pode tentar ficar entre eles de modo que ele tenha que passar através de você para chegar até ela. Esse, de qualquer maneira, é o significado da palavra escolha frequentemente mal empregada. Estas são escolhas. Eu estou lhe pedindo que faça uma escolha.

Libertação Gay e Feminismo Lésbico

2 dez

 

Hoje muitas jovens lésbicas e homens gays chamarão a si mesmos ‘queer’ sem pensar bem. Mas este é um termo que se tornou de bom-tom para descrever lésbicas e gays somente na última década, e muitas lésbicas ainda acham o termo horrendo. Teoria e políticas Queer emergiram num ponto particular na história do desenvolvimento de movimentos lésbicos e gays. Muitas críticas feministas lesbianas vêem políticas queer como constituindo um backlash (reação) contra os interesses de mulheres e lesbianas. Para entender as políticas queer de hoje, nós precisamos ver como as idéias e práticas se desenvolveram de, ou são uma reação a, o que foi antes. Neste capítulo eu olharei para a libertação gay e feminismo lésbico como um contexto para entender políticas queer.

 

As idéias e estratégias da libertação gay saíram do mesmo cadinho que deu origem aos outros ‘novos’ movimentos sociais do final dos anos 60 e começo dos 70. Estes novos movimentos eram feminismo, libertação jovem, libertação negra, Paris de 1968 e o movimento de estudantes. Idéias socialistas e feministas infundiram a libertação gay desde o princípio. O nascimento da libertação gay é comumente datado pela assim-chamada rebelião de Stonewall em Greenwich Village em Junho de 1969, quando lésbicas, homens gays e drag queens pela primeira vez lutaram de volta em furiosas batalhas de rua contra o aborrecimento rotineiro de invasões policiais em clubes gays. De fato, ela precisa ser compreendida como oriunda de um gradualmente intensificado ânimo de frustração e resistência que tinha crescido dentro e fora das antigas organizações lésbicas e gays dos anos 60. Estas organizações anteriores assentaram a base que permitiu a libertação gay se desenvolver tão rapidamente (D’Emilio 1998, publicado primeiramente em 1983). Stonewall foi um catalisador, e bem apropriado para simbolizar o ânimo da época, mas não poderia ter inflamado um movimento político se o solo não tivesse sido bem preparado.

 

stonewall

Aquelas que foram chamadas organizações ‘homófilas’ foram estabelecidas nos anos 50 e 60 e predeterminaram a libertação gay. Estas organizações tem sido caracterizadas por historiadores como ‘assimilacionistas’, almejaram ganhar integração para homossexuais e acabar com penalidades legais. O que é diferente a respeito da libertação gay é que assimilação foi repudiada em favor de ‘sair do armário’, ‘orgulho gay’ e demandar as dramáticas mudanças sociais que eram consideradas necessárias para a liberdade de mulheres e lésbicas e gays. Ativistas da libertação gay, estimulados pela confiança adquirida do espírito da geração, na qual tantos grupos sociais estavam protestando, teorizando, demandando mudança radical, reclamaram sua gayzice e realizaram protestos dramáticos e divertidos em lugares públicos. 

 

Libertação gay foi originalmente concebida como a Frente de Libertação Gay (GLF). A palavra ‘Frente’ sugere os princípios socialistas da libertação gay. GLF foi moldada nos conflitos de libertação conduzidos por povos colonizados ao redor do mundo contra o imperialismo, como o Vietnã. Lisa Power, em sua história na GLF de Londres, comenta que ‘GLF de Londres atraiu, entre outros, pessoas com experiência na resistência à guerra do Vietnã, direitos de negros, libertação das mulheres, a imprensa underground, as Panteras Brancas (um grupo de apoio às Panteras Negras), o Grupo Marxista Internacional, o Partido Comunista, uma larga variedade de outros grupos esquerdistas incluindo Maoístas, a cultura de drogas, transexuais e garotos de aluguel’ (Power 1995: 16). 

 

A análise socialista foi aplicada à situação de lésbicas e homens gays. Havia uma crítica sobre a esquerda nesta época do que era vista como a ‘distorção geral de toda sexualidade nesta sociedade’ para o propósito de controle social e ‘para vender o excesso de bens de consumo o sistema econômico oprime’ (GLF 1971, citado por Power 1995: 53). Teoristas da libertação gay se engajaram em uma imensa crítica das forças capitalistas, exemplificadas pela indústria de sexo gay e proprietários de clubes gays, que criaram a exploração de homens gays. Argumentaram: ‘GLF espera providenciar uma evasão desesperadamente-necessitada por pessoas que estão cansadas do alienado e explorador mundo ‘gay’, sexo furtivo em banheiros públicos e perigosas excursões ao Hampstead Heath. Nós queremos prover um melhor cenário para o povo gay’ (p. 53). Ativistas da libertação gay rejeitaram o modelo médico de homossexualidade como doença. Lutaram para conseguirem, com êxito, remover a homossexualidade da lista dos Estados Unidos de diagnósticos de doenças mentais, a DSM 3. Proclamaram que ‘gay é bom’. Acreditavam que a opressão homossexual era resultado da dominação masculina, e que libertação das mulheres e libertação gay estavam inevitavelmente conectadas, de modo que uma não poderia ser alcançada sem a outra. 

 emocionante

A opressão homossexual e a opressão das mulheres eram ambas vistas como resultado da imposição do que eram chamados de ‘papéis sexuais’. Ativistas políticos da esquerda nesse período eram profundamente construtores sociais em sua aproximação. Deste modo, ambos libertadores gays e feministas viam papéis sexuais, o que provavelmente são chamados agora de ‘papéis de gênero’, como sendo politicamente construídos para assegurar a dominância masculina. Mulheres foram relegadas ao papel sexual feminino da esfera privada, criando e sendo preocupadas com o embelezamento do corpo a fim de ser um apropriado objeto sexual. Lésbicas foram perseguidas por elas desafiarem o papel sexual da fêmea de passividade sexual e a servidão aos homens. Homens gays foram perseguidos por eles desafiarem o papel sexual do macho, que, assim como exige comportamento masculino, foi fundado na heterossexualidade e no intercurso sexual com mulheres. 

 

No contexto de uma corrente política queer, que celebra aqueles que desempenham precisamente estes papéis na forma de butch/femme, transgenerismo e sadomasoquismo como a vanguarda transgressiva da revolução, é útil entender como uma libertação gay fortemente influenciada pelo feminismo os rejeitou completamente. A opressão dos homens gays foi vista como um reflexo da opressão das mulheres, então ‘papéis sexuais’ era um problema para homens gays também. Um gay liberacionista dos Estados Unidos expressou isso deste modo: 

 

Sexismo também é refletido nos papéis que homossexuais têm copiado da sociedade heterossexual. Os rótulos podem variar, mas é a mesma situação desigual, contanto que os papéis estejam rigidamente definidos, contanto que uma pessoa exerça poder sobre outra. Para héteros é macho-fêmea, senhor/senhora. Para gays é butch/femme, ativo-passivo. E o extremo, em cada caso, é sadista-masoquista. Seres humanos são objetificados, tratados como propriedade, como se uma pessoa pudesse possuir outra. (Diaman 1992: 263) 

 love-feminism-gays

 

 

Um ativista da libertação gay do Reino Unido escreveu: ‘Nós temos sido forçados a desempenhar papéis baseados na sociedade heterossexual, butch e femme, “casamentos” nucleares que continuam dentro do relacionamento a mesma opressão que a sociedade exterior força nas suas mulheres. (Walter 1980: 59).


Um outro escreveu: ‘Desempenhar papéis em uma sociedade que demanda definições de gênero, interpretação de papéis sexuais, masculino versus feminino – o que nós podemos fazer, aqueles quem a sociedade rejeita e condena como metade-homens? Muito frequentemente nós reagimos representando exageradamente’ (p. 87).
 

 

Nos anos da libertação gay, nenhum argumento foi feito que interpretação de papéis fosse uma experiência ‘autêntica’ e exclusivamente lésbica ou gay, como aconteceu nos anos 80 e 90 (Davis e Kennedy 1991). Não existia vergonha em reconhecer que gays estavam envolvidos em mimetizar a sociedade hétero quando eles embarcaram em desempenhar papéis. Gays eram entendidos como construídos pelas regras da sociedade heterossexual também. Carl Wittman da Libertação Gay dos Estados Unidos declara: 

 

Nós somos crianças da sociedade heterossexual. Nós ainda pensamos hétero; isso é parte da nossa opressão. Um dos piores de todos os conceitos héteros é a desigualdade… homem/mulher, em cima/em baixo, casado/não casado, heterossexual/homossexual, chefe/trabalhador, branco/negro, e rico/pobre….Por muito tempo nós mimetizemos estes papéis para nos proteger – um mecanismo de sobrevivência. Agora nós estamos nos tornando livres o suficiente para largar os papéis que selecionamos provenientes de instituições que tem nos aprisionado. (Wittman 1992: 333)

 seja você também uma lésbica!

  

Um grupo de mulheres que formou parte da libertação gay nos EUA, o Partido Gay Revolucionário da Convenção de Mulheres, rejeitou firmemente a idéia de papéis sexuais para lésbicas, por isto não conter vantagens para elas. 

 

Apesar de nenhuma de nós jamais ter sido educada em conduta de relações de igualdade sem papéis, lesbianas podem chegar mais perto desta realização que outros, porque nenhuma das instruções sexistas de representações de papéis que todo o mundo recebe ajuda a fazer seus relacionamentos funcionarem. Desempenhar papéis as leva para lugar nenhum, pois a “butch” não recebe nenhuma das recompensas sexuais, sociais e econômicas do macho enquanto a “fem” não tem um homem que traga para casa o salário de um homem ou para protegê-la do ataque de outros homens. (Gay Revolutionary Party Women’s Caucus 1992: 180)

  frente de libertação gay

  

Tais sentimentos, provenientes daqueles que teriam visto a si mesmos na época como a vanguarda da política gay, encontram-se em contraste total com a postura a respeito da interpretação de papéis lésbica que se desenvolveu mais tarde em algumas áreas da comunidade lesbiana. No fim dos anos 80 e anos 90 escritoras lésbicas tal como Joan Nestle (1987) construíram elas mesmas consideráveis reputações celebrando e romantizando representações de papéis como a mais autêntica forma de lesbianismo. Considerando que na libertação gay a resposta para os papéis era ‘largar’ eles, nas décadas posteriores eles foram selecionados, polidos e redispostos para o propósito de excitação sexual (Munt 1998; Hallberstam 1998a; Newman

1995). 

  

Uma outra corrente comum entre a libertação gay e a libertação das mulheres naquela época foi a recusa ao casamento e a família nuclear. Casamento era considerado por ambos a ser um contrato de exploração e dominância masculina, que necessita precisamente de ‘papéis sexuais’ que eram vistos como tão opressivos. Tão fundamental era a oposição ao casamento que ela foi enfatizada por Jill Tweedie, uma influente colunista do Guardian, em um fragmento positivo a respeito da libertação gay: ‘Libertação Gay não demanda pelo direito de homossexuais de casar. Libertação Gay questiona o casamento’ (citado por Power 1995: 64). 

 

Dois aspectos da teorização da libertação gay a distinguem dramaticamente das políticas queer. Um é a compreensão que a opressão de homens gays origina-se da opressão das mulheres. O outro é que muitas formas de comportamento gay masculino, que hoje são elogiadas nas políticas queer, são o resultado da opressão gay, e não pode ser destruída sem aniquilar a opressão das mulheres. Formas de comportamento que historicamente foram parte do comportamento de homens que fizeram sexo com homens, como caçada e efeminação, foram vistas por ativistas da GLF (Frente de Libertação Gay) como resultado da opressão, mais propriamente que inevitáveis ou formas autênticas de comportamento gay. 

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A excitação política original da libertação gay durou apenas poucos anos no Reino Unido e nos EUA. No Reino Unido alguns homens voltaram para práticas que eles tinham criticado quando a libertação gay estava em seu auge, tal como caçada (Shiers 1980). Agora que uma notória comunidade gay subsistiu como um mercado, novas atividades comerciais gays tornaram-se envolvidas na exploração de homens gays do mesmo modo que heterossexuais e negócios da máfia tinham feito em tempos anteriores: nasceu o capitalismo gay. Masculinidade gay tornou-se a moda, considerando que a política da libertação gay tinha evitado a masculinidade como o comportamento da dominância masculina (Humphries 1985). Uma política de ativismo gay de direitos iguais começou a desenvolver-se, o que alguns liberacionistas gays viam como desradicalizando e minando o movimento por mudança social radical. Por que, então, a objeção radical da libertação gay não foi sustentada?

  

traduzido do livro Unpacking Queer Politics, Sheila Jeffreys (2003).

Orgulho Lesbiano

1 dez

“Antes que existisse ou pudesse existir qualquer classe de movimento feminista, existiam as lésbicas. Mulheres que amavam outras mulheres, que recusavam o comportamento esperado delas, que recusavam definir-se em relação aos homens. Aquelas mulheres, nossas antepassadas, milhares cujos nomes não conhecemos, foram torturadas e queimadas como bruxas, caluniadas em escritos religiosos, e mais tarde “científicos”,  retratadas na arte e na literatura como mulheres bizarras, amorais, destrutivas, decadentes. Por um longo tempo as lésbicas foram a personificação do mal feminino.” (Adrienne Rich)

[Distribuído em uma reunião para a Semana do Orgulho Lesbiano, Central Park, Cidade de Nova Iorque, 28 de Junho de 1975.]

Para mim, ser uma lésbica significa três coisas –

Primeira, significa que eu amo, estimo, e respeito mulheres em minha mente, em meu coração, e em minha alma. Este amor das mulheres é o solo no qual minha vida está enraizada. É o solo da nossa vida comum em conjunto. Em qualquer outro solo, eu morreria. De qualquer maneira que eu sou forte, eu sou forte por causa do poder e paixão deste amor nutritivo.

Segunda, ser uma lésbica significa para mim que há uma paixão erótica e intimidade que surge do toque e sabor, uma selvagem, ternura picante, um suor doce molhado, nossos seios, nossas bocas, nossas vulvas, nossos cabelos entrelaçados, nossas mãos. Eu estou falando aqui de uma paixão sensual tão profunda e misteriosa como o mar, tão forte e serena como a montanha, tão insistente e mutável como o vento.

Terceira, ser uma lésbica significa para mim a memória da mãe, lembrada em meu próprio corpo, procurada, desejada, encontrada, e verdadeiramente honrada. Significa a lembrança do ventre, quando nós éramos uma com nossas mães, até o nascimento quando nós fomos separadas. Significa um retorno àquele lugar interno, dentro dela, dentro de nós mesmas, aos tecidos e membranas, à umidade e sangue.

Há um orgulho no amor nutritivo que é nosso solo comum, e no amor sensual, e na lembrança da mãe–e esse orgulho brilha radiante como o sol do verão ao meio dia. Este orgulho não pode ser degradado. Aqueles que o degradariam estão na posição de lançar punhados de lama no sol. Ainda ele brilha, e aqueles que atiram lama apenas sujam suas próprias mãos.

Ocasionalmente o sol é coberto por camadas densas de nuvens escuras. Uma pessoa olhando para cima juraria que não há sol. Mas o sol ainda brilha. À noite, quando não há iluminação, o sol ainda brilha. Durante a chuva ou granizo ou furacão ou tufão, o sol ainda brilha.

O sol pergunta a si mesmo, “Eu sou bom? Eu valho a pena? Há o suficiente de mim?” Não, ele queima e ele brilha. O sol se pergunta, “O que a lua pensa de mim? Como Marte se sente a respeito de mim hoje?” Não, ele queima, ele brilha. O sol se pergunta, “Eu sou tão grande como outros sóis em outras galáxias?” Não, ele queima, ele brilha.

Neste país, nos próximos dias, eu penso que haverá uma terrível tempestade. Eu penso que os céus escurecerão para além de qualquer reconhecimento. Aquelas pessoas que caminham pelas ruas caminharão por elas na escuridão. Aquelas que estão em cadeias ou instituições mentais não verão o céu de jeito nenhum, apenas a escuridão fora das janelas com barras. Aquelas que estão com fome e em desespero podem não olhar para cima de jeito nenhum. Elas verão a escuridão quando ela se encontrar junto ao chão na frente de seus pés. Aquelas que são estupradas verão a escuridão quando levantarem os olhos na direção do rosto do estuprador. Aquelas que são agredidas e brutalizadas por loucos olharão atentamente para a escuridão a fim de discernir quem está se movendo na direção delas a cada momento. Será difícil lembrar, enquanto a tempestade estiver intensa, que ainda, mesmo que não possamos vê-lo, o sol queima. Será difícil lembrar que, mesmo que não consigamos ver, o sol ainda queima. Nós tentaremos vê-lo e nós tentaremos senti-lo, e nós esqueceremos que ele ainda nos aquece, que se ele não estivesse lá, queimando, brilhando, esta terra seria um lugar frio e desolado e infértil.

Contanto que nós tenhamos vida e respirarmos, não importa como a terra ao nosso redor esteja escura, aquele sol ainda queima, ainda brilha. Não existe hoje sem ele. Não existe o dia de amanhã sem ele. Não existiu o dia de ontem sem ele. Essa luz está dentro de nós – constante, quente, e curativa. Lembrem-se disso, irmãs, nos dias escuros por vir.

“Orgulho Lesbiano” 1975, 1976 por Andrea Dworkin. Todos os direitos reservados. Publicada primeiramente sob o título “O Que É Orgulho Lesbiano?” em A Segunda Onda, Vol. 4, No. 2, 1975. Distribuída como uma preleção sob o título “O Que É Orgulho Lesbiano?”

The BITCH Manifesto

30 nov

Por Jo Freemanjo-freeman

(Nota: Jo Freeman era a editora da “Voz do Movimento de Libertação das Mulheres”, que pode ter sido o primeiro periódico da libertação nacional das mulheres. Este artigo é suas reflexões sobre como mulheres fortes são percebidas numa sociedade sexista e apareceu pela primeira vez em 1971.)

…o homem é definido como um ser humano e a mulher é definida como uma fêmea. Quando ela tenta comportar-se como um ser humano ela é acusada de tentar emular o macho… (Simone de Beauvoir)

BITCH é uma organização que ainda não existe. O nome não é um acrônimo. Ele significa exatamente o que ele parece.

BITCH é composta de Bitches. Existem muitas definições de uma bitch (cadela). A definição mais cortês é uma fêmea de cão. Aquelas definições de cadelas que são também homo sapiens são raramente tão objetivas. Elas variam de pessoa para pessoa e dependem firmemente do quanto uma cadela a definidora se considera. De qualquer modo, todo mundo concorda que uma cadela é sempre uma fêmea, cão, ou de outra maneira.

Também é geralmente concordado que uma Cadela é agressiva, e consequentemente não feminina (ahem). Ela pode ser sexy, que no caso ela torna-se uma Deusa Cadela, um caso especial que não nos concernirá aqui. Mas ela jamais é uma “mulher verdadeira”.

Cadelas têm algumas ou todas as características seguintes.

1. Personalidade. Cadelas são agressivas, assertivas, dominadoras, arrogantes, mentes fortes, malvadas, hostis, diretas, objetivas, sinceras, maliciosas, casca grossa, teimosas, depravadas, autoritárias, competentes, competitivas, insistentes, barulhentas, independentes, obstinadas, exigentes, manipuladoras, egoístas, compulsivas, realizadoras, esmagadoras, ameaçadoras, assustadoras, ambiciosas, resistentes, impudentes, masculinas, impetuosas, e turbulentas. Entre outras coisas. Uma Cadela ocupa grande espaço psicológico. Você sempre sabe que ela está perto. Uma Cadela não recebe merda de ninguém. Você pode não gostar dela, mas não pode ignorá-la.

2. Físico. Cadelas são grandes, altas, fortes, largas, estrondosas, violentas, ásperas, deselegantes, desajeitadas, espaçosas, estridentes, feias. Cadelas preferem mover seus corpos livremente do que conter, refinar e confinar seus movimentos na maneira feminina apropriada. Elas andam para cima ruidosamente, dão passos largos quando caminham e não se preocupam com o lugar onde elas colocam as pernas quando sentam. Elas têm vozes altas e frequentemente as usam. Cadelas não são bonitas.

3. Orientação. Cadelas buscam suas identidades estritamente através delas mesmas e do que elas fazem. Elas são sujeitos, não objetos. Elas podem ter um relacionamento com uma pessoa ou organização, mas elas nunca se casam com qualquer pessoa ou qualquer coisa; homem, mansão, ou movimento. Desta maneira, Cadelas preferem planejar suas próprias vidas a viver de dia a dia, ação a ação, ou pessoa a pessoa. Elas são independentes teimosas e acreditam que são capazes de fazer qualquer coisa que elas quiserem. Se alguma coisa permanece em seu caminho; bem, por isso que elas se tornam Cadelas. Se forem inclinadas profissionalmente, elas buscarão carreiras e não terão medo de competir com ninguém. Se não inclinadas profissionalmente, elas buscarão auto-expressão e auto-realização. O que quer que elas façam, elas desejam uma posição ativa e frequentemente são percebidas como dominantes. Muitas vezes elas dominam outras pessoas quando não estão disponíveis para elas funções que mais criativamente sublimem suas energias e utilizem suas capacidades. Mais frequentemente elas são acusadas de dominação quando fazem o que seria considerado natural por um homem.

Uma verdadeira Cadela é auto-determinada, mas o termo “bitch” é usualmente aplicado com menos discernimento. É uma depreciação popular para derrubar mulheres altivas que foi criado por homens e adotado por mulheres. Como o termo “nigger” (preto), “bitch” serve a função social de isolar e desacreditar uma classe de pessoas que não se conformam aos padrões de comportamento socialmente aceitos.

BITCH não usa esta palavra no sentido negativo. Uma mulher deveria ser orgulhosa ao declarar que é uma Cadela, porque Cadela é Linda. Isso deveria ser um ato de afirmação por si mesma e não negação por outros. Nem todo mundo pode qualificar-se como uma Cadela. Alguém não precisa ter todas as três qualidades mencionadas acima, mas deveria ser dotada de no mínimo duas delas pare ser considerada uma Cadela. Se uma mulher qualifica-se em todas as três, ao menos parcialmente, ela é uma Cadela das Cadelas. Apenas Supercadelas qualificam-se totalmente em todas as três categorias e existem muito pouco dessas. A maioria não dura muito tempo nesta sociedade.

A característica mais proeminente de toda Cadela é que elas rudemente violam concepções de condutas de papel sexual apropriadas. Elas violam-nas de modos diferentes, mas todas elas violam-nas. Suas atitudes com respeito a si mesmas e outras pessoas, suas orientações objetivas, seu estilo pessoal, sua aparência e modo de manejar seus corpos, todas chocam as pessoas e as fazem se sentirem incomodadas. Às vezes é consciente e às vezes não, mas pessoas geralmente se sentem inconfortáveis em volta de Cadelas. Elas consideram-nas aberrações. Elas acham o estilo delas perturbador. Então elas criam um depósito imundo para todas que deploram como cadelas e chamam-nas de mulheres frustradas.

Elas podem ser frustradas, mas a causa é social, não sexual. O que é perturbador a respeito de uma Cadela é que ela é andrógina. Ela incorpora dentro dela mesma, qualidades tradicionalmente definidas como “masculinas” assim como “femininas”. Uma Cadela é brusca, direta, arrogante, às vezes egoísta. Ela não tem inclinação para os meios indiretos, sutis e misteriosos do “eterno feminino”. Ela desdenha da vida vicária considerada natural para as mulheres porque ela deseja viver uma vida própria.

Nossa sociedade tem definido a humanidade como os machos, e as fêmeas como alguma coisa diferente dos machos. Deste modo, fêmeas poderiam ser humanas apenas ao viver por delegação através de um macho. Para ser capaz de viver, uma mulher tem de concordar em servir, honrar, e obedecer a um homem e o que ela obtém em troca, na melhor das hipóteses, é uma vida de sombra. Cadelas se recusam a servir, honrar e obedecer qualquer pessoa. Elas demandam serem seres humanos completos, não apenas sombras. Elas desejam ser igualmente fêmeas e seres humanos. Isto faz delas contradições sociais. A mera existência de Cadelas nega a idéia que a realidade de uma mulher deve acontecer através do relacionamento dela com um homem e contesta a crença que mulheres são crianças perpétuas que devem sempre estar sob orientação de alguém.

Por essa razão, se considerada seriamente, uma Cadela é uma ameaça para as estruturas sociais que escravizam mulheres e os valores sociais que justificam mantê-las em seu lugar. Ela é evidência viva que a opressão das mulheres não tem de existir, e como tal, promove dúvidas sobre a validade do sistema social inteiro. Por ela ser uma ameaça ela não é levada a sério. Em vez disso, ela é rejeitada como uma deviante. Homens criam uma categoria especial para ela na qual ela é considerada humana, pelo menos parcialmente, mas não uma mulher de fato. Na extensão na qual eles se relacionam com ela como um ser humano, eles se recusam a se relacionar com ela como um ser sexual. Mulheres são até mais ameaçadas porque elas não podem esquecer que ela é uma mulher. Elas têm medo de se identificarem com ela muito estreitamente. Ela tem uma liberdade e uma independência que elas invejam e as desafia a abandonar a segurança de suas algemas. Nem homens nem mulheres podem encarar a realidade da Cadela porque fazer isso os forçaria a encarar a realidade corrupta de si mesmos. Ela é perigosa. Então eles a descartam como uma aberração.

Esta é a raiz da própria opressão dela como uma mulher. Cadelas não são somente oprimidas como mulheres, elas são oprimidas por não serem como as mulheres. Porque ela tem insistido em ser de preferência humana a ser feminina, em ser preferivelmente verdadeira para si a ajoelhar-se para pressões sociais, uma Cadela cresce uma estrangeira. Mesmo quando meninas, Cadelas violaram os limites de conduta do papel sexual recebido. Elas não se identificaram com outras mulheres e poucas foram afortunadas o suficiente de ter uma Cadela adulta para servir de exemplo. Elas tiveram de construir seu próprio caminho e as armadilhas que este percurso inexplorado apresentou contribuíram tanto para sua incerteza como para sua independência.

Cadelas são bons exemplos de como mulheres podem ser fortes o bastante para sobreviver mesmo a rígida socialização punitiva de nossa sociedade. Quando garotinhas nunca penetrou completamente em suas consciências que mulheres eram presumidas serem inferiores aos homens em qualquer medida, exceto na posição de mãe/esposa. Elas afirmaram a si mesmas como crianças e jamais internalizaram realmente o modo escravo de lisonja e bajulação que é chamado de feminino. Algumas Cadelas foram esquecidas pelas usuais pressões sociais e outras obstinadamente resistiram a elas. Algumas desenvolveram um estilo feminino superficial e algumas permaneceram traquinas, passado o tempo em que tal comportamento é tolerado. Todas as Cadelas se recusaram, em mente e espírito, a se conformar à idéia que havia limites no que elas poderiam ser e fazer. Elas não estabeleceram limites nas suas aspirações ou suas condutas.

Por esta resistência elas foram severamente condenadas. Elas foram rebaixadas, repreendidas, desprezadas, mal faladas, escarnecidas e excluídas. Nossa sociedade fez das mulheres escravas e em seguida as condenou por agirem como escravas. Isto foi tudo construído muito sutilmente. Poucas pessoas foram tão diretas quanto a dizer que elas não gostavam de Cadelas porque elas não representavam o jogo de papel sexual.

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De fato, poucas pessoas estavam seguras do porquê de não gostarem de Cadelas. Elas não perceberam que sua violação da realidade da estrutura pôs em perigo a estrutura. De algum modo, da infância em diante, algumas garotas não se encaixavam e eram bons objetos para se ridicularizar. Mas poucas pessoas conscientemente reconheceram a raiz de seu desagrado. A questão nunca foi enfrentada. Se ela tiver sido falada de algum modo, foi feito por meio de comentários maliciosos nas costas da garotinha. Cadelas foram compelidas a sentir que havia alguma coisa errada com elas; alguma coisa pessoalmente errada.

Garotas adolescentes são particularmente malvadas no jogo do bode expiatório. Este é o período da vida que as mulheres são ensinadas que devem competir mais duramente pelos espólios (ou seja, homens) que a sociedade consente. Elas devem afirmar sua feminilidade ou vê-la negada. Elas estão muito inseguras de si mesmas e adotam a rigidez que segue com a incerteza. Elas são duras com suas concorrentes e até mais duras com aquelas que se recusam a competir. Aquelas iguais que não têm em comum seus interesses e práticas nas artes de agradar os homens são excluídas da maioria dos arranjos sociais. Se ela não sabia disso anteriormente, a Cadela aprende durante estes anos que ela é diferente.

Quando ela se torna mais velha ela aprende mais sobre porque ela é diferente. Assim que Cadelas começam a adquirir empregos, ou participar em organizações, elas raramente estão contentes em sentar quietamente e fazer o que lhes é dito. Uma Cadela tem uma mente dela própria e deseja usá-la. Ela quer levantar-se, subir alto, ser criativa, assumir responsabilidade. Ela sabe que é capaz e deseja usar suas capacidades. Isto não é agradável para os homens para quem ela trabalha, o que não é sua meta primária.

Quando ela encontra a parede de blocos rígidos do preconceito sexual ela não é complacente. Ela arremessará a si mesma batendo sua cabeça contra a parede, porque ela não aceitará seu papel definido como uma auxiliar. Ocasionalmente ela destrói e atravessa o caminho dela. Ou ela usa sua ingenuidade para achar uma brecha, ou cria uma. Ou ela é dez vezes melhor do que qualquer outra pessoa competindo com ela. Ela também aceita menos do que lhe é devido. Como as outras mulheres, suas ambições tem sido frequentemente entorpecidas por ela não ter escapado totalmente da insígnia de inferioridade colocada sobre o “sexo frágil”. Ela muitas vezes desposará contentamento em ser o poder atrás do trono – desde que ela tenha real poder – embora ponderando que ela realmente não deseja o reconhecimento advindo de possuir o trono também. Por ela ter sido rebaixada a maior parte de sua vida, tanto por ser uma mulher quanto por não ser uma verdadeira mulher, uma Cadela nem sempre reconhecerá que o que ela tem alcançado não é atingível pela mulher típica. Uma Cadela altamente competente muitas vezes deprecia a si mesma recusando reconhecer sua própria superioridade. Ela está acostumada a dizer que ela é media ou menos realmente; se ela pode fazer, qualquer pessoa pode.

Quando adultas, Cadelas podem ter aprendido o papel feminino, pelo menos o estilo externo, mas elas raramente estão confortáveis nele. Isto é particularmente verdadeiro para aquelas mulheres que são Cadelas físicas. Elas desejam libertar seus corpos tanto quanto suas mentes e deploram o esforço que elas devem desperdiçar confinando seus movimentos físicos ou vestindo o papel em disposição a não afastar as pessoas. Também, porque elas violam expectativas do papel sexual fisicamente, elas não são tão livres para violá-las psicologicamente ou intelectualmente. Um pequeno número de desvios da norma pode ser tolerado, mas muitos são demasiado ameaçadores. É ruim o bastante não pensar como uma mulher, soar como uma mulher ou fazer os tipos de coisas que mulheres são presumidas a fazer. Também não parecer com uma mulher, se mover como uma mulher ou agir como uma mulher é ir além do inaceitável. Nossa sociedade é rígida com limites estreitos sobre a extensão da diversidade humana. Mulheres, em particular, são definidas por suas características físicas. Cadelas que não violam estes limites são mais livres para violar outros. Cadelas que os violam em estilo ou tamanho podem ser um pouco invejosas daquelas que não têm de conter severamente a expansibilidade de suas personalidades e maneiras. Frequentemente estas Cadelas são mais torturadas porque seu desvio é sempre evidente. Mas há uma compensação que Cadelas grandes têm uma considerável menor dificuldade em ser levadas a sério do que mulheres pequenas. Uma das fontes do seu sofrimento como mulheres é também uma fonte de sua força.

A prova de fogo que a maioria das Cadelas atravessa enquanto cresce as constrói ou as despedaça. Elas são dependuradas de modo esticado entre os dois pólos de ser verdadeira para seu próprio caráter ou ser aceita como um ser social. Isto as faz pessoas muito sensíveis, mas é uma sensibilidade que o restante do mundo ignora. Por no lado de fora elas terem frequentemente criado um calo defensivo grosso que pode fazê-las parecerem duras e amargas às vezes. Isto é particularmente verdadeiro para aquelas Cadelas que têm sido forçadas a tornar-se isoladas em disposição a evitar serem refeitas e destruídas por suas iguais. Aquelas que são afortunadas o suficiente por terem crescido com algumas companhias semelhantes, mãe e pai sensatos, uma boa pessoa para servir de exemplo ou duas e uma determinação bastante forte, podem evitar alguns dos piores aspectos de ser uma Cadela. Tendo suportado menor punição psicológica por serem o que elas são elas podem aceitar sua diferença com a naturalidade que resulta da autoconfiança.

Aquelas que têm de construir seus meios inteiramente por si mesmas tem um caminho incerto. Algumas finalmente compreendem que seu sofrimento ocorre não somente porque elas não se conformam, mas porque elas não desejam se conformar. Com isto vem o reconhecimento que não há nada particularmente errado com elas, elas somente não se ajustam neste tipo de sociedade. Muitas consequentemente aprendem a se isolarem do severo ambiente social. Porém, isto também tem seu preço. A menos que elas sejam cautelosas e conscientes, a confiança adquirida nesta maneira dolorosa – sem o suporte de suas irmãs – é mais frequentemente um tipo de arrogância. Cadelas podem se tornar tão duras e calejadas que os últimos vestígios de humanidade ficaram bem enterrados por dentro e quase destruídos.

Nem todas as Cadelas fazem isto. Em vez de calos, elas desenvolvem feridas abertas. Em vez de confiança elas desenvolvem uma prejudicial sensibilidade para rejeição. Aparentemente resistentes no lado de fora, no interior elas permanecem uma polpa sangrenta, inflamada por causa do açoitamento vitalício literal que elas têm de suportar. Estas são Cadelas que tem ido mal. Elas frequentemente andam amuadas e usam sua força para retaliações improdutivas quando alguém aceita sua ousadia de descontar. Estas Cadelas podem ser muito odiosas, porque elas nunca confiam nas pessoas realmente. Elas não aprenderam a usar suas forças construtivamente.

Cadelas que têm sido mutiladas como seres humanos frequentemente direcionam sua fúria sobre outras pessoas – particularmente outras mulheres. Este é um exemplo de como mulheres são treinadas para manter a si mesmas e outras mulheres em seu lugar. Cadelas são não menos culpadas que não-Cadelas por auto-ódio e ódio de grupo e aquelas que tem ido mal sofrem o pior destas duas aflições. Todas as Cadelas são bodes expiatórios e aquelas que não têm sobrevivido as severas críticas psicológicas são o alvo do desdém de todo o mundo. Como um grupo, Cadelas são tratadas por outras mulheres tanto como mulheres em geral são tratadas pela sociedade – muito bem em seu lugar, boas para explorar e fofocar a respeito, mas de outra maneira, serem ignoradas ou rebaixadas. Elas são ameaças para a posição tradicional das mulheres e elas são também umas estranhas de outro grupo com as quais elas podem se sentir superiores. A maioria das mulheres se sente igualmente melhor que e com ciúmes das Cadelas. Embora confortando a si mesmas que elas não são como estas agressivas, aberrações masculinas, elas têm uma suspeita secreta que talvez os homens, as coisas mais importantes em suas vidas, acham as Cadelas, mais livres, mais assertivas, independentes, preferíveis como uma mulher.

Cadelas, da mesma maneira, não se interessam muito por outras mulheres. Elas crescem antipatizando outras mulheres. Elas não podem se relacionar com elas, elas não se identificam com elas, elas não têm nada em comum com elas. As outras mulheres têm sido a norma na qual elas não têm se ajustado. Elas rejeitam aquelas que as rejeitaram. Esta é uma das razões que Cadelas que são bem sucedidas em passar os obstáculos que a sociedade estabelece diante das mulheres desprezam aquelas mulheres que não são. Elas tendem a sentir que aquelas que podem aceitar isso conseguirão passar. A maioria das mulheres têm sido as agentes diretas de grande parte da merda que as Cadelas têm de suportar e poucas de ambos os grupos tiveram a consciência política para compreender o porquê disto. Cadelas têm sido oprimidas por outras mulheres tanto quanto se não mais do que por homens e seu ódio por elas é comumente maior.

Cadelas também estão desconfortáveis ao redor de outras mulheres porque frequentemente mulheres são menos seus pares psicológicos do que os homens são. Cadelas particularmente não gostam de pessoas passivas. Elas estão sempre levemente receosas que elas esmagarão as coisas frágeis. Mulheres são treinadas para serem passivas e aprenderam a agir deste modo mesmo quando elas não são. Uma Cadela não é muito passiva e não está confortável representando esse papel. Mas ela geralmente não gosta de ser dominadora também – quer isto seja proveniente de desgosto natural de dominar outros ou medo de parecerem muito masculinas. Desta maneira uma Cadela pode relaxar e ser seu naturalmente não-passivo eu sem se preocupar com esmagar alguém somente na companhia daqueles que são tão fortes quanto ela é. Isso acontece mais frequentemente na companhia de homens do que de mulheres, mas aquelas Cadelas que não sucumbiram totalmente ao auto-ódio estão sobretudo confortáveis somente na companhia de camaradas Cadelas. Estas são suas verdadeiras iguais e as únicas com quem ela não precisa representar algum tipo de papel. Apenas com outras Cadelas uma Cadela pode ser verdadeiramente livre.

Estes momentos acontecem raramente. A maior parte do tempo Cadelas devem permanecer psicologicamente isoladas. Mulheres e homens são tão ameaçados por elas e reagem tão adversamente que Cadelas guardam suas personalidades verdadeiras cuidadosamente. Elas são suspeitas daquela minoria que elas pensam que podem ser capazes de confiar porque tão frequentemente isso se verifica ser um engano. Porém, nesta solidão há uma força e de seu isolamento e sua amargura resultam contribuições que outras mulheres não fazem. Cadelas estão entre os mais não celebrados dos não celebrados heróis desta sociedade. Elas são as pioneiras, a vanguarda, a ponta da lança. Quer elas desejem ser ou não este é o papel que elas servem exatamente por apenas existirem. Muitas não escolheriam ser as revolucionárias para a massa de mulheres por quem elas não têm sentimentos de irmandade, mas elas não podem evitar isso. Aquelas que violam os limites os estendem; ou causam a destruição do sistema.

Cadelas foram as primeiras mulheres a ir para faculdade, as primeiras a romperem completamente a Barreira Invisível das profissões, as primeiras revolucionárias sociais, as primeiras líderes trabalhistas, as primeiras a organizarem outras mulheres. Porque elas não eram seres passivos e agiam por meio de seu ressentimento por serem mantidas abaixo, elas ousaram fazer o que outras mulheres não ousariam. Elas suportaram a artilharia antiaérea e a merda que a sociedade lança para aquelas que a mudariam e abriram parcelas do mundo para mulheres que não teriam as conhecido de outra maneira. Elas têm vivido nas bordas. E sozinhas ou com o suporte de suas irmãs elas têm mudado o mundo em que nós vivemos.

Por definição, Cadelas são seres marginais nesta sociedade. Elas não têm lugar próprio e não permaneceriam nele se elas tivessem. Elas são mulheres, mas não mulheres verdadeiras. Elas são humanas, mas não são machos. Algumas nem mesmo sabem que são mulheres porque elas não podem se relacionar com outras mulheres. Elas podem representar o jogo feminino às vezes, mas elas sabem que é um jogo que elas estão representando. Sua maior opressão psicológica não é uma crença que elas são inferiores, mas uma crença que elas não são. Deste modo, toda sua vida lhes foi dito que elas são aberrações. Termos mais polidos foram usados, é claro, mas a mensagem foi passada. Como a maior parte das mulheres elas foram ensinadas a odiar a si mesmas tanto quanto todas as mulheres. De maneiras diferentes e por motivos diferentes talvez, mas o efeito é similar. Internalização de um depreciador conceito próprio sempre resulta em uma grande quantidade de amargura e ressentimento. Esta raiva é usualmente ou voltada a si mesma – fazendo-a uma pessoa desagradável ou a outras mulheres – reforçando os clichês sociais a respeito delas. Somente com consciência política ela é direcionada à fonte – o sistema social.

O desenvolvimento deste Manifesto tem sido a respeito de Cadelas. O restante será a respeito de BITCH. A organização ainda não existe e talvez ela nunca possa existir. Cadelas são tão condenadas independentes e elas tem aprendido tão bem a não confiar em outras mulheres que será difícil para elas aprenderem até mesmo a confiarem umas nas outras. Isto é o que BITCH deve ensiná-las a fazer. Cadelas têm de aprender a aceitar a si mesmas como Cadelas e dar a suas irmãs o suporte que elas precisam para ser Cadelas criativas. Cadelas devem aprender a ser orgulhosas de sua força e orgulhosas de si mesmas. Elas devem mudar-se do isolamento que tem sido sua proteção e ajudar suas irmãs mais jovens a evitar seus perigos. Elas devem reconhecer que mulheres são frequentemente menos tolerantes com outras mulheres do que são os homens porque elas têm sido ensinadas a ver todas as mulheres como suas inimigas. E Cadelas devem formar-se juntas em um movimento para lidar com seus problemas de uma maneira política. Elas devem se organizar por sua própria libertação como todas as mulheres devem se organizar pelas delas. Nós devemos ser fortes, nós devemos ser militantes, nós devemos ser perigosas. Nós devemos reconhecer que Cadela é Linda e que nós não temos nada a perder. Absolutamente nada.

Este manifesto foi escrito e revisado com a ajuda de algumas de minhas irmãs, a quem ele é dedicado.

Redstockings Manifesto

29 nov

I. Depois de séculos de luta política preliminar e individual, as mulheres estão se unindo para alcançar sua libertação final da supremacia masculina. Redstockings é dedicada a construir essa união e conquistar nossa liberdade.

II. Mulheres são uma classe oprimida. Nossa opressão é total, afetando cada faceta de nossas vidas. Nós somos exploradas como objetos sexuais, reprodutoras, empregadas domésticas e mão-de-obra barata. Nós somos consideradas seres inferiores, cuja única finalidade é melhorar as vidas dos homens. Nossa humanidade é negada. Nosso comportamento prescrito é reforçado pela ameaça de violência física.

Porque nós vivemos tão intimamente com nossos opressores, isoladas umas das outras, nós temos sido impedidas de ver nosso sofrimento pessoal como uma condição política. Isso cria a ilusão de o que o relacionamento de uma mulher com seu homem é um assunto de interação entre duas personalidades singulares, e pode ser elaborado individualmente. Na realidade, cada relacionamento deste tipo é um relacionamento de classes, e os conflitos entre homens e mulheres individuais são conflitos políticos que podem ser resolvidos somente coletivamente.

III. Nós identificamos os agentes de nossa opressão como homens. A supremacia masculina é a mais velha, a mais básica forma de dominação. Todas as outras formas de exploração e opressão (racismo, capitalismo, imperialismo, etc.) são extensões da supremacia masculina: os homens dominam as mulheres, alguns homens dominam o resto. Todas as estruturas de poder ao longo da história tem sido masculino-dominadas e destinadas aos homens. Os homens têm controlado todas as instituições políticas, econômicas e culturais e sustentado este controle com força física. Eles têm usado seu poder para manter as mulheres em uma posição inferior. Todos os homens recebem benefícios econômicos, sexuais e psicológicos da supremacia masculina. Todos os homens têm oprimido as mulheres.

IV. Tentativas têm sido feitas para deslocar a carga da responsabilidade dos homens para as instituições ou para as próprias mulheres. Nós condenamos estes argumentos como evasões. Instituições sozinhas não oprimem; elas são meramente ferramentas do opressor. Responsabilizar as instituições implica que os homens e as mulheres são igualmente vitimados, obscurece o fato de que os homens se beneficiam da subordinação das mulheres, e dá aos homens a desculpa que eles são forçados a ser opressores. Pelo contrário, qualquer homem é livre para renunciar a sua posição superior contanto que ele esteja disposto a ser tratado como uma mulher por outros homens.

Nós também rejeitamos a idéia de que as mulheres consentem ou são responsáveis por sua própria opressão. A submissão das mulheres não é resultado de lavagem cerebral, de estupidez, ou de doença mental, mas de pressão contínua, diária, dos homens. Nós não precisamos mudar a nós mesmas, mas os homens precisam mudar.

A evasão mais difamatória de todas é a que as mulheres podem oprimir os homens. A base dessa ilusão é o isolamento dos relacionamentos individuais de seu contexto político e a tendência dos homens a ver qualquer desafio legítimo aos seus privilégios como perseguição.

V. Nós consideramos nossa experiência pessoal, e nossos sentimentos sobre essa experiência, como a base para uma análise de nossa situação comum. Nós não podemos confiar em ideologias existentes porque são todas produtos da cultura supremacista masculina. Nós questionamos cada generalização e não aceitamos nenhuma que não seja confirmada por nossa experiência.

Nossa tarefa principal no momento é desenvolver a consciência de classe feminina através da partilha de experiência e expor publicamente a fundação sexista de todas as nossas instituições. Despertar a auto-consciência não é “terapia”, que implica a existência de soluções individuais e admite falsamente que o relacionamento macho-fêmea é puramente pessoal, mas o único método pelo qual podemos assegurar que nosso programa para a libertação esteja baseado nas realidades concretas de nossas vidas.

A primeira exigência para despertar a consciência de classe é a honestidade, em particular e em público, com nós mesmas e com outras mulheres.

VI. Nós nos identificamos com todas as mulheres. Nós definimos nosso melhor interesse como aquele da mulher mais pobre, mais brutalmente explorada.

Nós repudiamos todos os privilégios econômicos, raciais, educacionais ou de status que nos dividem de outras mulheres. Nós estamos determinadas a reconhecer e eliminar todos os preconceitos que nós podemos ter contra outras mulheres.

Nós estamos comprometidas a alcançar a democracia interna. Nós faremos o que for necessário para assegurar que cada mulher em nosso movimento tenha uma possibilidade igual de participar, assumir responsabilidade, e desenvolver seu potencial político.

VII. Nós convocamos todas as nossas irmãs para unirem-se a nós na luta.

Nós convocamos todos os homens a desistirem de seus privilégios masculinos e apoiarem a libertação das mulheres no interesse de nossa humanidade e da sua própria.

Na luta por nossa libertação nós sempre tomaremos o lado das mulheres contra seus opressores. Nós não perguntaremos o que é “revolucionário” ou “reformista”, somente o que é bom para as mulheres.

O momento para conflitos individuais passou. Desta vez nós estamos indo até o fim.

Do “Redstockings Manifesto”, 7 de Julho de 1969.

Política Sexual

28 nov

por Kate Millett

O ensaio “Sexual Politics” (1968) por Kate Millett circulou antes da publicação do seu livro de mesmo nome. As idéias neste artigo foram incorporadas posteriormente no segundo capítulo do livro, que é um clássico do feminismo.

É possível considerar a relação entre os sexos numa perspectiva política? Depende do conceito de política que se utiliza. Eu não defino o universo político aqui como aquele setor limitado e exclusivo conhecido como política institucional ou oficial, de presidentes e partidos — nós temos todas as razões para termos nos cansado e suspeitarmos deles. Por política eu me refiro às relações estruturadas pelo poder, ao arranjo inteiro por meio do qual um grupo de pessoas é governado por outro, um grupo é dominante e o outro subordinado.

É tempo de desenvolvermos uma psicologia e uma filosofia mais irrefutáveis e relevantes das relações de poder ainda não consideradas por fora da política institucional. É tempo de definirmos uma teoria política que trata as relações de poder em áreas menos formais que a das autoridades estabelecidas, áreas de relações pessoais entre membros de grupos bem definidos e coerentes — raças, castas, classes e sexos. É precisamente porque tais grupos não têm nenhuma respresentação em estruturas políticas formais que sua opressão é tão inteira e tão contínua.

Os acontecimentos do passado recente nos forçaram a reconhecer que a relação entre as raças na América é de fato política — que implica o controle de uma coletividade, definida pelo seu nascimento, sobre outra coletividade, também definida pelo nascimento. Grupos que governam por direito de nascimento estão em vias de desaparecer rapidamente no Ocidente e os partidários da supremacia branca estão fadados a seguir o caminho da aristocracia e outras castas superiores extintas. No entanto, nós temos um arranjo antigo e universal para a exploração política de um grupo de nascimento por outro — na área do sexo.

Assim como o estudo do racismo tem nos convencido que existe verdadeiramente um relacionamento político entre as raças, e uma situação opressiva na qual o grupo subordinado não teve nenhuma reparação através das estruturas políticas formais por meio das quais pudessem organizar-se na luta e oposição políticas convencionais — da mesma forma, qualquer investigação inteligente e objetiva do nosso sistema de política sexual ou estrutura de papéis sexuais provará que o relacionamento entre os sexos agora, e ao longo da história, é um exemplo do que Max Weber um vez denominou “Herrschaft” — ou domínio e subordinação — o controle por direito de nascimento de um grupo por outro — o macho a governar e a fêmea a ser governada. As mulheres têm sido colocadas na posição de minoria ao longo da história e mesmo depois da ampliação relutante de determinados direitos mínimos de cidadania e sufrágio no início deste século. É insensato supor que as mulheres — brancas ou negras — têm qualquer representação maior do que jamais tiveram agora que elas votam. A história prévia demonstrou que a posse do voto por 100 anos fez muito pouco bem ao homem negro.

Por que quando esse arranjo do domínio e do controle masculino é tão óbvio ele nunca é reconhecido ou discutido? Em parte, porque tal discussão é considerada como perigosa ao extremo e porque uma cultura não discute suas suposições mais básicas e seus fanatismos mais estimados. Por que ninguém nunca repara que as forças armadas, a indústria, as universidades, os cargos políticos e a finança (apesar das declarações absurdas do contrário na evidência de que alguma velhinha possui ações sobre as quais ela não tem controle) — por que ninguém nunca repara que todas as vias de acesso ao poder dentro da sociedade, incluindo a força repressiva da polícia — estão inteiramente nas mãos masculinas? O dinheiro, as armas, a própria autoridade, são províncias masculinas. Até Deus é macho — e um macho branco.

As razões para esta evasão gigantesca dos próprios fatos de nossa situação são muitas e óbvias. Elas também são um pouco divertidas. Vejamos algumas das milhares defesas que a cultura masculina tem construído contra qualquer infração ou mesmo exposição de seu controle: reagir com ridicularização e o mecanismo primitivo do riso e da negação. Sexo é engraçado — é sujo — e é algo que as mulheres têm. Homens não são seres sexuais — eles são as pessoas — são a humanidade. Portanto, qualquer discussão das realidades da vida sexual degenera-se tão rapidamente quanto os homens possam torná-las sessões de escárnio, onde através do clichê tão antigo que tem valor quase ritual, as mulheres que poderiam estar ansiosas para conduzir um diálogo adulto são intimidadas de volta ao “seu lugar”.

Ao nível da atitude comum, o sexo e particularmente esse assunto muito explosivo do relacionamento dos sexos, é um assunto fechado para a investigação inteligente e acessível apenas à galhofa e leviandade.

A segunda evasão que nossa cultura desenvolveu é através do mito popular. De Dagwood ao professor da faculdade, o sexo é folclore e a versão oficial de ambos é que o macho é a “vítima” de uma conspiração generalizada. Da figura popular de Jiggs ao estudo mais recente dos danos que as mães causam sobre seus filhos, somos atacados pelo fantasma da mulher dominadora — a mulher como um terrível mal natural e primitivo — nosso resquício do século XX do medo primitivo do desconhecido, desconhecido pelo menos para o sexo masculino, e lembre-se, é o macho em nossa cultura que define a realidade. O homem é inocente, ele é incitado, em todo lugar ele está em perigo de ser destronado. Dagwood — o arquetípico marido dominado pela mulher — é uma figura de divertimento popular só porque a cultura pressupõe que um homem governará sua esposa ou cessará de ser muito de um homem. Como um proprietário de plantação estúpido que é praticamente controlado por seu mordomo ou criado muito mais inteligente, Dagwood é um membro da classe dominante levantado tanto para escárnio e para desdém-simpático por ser demasiado humano ou demasiado incompetente para governar, contudo simpático porque todos os outros membros do grupo privilegiado sabem em seu coração o quão oneroso é manter a fachada ilusória de superioridade sobre aqueles que são seus semelhantes naturais.

A fantasia da vítima masculina não é somente um mito, é um mito politicamente conveniente, mito inventado ou disseminado para servir ao fim político de uma racionalização ou suavização e uma negação parcial do poder. A verdadeira relação dos sexos na nossa cultura desde o alvorecer da história tem sido diametralmente oposta à do culto oficial do oprimido. Contudo, a nossa cultura procura negar a cada nível de discussão a carga lógica da opressão que qualquer visão objetiva da estrutura sexual traria à baila, a sociedade masculina tem uma tática fascinante de se apropriar de toda simpatia para si. Ele ultimamente tem tomado a prática de gritar que é vítima de cirurgia antinatural… que tem sido “castrado”. Mesmo Albert Shanker descobriu recentemente que o controle da comunidade negra, o Prefeito e o Conselho de Educação tem realizado essa abominação em sua pessoa. Para aqueles com medo da castração, uma palavra de conforto. O último exemplo de sua prática em um homem branco na cultura ocidental foi no final do século 18 quando o último castrati perdeu uma parte vital da sua anatomia pela causa da arte da música — nas mãos de outro homem, devo acrescentar. Pois a castração é uma crueldade antiga que os homens praticam uns aos outros. No Sul dos Estados Unidos era como uma maneira de humilhar as vítimas negras da Klan. No Antigo Oriente era uma forma bárbara de punição para o crime. Nas cortes da Renascença Italiana a castração foi um método perverso de fornecer vozes sopranos para o Coro Papal. Considerou-se que as mulheres eram demasiado profanas para cantar os santos ofícios, então para suprir a demanda de registros musicais mais altos, eunucos eram criados colocando homens jovens na faca.

Como a prática da castração cirúrgica foi abolida, claro que o termo de uso corrente deve ser aceito em uma conotação metafórica em vez da conotação literal, se temos qualquer compreensão da fantástica ansiedade contemporânea do ego masculino, pois em toda parte, na mídia, na alta e na baixa cultura, hoje os homens passaram a ver o espectro da “fêmea castradora” todo sobre eles, seus delírios paranóicos são tomados por fato social. Tendo, de maneira confusa, associado seus orgãos genitais com o seu poder, o macho agora berra de dor física e verdadeira histeria cada vez que suas prerrogativas sociais e políticas são ameaçadas. Se castração significa uma perda por ser forçado a compartilhar o poder com os grupos oprimidos privados de poder, ou mesmo da condição humana, então há muitos homens na América que vão sofrer esta operação psíquica — mas será a remoção de um câncer no cérebro e no coração, não de qualquer orgão prazeroso ou criativo. Argumentar que qualquer mulher que insiste em plena condição humana é uma “cadela castradora” ou culpada do mal obscuro da “inveja do pênis” (somente o completo machista poderia ter imaginado este termo) é evidentemente tão bobo como argumentar que os negros expropriados querem se tornar homens brancos — a questão não é ser o Branquinho, mas ter uma parte justa do que o Branquinho tem — o mundo inteiro de possibilidades humanas.

Enquanto estou plenamente consciente de que a igualdade de direitos implica em responsabilidades iguais, há algumas coisas que o Branquinho tem que muito certamente eu não quero, por exemplo, uma Boina Verde, um isqueiro Zippo para queimar aldeias, a orelha de um camponês morto, o peso da carne chamuscada de uma criança Vietnamita. Nem eu tenho qualquer interesse em adquirir os hábitos de violência, da guerra (salvo na justa causa da auto-defesa — uma causa que eu não posso prever jamais acontecer na política externa Americana), ou o racismo imperialista do homem branco, ou o estupro ou a exploração capitalista da pobreza e da ignorância.

Por causa da cortina de fumaça da propaganda masculina se ouve a choradeira infinita sobre a castração — enquanto os crimes verdadeiros e atuais que os homens cometem contra as mulheres nunca são mencionados. É considerado de mau gosto, anti esportivo, referir ao fato de que os milhares de estupros ou crimes contra a personalidade feminina na cidade de Nova Iorque todo ano — eu falo apenas daqueles casos que são relatados — são provavelmente um décimo dos que ocorrem. Também é geralmente admitido considerar Richard Speck e tantos outros parecidos com ele em algo, mas à luz de exemplos excepcionais e irrelevantes da patologia individual, é um outro exemplo de não interpretar que Speck executou meramente o presuposto da maioria dos supremacistas masculinos do tipo mais severo — e eles são legião. Que seus assassinatos ecoam nas câmaras surrealistas da fantasia e dos desejos masculinos realizados é demonstrado por cada ensaio desprezível sobre o sadismo e o tráfico de escravas brancas do sórdido filme Rua 42 e do caráter anti-social da pornografia pesada. A História de O narra melhor a cerca de como é a fantasia masculina do que Romeu e Julieta. O mesmo acontece com o Playboy, gargalhando do conto-do-vigário que passou nesse Coelho, ele sonha em foder a Coelhinha, ou a mulher reduzida a um brinquedo animal meigo e dócil.

Pois a extensão e a profundidade do ódio e da hostilidade do macho em relação a sua subjugada colônia de mulheres é uma fonte de espanto contínua. Assim como a posterior miragem incandescente de pessoas “escuras” cantarolando no crepúsculo é a realidade do tronco, do chicote e da algema, a história das mulheres está cheia de artefatos coloridos… os pés enfaixados de todas as mulheres da China antiga — mulheres deliberadamente deformadas para que pudessem ser melhor controladas (você pode trabalhar com aqueles pés inúteis, mas você não pode fugir) — o véu do Islã (ou uma existência atenuada como uma alma humana condenada a vestir um saco de pano sobre sua cabeça todos os dias de sua meia-vida); — o chicote, a vara, o aprisionamento doméstico durante quase toda a história do mundo,  o estupro, o concubinato, a prostituição. Sim, nós temos nosso próprio catálogo impressionante de tiranias abertas. As mulheres ainda são vendida na Arábia Saudita e em outros lugares. Na Suíça, elas ainda hoje são marginalizadas. E em quase cada pedaço de chão nesta terra vivem somente através do sistema de escambo de sexo em troca de alimento dos últimos. Como todo sistema de opressão a supremacia masculina se assenta finalmente na força, no poder físico, no estupro, na agressão e na ameaça de agressão. Um recurso final quando tudo o mais falha o macho recorre ao ataque. Mas o medo da força está ali diante de cada mulher, sempre como um meio de intimidação — destituição, separação, violência — pessoal, sexual ou econômica.

Como em qualquer sociedade em um estado de guerra, a aplicação do domínio masculino que o eufemismo chama de “a batalha dos sexos”, é possível somente através das usuais mentiras convenientes aos países em guerra — O Inimigo é Mal — O Inimigo não é Humano. E os homens sempre foram capazes de acreditar na maldade inata das mulheres. Estudos de sociedades primitivas assim como os estudos de nossos próprios textos religiosos ilustram repetidamente os exemplos inumeráveis dos tabus praticados contra as mulheres. Um grupo de aborígenes concorda com o judaísmo na fé que uma mulher menstruada é “imunda”, tabu, intocável. Se ela tiver o acesso às armas ou a outros artigos sagrados e rituais do macho, ela colocará um feitiço ou magia sobre eles que seus proprietários “masculinos” não sobreviverão. Tudo o que diz respeito à sua constituição ou função física é desprezível ou subversivo. Deixe a habitar sozinha e sem alimento uma cabana ao lado da vila durante sua menstruação, que ela seja proibida de ir ao templo — mesmo àqueles arredores exteriores atribuídos a ela — por um determinado número de dias depois, como os Evangelhos nos informam friamente, ela deu à luz o próprio salvador do mundo, mas ela ainda é suja. Suja e misteriosa. Você já achou curioso que as emissões “noturnas” não eram consideradas sujas ou misteriosas, que o pênis (até que o Industrialismo decidiu escondê-lo outra vez para ter maior efeito) nunca foi considerado sujo — mas tão real e imperioso que sua forma é atribuída a cetros, bombas, armas e aviões?

Na história, um grande número de povos têm adorado o falo abertamente. Pode também ser verdade que um número ainda maior de povos outrora adoraram o útero ou os poderes da fertilidade da terra. Pode também ser verdade que uma das muitas causas para o início dessa opressão agora universal e do desprezo pelas mulheres se assenta no próprio medo masculino dos poderes femininos de dar a vida e que talvez inspirou a enorme mudança nos assuntos do mundo que nós chamamos de tomada patriarcal do controle. Vivendo tão próximo à terra, sem ter ainda desenvolvido os seus próprios brinquedos de guerra e a ascensão de cidades-estados principescas cheias de escravos trabalhadores construindo para ele monumentos vazios, e inconsciente de seu próprio papel vital na concepção, o macho pode muito bem ter dirigido olhares de inveja à mulher e ao que era — naquelas circunstâncias — sua capacidade miraculosa de trazer uma outra vida humana para fora de sua própria barriga — e visto nela uma conexão com as fases da lua, e as estações da vegetação da terra — e pôs-se tanto em admiração e terror — e finalmente em ódio — e decidiu lançar esta função abaixo do que ele antes assumiu naturalmente que era seu conluio com as sobrenaturais, as terríveis, as incontroláveis forças da natureza — e a degrada ao nível do bestial, do pernicioso e do obsceno. E assim o totem sujo foi apropriado pelo macho e atribuído tabu de mil maneiras para funcionar contra a fêmea.

Tendo invalidado todos os efeitos do poder feminino, o macho começa a engrandecer o seu próprio. Tendo finalmente apropriado todo o acesso ao sobrenatural para si mesmo, ele estabeleceu uma aliança com o novo deus masculino (tanto seu irmão quanto seu pai, dependendo da circunstância propícia ou desfavorável), então ele começou a anunciar o seu parentesco com o divino através de uma lista longa e impressionante de patriarcas e profetas, sumos sacerdotes e imperadores. Agora que tinha entrado em parceria com Deus, o macho estabeleceu a si mesmo como Deus para a fêmea. Milton coloca desta maneira: “Ele somente para Deus, ela para o Deus nele”.

Em algumas culturas as mulheres foram autorizadas a participar em um nível inferior como figuras de identificação para as fêmeas humanas — útil para incentivá-las a uma cooperação forçada com seu próprio controle. Assim podem ver-se como honradas através dos estupros de Jove a Europa e Leda, favorecidas em enredos de sedução divina como uma série infindável de ninfas da floresta, possívelmente versões rebaixadas de outras deusas tribais em pontas soltas, agora que seu reino matriarcal tinha terminado — ou incarnadas nessa primeira mulher incômoda, Juno — a esposa insubordinada.

Mas em sociedades patriarcais mais severas tais como a Judaica e a Cristã, nunca houve qualquer brincadeira sobre deusas. O cristianismo não elevou a Virgem ao status de deusa até o século 12 e os protestantes a destronaram meramente uns 400 depois. O artifício de fazê-la virgem e mãe excita não somente a admiração por sua engenhosidade, mas espanta pela perfeição do efeito — aqui está a mulher divina ou quase divina aliviada completamente dessa sexualidade insidiosa pela qual a própria mulher sempre foi definida.

As meras mulheres mortais nas eras Cristãs foram asseguradas continuamente de sua maldade e inferioridade inerentes por uma procissão inteira de supremacistas masculinos fanáticos — de Paulo, que achou até a exposição de seus cabelos na igreja uma provocação poderosa e uma indelicada tentação às práticas infernais mais aparentes em sua mente do que em outras (de tal maneira a sexualidade da raça inteira é representada em somente uma metade dela) a Jerônimo, Agostinho, Tomás de Aquino e a uma legião inteira de ascetas, eremitas, e de outros tipos não participantes que têm projetado sua própria sexualidade fervilhante sobre a fêmea. Pois é tão forte a defesa da suposição cristã através de Eva e de outros exemplos notáveis que o “mal” do sexo foi introduzido pela fêmea sozinha, que ainda hoje as Mulheres pensam em Mulheres quando pensam em sexo, sensualidade, objetos sexuais, sexualidade e símbolos sexuais um estado de paradoxo um tanto surpreendente em uma sociedade que impõe rigidamente a heterossexualidade para as mulheres.

O Judaísmo é ainda mais meticuloso do que o Cristianismo em matéria de supremacia masculina. Primeira coisa na manhã: cada homem Judeu é ordenado a agradecer a Deus por criar-lhe um macho e, conseqüentemente, uma ordem superior de ser. Eu nunca fui informada a respeito do que mulheres Judias são instruídas a dizer em tais ocasiões de tomada de consciência — talvez seja um pouco do conselho para elas mesmas não cairem na postura muito satirizada da mãe Judia dominadora.

Naturalmente não é de surpreender que a religião como nós a conhecemos leva à aplicação da supremacia masculina por decreto divino como parte de sua função em um patriarcado — o mesmo acontece com a literatura, todas as noções tradicionais e contemporâneas do governo, os chavões que geralmente passam por ciências sociais e mesmo — apesar da influência do Iluminismo — a própria ciência colabora em uma série de racionalizações transparentemente convenientes em manter a política sexual tradicional por razões tão ilusórias quanto ter um certo charme cômico.

Outra forma em que a cultura masculina contemporânea se recusa a enfrentar a questão da política sexual é através da redução das duas coletividades sexuais de machos e de fêmeas em uma variedade infinita de situações puramente individuais, por meio de que todos os casos são únicos — todas uma questão delicada do ajuste de um caráter diferente a outro — todas elas meramente a questão muito pessoal de relacionamentos individuais. Que este é tão extensamente nosso método favorito de retratar os relacionamentos sexuais hoje — desde Freud e o desenvolvimento dessa ciência muito pessoal da psicanálise — é provavelmente devido, em boa parte, à conveniência que oferece em nos proteger da realidade desagradável das relações sexuais que deveríamos começar a ver em termos gerais ou de classe/casta como nós aprendemos a ver a raça. Pois agora nós sabemos muito bem que a raça não é uma questão entre um empregador e seu “garoto” ou uma família e sua “empregada”, mas deve ser percebida à luz muito mais pertinente do controle de uma raça sobre a outra.

O Caso Individual traduz o nosso mito mais antigo da Fêmea Perigosa em um clichê mais novo, mas até agora um pouco desbotado, do estereótipo da cadela — a figura da mídia contemporânea mais mantida em estoque. É interessante notar como esta cadela leva alguém a fantasiar — sem nunca ter vindo a público e dizer isso — que todas as mulheres são cadelas. É intrigante também que, como uma mulher — com o status de minoria da mulher e, portanto, uma criatura totalmente fora da estrutura do poder masculino —, ela é arbitrária e injustamente responsabilizada por quase toda falha na vida americana hoje — e transformada em um verdadeiro símbolo do Estabelecimento Odioso. Como rainha da beleza, o estabelecimento masculino está disposto a conceder à mulher um lugar como mascote ou líder de torcida — mas isto está muito longe de admiti-la por qualquer interesse pessoal no espetáculo do estabelecimento. Como uma namorada ou uma esposa, ela pode participar indiretamente por um tempo, mas ela é fácil de se substituir e as trocas de modelos antigos de esposa e amante são muito rápidas. Ela pode dormir com tantos milhares por ano, ou um tal do escritório, mas ela está sonhando se ela alguma vez imagina que tal glória é a sua própria.

Para o propósito da propaganda masculina, um dos efeitos mais felizes do mito do Caso Individual é que ele traduz imediatamente qualquer resistência à atual situação política das relações sexuais em uma condenação convicta do pecado de neurose. Como a Psicologia tem substituído a religião como o conformista no comportamento social, ela tem marcado qualquer atividade em desacordo com a força vigente (que, aliás, tem sido considerada a “normalidade”) como comportamento louco, lamentável ou perigoso. Por este critério, a “normalidade” atual nos Estados Unidos é o racismo, a brutalidade policial e a implacável exploração econômica.

Isto é o que acontece, se, como os Psiquiatras, você considerar a vida social do Século 19 tanto como o Estado da Natureza e o Estado de uma Sociedade Saudável. Qualquer mulher que não se conforme ao estereótipo estéril da esposa e da maternidade como tudo e só, ou que não se curve, em deferência elaborada à autoridade masculina e ao parecer masculino sobre toda e qualquer questão é claramente louca. Os homens têm dito isso.

Um outro dispositivo para manter a política sexual atual e tradicional é a alegação de que tudo já foi resolvido há muito tempo “quando lhe demos o voto”, como o homem autoritário coloca com tal arrogância impressionante — fomos às urnas e elegemos vocês para dentro da raça humana porque um dia vocês mencionaram o descuido de sua exclusão e, companheiros amáveis que somos, nós imediatamente retificamos esse detalhe muito trivial.

O precedente é a distorção da história e uma negação da realidade. As mulheres lutaram duramente e quase sem esperança, levadas ao protesto massivo e contundente, que tem servido de modelo tanto para o movimento sindical e para o movimento negro. Elas lutaram contra todas as desigualdades opressivas do poder e da repressão por mais de cento e cinquenta anos para obter este trapo inútil conhecido como o voto. Nós o conseguimos depois de todos, as mulheres — negras e brancas — são as últimas dos cidadãos dos Estados Unidos — e nós tivemos que trabalhar mais duramente que todos para obtê-lo.

E agora que nós temos, percebemos o quanto fomos enganadas — nós tínhamos lutado por tanto tempo, trabalhado tão duramente, afastado o desespero tantas vezes que estávamos exaustas — acabamos por dizer, então, dê-nos isso e nós faremos o resto nós mesmas. Mas, nós não percebemos, como talvez os negros nunca perceberam até o Movimento dos Direitos Civis, que o voto não é real admissão à vida civil na América, ele não significa nada se você não está representado em uma democracia representativa. E não estamos representadas agora mais do que as pessoas negras… ambos os grupos têm apenas um senador, um Tom cada. Os Estados Unidos têm menos mulheres em cargos públicos que qualquer nação do mundo — nós somos mais efetivamente banidas da vida política neste país do que em qualquer outro círculo eleitoral na América — e somos 53% da sua população. Candidatos políticos anunciaram a sua intenção de ajudar as crianças asmáticas e pessoas com deficiências mentais de todas as idades, se forem eleitos — mas nem uma palavra sobre as mulheres, metade da população — mas nem uma palavra — o maior grupo minoritário na história. Mas nem uma palavra.

É tempo de a falácia oficial do Ocidente e dos Estados Unidos em particular — que agora os sexos são iguais socialmente e politicamente — ser explodida como a farsa que realmente é. Pois qualquer contradição desta devoção é presentemente combatida com a ameaça de que “as mulheres têm tanto poder que elas estão conduzindo o mundo”, e outros petiscos de frivolidade que o falante, por mais estranho que possa parecer, muitas vezes pode acreditar. Para o ego masculino mais mesquinho (como o de um caipira ou do homem da União do Norte, que votou a favor de Wallace)  em sua paranóia é provável que acredite que, porque uma mulher ou um homem negro em milhões pode fazer quase ou mesmo um pouco mais do que ele faz  todo o grupo estão tomando esse cantinho sórdido do mundo que ele considerava como seu direito de nascimento, porque é branco e macho  e sobre o qual ele tinha firmado sua própria identidade  apenas porque o impedia de ver-se como explorado pela casta que ele havia imaginado que ele era parte e com quem, apesar de todas as evidências do contrário, ele imaginou que dividia os dons da terra e do sonho americano  que é Pesadelo.

Os fatos reais da situação da mulher na América de hoje são provas suficientes de que, brancas ou negras, as mulheres estão na parte inferior, a menos que durmam com a parte superior. Por conta própria são Ninguém e foram ensinadas todos os dias que são Ninguém e ensinadas tão bem que elas passaram a interiorizar essa noção destrutiva e até mesmo acreditar nela. O Departamento de Estatísticas do Trabalho não pode esconder o fato de que este é um mundo de homens  um mundo de homens brancos: a renda média anual do homem branco é $ 6.704, de um homem negro $ 4.277, de uma mulher branca $ 3.991, e da mulher negra $ 2.816. Como estudantes vocês vivem em uma Utopia  apreciem-no, pois é o único momento em sua vida em que serão tratadas quase como iguais. Quando vocês se casarem ou conseguirem um emprego vão ver onde está o poder, mas então será tarde demais. É por isso que vocês devem organizar-se agora: olhem para o seu currículo e verifiquem suas regras de moradia, esse é um começo para perceberem como vocês são tratadas injustamente.

Mas a opressão das mulheres não é apenas econômica, essa é apenas uma parte dela. A opressão das mulheres é Total e, portanto, existe na mente, é opressão psicológica. Vamos dar uma olhada em como ela funciona, porque funciona como um encanto. Desde a primeira infância, toda criança do sexo feminino é cuidadosamente ensinada que ela deve ser uma incompetente ao longo da vida em todas as esferas da atividade humana significativa, portanto, ela deve converter-se em um objeto sexual  uma coisa. Ela deve ser bonita e avaliada pelo mundo: pesada, medida e julgada por sua aparência apenas. Se ela é bonita, ela pode se casar; então ela pode concentrar suas energias nas taxas de gravidez e nas fraldas. Assim é a vida — assim é a vida feminina. Isso é o que é reduzir e limitar as expectativas e potencialidades de metade da raça humana ao nível do comportamento animal.

É tempo de percebermos que toda a estrutura da personalidade masculina e feminina é arbitrariamente imposta pelo condicionamento social, um condicionamento social que tem tomado todas as características possíveis da personalidade humana  o que Margaret Mead uma vez, por analogia, comparou com as muitas cores de espectro do arco-íris  e atribuído os traços arbitrariamente em duas categorias, assim a agressividade é masculina, a passividade — feminina, a violência  masculina, a ternura  feminina, a inteligência  masculina e a emoção  feminina, etc., etc…. dividindo arbitrariamente as qualidades humanas em duas pequenas pilhas arrumadas, que são adestradas nas crianças por meio dos brinquedos, jogos, propaganda social da televisão e dos caprichos dementes do Conselho da educação quanto ao que é próprio do sexo masculino e do sexo feminino — os Papéis-Construídos. O que devemos começar a fazer agora é reexaminar toda essa casa tola de cartas segregadas, e retirar dela o que nós podemos usar: Dante, Shakespeare, Lady Murasaki e Mozart, Einstein e os cuidados com a vida que temos cultivado nas mulheres  e aceitar essas características como humanas. Então temos de nos ocupar em eliminar os traços que não são propriamente humanos, ou mesmo idéias humanas  o guerreiro, o assassino, o herói como homicida, a vítima passiva, a vaca burra.

Temos, agora, que começar a perceber e a treinar-nos a ver que a inteligência e uma reverência pela vida são qualidades HUMANAS. Já é tempo de começamos a ser razoáveis sobre a relação da sexualidade à personalidade e a admitir os fatos, a atribuição atual de traços temperamentais ao sexo é imbecil, limitante e perigosa. Virilidade  o complexo do assassino  ou a auto-definição em termos de quantos ou quantas vezes ou quão eficientemente ele pode oprimir seus companheiros  Isto tem de ir embora. Há toda uma geração a atingir a maioridade nos Estados Unidos que já está completamente enojada do ideal militar masculino, que sabem que nasceram homens e não têm que provar isso matando alguém ou usando cortes de tripulantes. Há também um grande número de mulheres que estão começando a se despertar do longo sono conhecido como colaboração na nossa própria opressão e auto depreciação, e elas estão se unindo, nos capítulos de âmbito nacional da Organização Nacional para as Mulheres  a miríade de grupos de Mulheres Radicais surgindo em cidades de todo o país e do mundo, em grupos de libertação das mulheres de SDS e em outros grupos ou, no campus, e elas estão se unindo para fazer o início de um novo e enorme movimento de mulheres na América e no mundo  para estabelecer uma verdadeira igualdade entre os sexos, para quebrar a velha máquina da política sexual e substituí-la por um mundo mais humano e civilizado para ambos os sexos, e para acabar com o atual sistema de opressão de homens  assim como de mulheres.

Existem outras forças em ação para mudar a face de toda a sociedade americana: o movimento negro para acabar com o racismo, o movimento estudantil, com seus números e poderes para espalhar a idéia de uma nova sociedade fundada em princípios democráticos, livre do reflexo da guerra, livre do reflexo da exploração econômica e racial. Os negros, estudantes e mulheres  que é um monte de gente, com os nossos números combinados é provavelmente 70% da população ou mais. Mais do que suficiente para mudar o rumo e o caráter da nossa sociedade — certamente o suficiente para causar uma revolução social radical. E talvez também será a primeira Revolução a evitar a armadilha do derramamento de sangue, uma simples mudança de ditadores e a inevitável contra-revolução que se segue à tal traição e perda de propósito.

Nós somos em número suficiente para alterar o curso da história humana  mudando os valores fundamentais, afetando toda uma mudança de consciência. Nós não podemos ter essa mudança de consciência, a menos que reconstruamos os valores — não podemos reconstruir os valores, a menos que “reestruturemos a personalidade”. Mas não podemos fazer isso ou resolver crimes raciais e econômicos, se não acabarmos com a opressão de todas as pessoas  se não acabarmos com a idéia da violência, da dominação, do poder, se não acabarmos com a idéia da opressão em si  a menos que percebamos que uma revolução na política sexual não é apenas uma parte, mas é fundamental para qualquer mudança real na qualidade de vida. A revolução social e cultural na América e no mundo depende de uma mudança de consciência da qual uma nova relação entre os sexos e uma nova definição de humanidade e de personalidade humana são partes integrantes.

A medida que despertarmos e começarmos a agir, haverá um número suficiente de nós e vamos ter tanto um propósito como um objetivo  a primeira condição verdadeiramente humana, a primeira sociedade verdadeiramente humana. Vamos começar a revolução e vamos começar com o amor: Todos nós, negros, brancos e dourados, machos e fêmeas, temos isso, dentro do nosso poder para criar um mundo que poderíamos suportar, fora do deserto em que vivemos para mantermos a nossa própria sorte em nossas mãos.


Quando feministas tomam conta de homens

26 nov

72131164Feministas tomam conta de homens (e do mundo tal como criado e visionado por homens, realmente):

1. Quando elas dão mais crédito ou dão mais peso para o que é falado por um feminista que nasceu macho do que para uma feminista que nasceu fêmea– exatamente como o patriarcado faz;

2. Quando questões específicas para aquelas nascidas fêmeas são de menor significância, interesse ou importância para elas do que questões específicas para aqueles nascidos machos – exatamente como é a verdade das instituições patriarcais;

3. Quando elas escolhem alianças com homens que se auto-identificam como feministas ou pró-feministas à alianças com mulheres feministas;

4. Quando elas falham em prezar, defender e proteger espaços reservados especificamente para o restabelecimento, construção coletiva e libertação daquelas nascidas fêmeas e marginalizam mulheres dedicadas a estes;

5. Quando elas falham em distinguir entre essencialismo biológico e os contínuos descobrimentos, reflexões e interrogações sobre opressões únicas e específicas daquelas nascidas fêmeas sob a heterosupremacia masculina;

6. Quando elas marginalizam, silenciam ou atacam mulheres que se dedicam às questões e interesses daquelas nascidas fêmeas, exatamente como o patriarcado faz;

7. Quando elas defendem e protegem a criação da pornografia e prostituição e tráfico de mulheres (que elas podem chamar de alguma coisa diferente, exatamente como o patriarcado faz);

8. Quando elas vêem noções de irmandade e solidariedade entre mulheres como antiquadas, passadas e retro(ativas) e não protegem e defendem as comunidades de mulheres, comunidades lésbicas em particular;

9. Quando elas participam da rasura contínua do “L” em “GLBT” (QDA).

10. Quando elas não vêem nenhum problema com a liderança masculina e/ou a cooptação de organizações feministas, instituições, eventos e estudos e ignoram, silenciam ou atacam mulheres feministas que se opõem ao envolvimento masculino e à liderança masculina;

12. Quando elas endossam ou suportam a suplantação de programas, instituições e recursos de ‘estudos de mulheres’, com programas, instituições e recursos de estudos de “gênero”;

13. Quando elas falham em reconhecer e vigorosamente advogar por e mentorar jovens brilhantes nascidas fêmeas e encorajam e advogam por aqueles nascidos machos ao invés;

14. Quando elas minimizam a significância e importância do separatismo lésbico, separatismo do feminismo radical e comunidades separatistas de mulheres em geral, sua importância para o movimento de libertação de mulheres, e então participam em sua perseguição e eliminação;

15. Quando elas usam o termo ‘o que há no meio das pernas’ de uma forma a minimizar ou apagar a significância e o sentido das experiências daquelas nascidas fêmeas sob a supremacia masculina;

16. Quando elas rejeitam, silenciam ou apagam as vidas de mulheres feministas e womanistas que são anciãs e falham em respeitar, honrar e defendê-las quando necessário;

17. Quando elas falham em reconhecer que mulheres são um povo colonizado;

18. Quando elas falham em investigar e iluminar os mecanismos, as dinâmicas e a história de colonização emocional, física, espiritual e histórica e a subordinação daquelas nascidas fêmeas por aqueles nascidos machos;

19. Quando elas desmerecem ou minimizam a significância da cultura de mulheres;

20. Quando elas participam das divisões no meio das mulheres feministas que são causadas de maneira contínua por homens auto-identificados feministas;

21. Quando elas são lesbofóbicas, separatista-fóbicas e radfem-fóbicas.

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Heart

http://womensspace.wordpress.com/2006/05/12/all-the-ways-feminists-take-care-of-men-1/

tradução por Camila e Janaína.